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Tempestade

Eletrosmog: sem prova de dano à pele por Wi-Fi e GPS, mas cosméticos exploram o tema

Cosmetologistas e dermatologistas falam em envelhecimento precoce, mas a Anatel diz não haver evidência convincente de efeito à saúde abaixo dos limites legais.

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Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Foto: Imagem gerada por IA/Paranashop
Nesta matéria
  1. O que dizem os defensores da tese
  2. Cautela e interesse comercial
  3. O que dizem Anatel, OMS e revisões científicas
  4. O que fica em aberto

Termo usado para a "poluição" das ondas de comunicação sem fio aparece em reportagens de 2019 e em lançamentos de cosméticos, mas não há respaldo oficial para o efeito na pele.

A ideia de que o "eletrosmog", nome dado às ondas eletromagnéticas de Wi-Fi, GPS e antenas, envelhece a pele não tem comprovação em fonte oficial, sociedade médica ou revisão científica localizada pelo Paranashop. A tese circula principalmente por meio de cosmetologistas, dermatologistas individuais e empresas de cosméticos. Já a Anatel afirma que não há evidências científicas convincentes de efeitos adversos à saúde abaixo dos limites de exposição fixados no Brasil.

O que dizem os defensores da tese

O termo junta "eletrônico" e "smog". Segundo Letícia Mazeto, farmacêutica cosmetologista da Tave Pharma, é usado para a "sujeira" das ondas das comunicações sem fio. Reportagem de 13 de setembro de 2019 define o fenômeno como a poluição eletromagnética de antenas, Wi-Fi e GPS, presente em quase todos os lugares.

A mesma reportagem afirma que o eletrosmog poderia envelhecer a pele precocemente, por meio de radicais livres e inflamação. A dermatologista Cláudia Marçal, que se apresenta como membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Academia Americana de Dermatologia, cita erupção cutânea, coceira e vermelhidão como sintomas. Segundo ela, seriam mais intensos em pacientes com hipersensibilidade eletromagnética.

Simone Veloso, mestre em dermatologia pela USP, alerta que a exposição às ondas liberaria metais tóxicos e radicais livres, associados ao envelhecimento precoce. Flacidez, rugas e porosidade aparecem entre os efeitos citados a longo prazo. Lucas Portilho, farmacêutico, diretor científico da Consulfarma e pesquisador em fotoproteção na Unicamp, diz que as ondas deixariam a pele mais suscetível a agressores ambientais.

Cautela e interesse comercial

Reportagem de A Gazeta traz tom mais cauteloso. A dermatologista Endrika Trindade Magnago afirmou: "não achei nada definitivo". Os autores do texto destacam a necessidade de mais estudos e apontam que o filtro solar pode não oferecer a mesma proteção contra o eletrosmog.

Há também produtos ligados ao tema. A Consulfarma lançou o Creme Anti-Wifi durante seu 14º Congresso Internacional de Tendências de Beleza. O ativo é um blend de beta caroteno com óleos vegetais, apresentado na feira In Cosmetics, em Paris, e o creme é vendido em farmácias de manipulação.

O pesquisador da empresa cita um teste de laboratório em que a epiderme humana reconstituída apresentou descamação severa do estrato córneo após 6 horas de irradiação. Nas fontes consultadas, não foi localizada publicação científica revisada por pares sobre esse teste. O Metrópoles citou ainda um produto alemão da marca Vivobase, vendido a € 349 (cerca de R$ 1.600), que promete agir contra o eletrosmog.

A Consulfarma amplia o conceito e inclui nele a luz azul de telas. Radiofrequência e luz visível são fenômenos físicos diferentes, o que torna a definição da empresa mais ampla que a usada nas demais reportagens.

O que dizem Anatel, OMS e revisões científicas

No Brasil, os limites de exposição humana a campos eletromagnéticos foram fixados pela Lei nº 11.934, de 5 de maio de 2009. Segundo a Anatel, o país adota os limites da ICNIRP, recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A norma vale para estações de radiocomunicação, terminais de usuário e sistemas de energia elétrica, em faixas de até 300 GHz.

Os requisitos técnicos foram atualizados pelo Ato nº 17865, de 30 de dezembro de 2023, que substituiu o Ato nº 458/2019. Pela Portaria nº 2768, de 29 de janeiro de 2024, um local é considerado "relevante" quando tem pontos de exposição iguais ou superiores a 14 V/m. Está em conformidade se a média das medições não passar de cerca de 27,7 V/m.

Como referência, um estudo de 2015 (Silva e outros), citado em trabalho acadêmico do IFMA, mediu campo elétrico de 0,1 a 0,2 V/m a 5 metros de um roteador.

As pesquisas sobre saúde mais citadas tratam de câncer, não de pele. Em 2011, a OMS e a agência IARC classificaram os campos de radiofrequência como "possivelmente carcinogênicos" (Grupo 2B), com base em risco maior de glioma e neuroma acústico associado ao uso de telefones sem fio, sem quantificar o risco.

Revisão sistemática encomendada pela OMS e publicada em 2024 na Environment International analisou mais de 5 mil estudos e considerou 63 observacionais, de 22 países, os mais confiáveis. Liderada por Ken Karipidi, da agência australiana Arpansa, concluiu que não há evidência de que o celular aumente o risco de câncer no cérebro. Karipidi afirmou que a incidência desses cânceres não cresceu apesar do uso muito maior da tecnologia nas últimas duas décadas.

Há divergência na literatura. Outra revisão encomendada pela OMS, de Mevissen e outros (2025), concluiu com alta certeza de evidência que a exposição a radiofrequência aumenta o risco de glioma maligno e schwannoma maligno em animais de laboratório.

O que fica em aberto

Nenhuma das fontes oficiais consultadas trata de efeitos de Wi-Fi ou GPS sobre a pele. As afirmações sobre envelhecimento partem de profissionais e empresas, em reportagens de 2019, e não de estudos revisados por pares citados no material.

Fontes: Anatel, OMS/IARC, revisões publicadas na Environment International, reportagens de A Gazeta e do Metrópoles, informações da Consulfarma.

Fonte: Endereço antigo do site

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