Entidade da categoria afirma que preenchimentos e toxina botulínica aplicados sem critério podem tirar a naturalidade da face; levantamento encomendado pela própria sociedade mostra que mais de 6 milhões de brasileiros já fizeram procedimentos com não médicos.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) alerta para o que chama de debate sobre o "rosto artificial": resultados exagerados de procedimentos estéticos que deixam traços parecidos entre si e reduzem a expressão facial. O tema, que ganhou força nas redes sociais, é associado ao que a internet batizou de "overbeauty" e é tratado por especialistas com outros nomes, como "face robotizada", "desarmonização facial" e "pillow face" (rosto de almofada).
Segundo a SBCP, mudanças marcantes no rosto de celebridades, comentadas após aparições em eventos internacionais, recolocaram em pauta os limites dos procedimentos faciais. A entidade diz que o excesso de intervenções pode levar a traços padronizados.
O que dizem os especialistas
O presidente da SBCP, Marcelo Sampaio, afirma que parte das intervenções segue uma lógica de "padronização". Ele descreve uma "tendência à face que eu chamo de robotizada". Segundo ele, preenchimentos, toxina botulínica e outros procedimentos feitos sem critério podem comprometer os movimentos naturais do rosto e a comunicação não verbal.
A sociedade informa que a orientação em congressos internacionais é outra: antes de qualquer intervenção, é preciso respeitar anatomia, idade e estrutura óssea do paciente, para que procedimentos isolados não "puxem" todos os rostos para o mesmo resultado.
O cirurgião plástico Eduardo Sucupira disse ao jornal Estado de Minas, em outubro de 2026, que na cirurgia facial preservar expressão, características individuais e naturalidade é tão importante quanto o rejuvenescimento.
A especialista Elisângela Cozzer, citada pelo portal MedFoco, afirma que a desarmonização facial é consequência direta de uma fase de exageros em procedimentos que deveriam realçar a beleza natural. Segundo ela, muitas celebridades estão revertendo preenchimentos.
Em material publicado no Canal Ideal, uma médica descreve o efeito "pillow face" como o resultado de procedimentos aplicados de forma exacerbada, que descaracterizam a fisionomia e deixam pacientes irreconhecíveis, com rostos volumosos, artificiais ou desarmônicos.
Banalização e saúde mental
Um artigo do Grupo A Hora, de 14 de fevereiro de 2026, faz crítica semelhante. O texto diz que a banalização tornou os exageros rotina, com profissionais que simplificam técnicas complexas para aplicá-las em grande escala.
Em texto de opinião publicado pelo Factual Brasil em janeiro de 2025, o psicólogo André Ferreira associa a busca incessante por mudanças ao Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), condição em que a pessoa enxerga defeitos inexistentes ou exagerados na própria aparência. Segundo ele, esses pacientes passam por vários procedimentos sem nunca se sentirem satisfeitos.
Há também um movimento em sentido contrário. Reportagem do Estado de Minas de setembro de 2024 aponta o avanço do conceito "quiet beauty" ("menos é mais"), que prioriza resultados mais naturais.
Procedimentos com não médicos
Em março de 2026, a SBCP encomendou uma pesquisa com 2.086 brasileiros de 16 anos ou mais, de todas as classes sociais e das cinco regiões do país. Segundo a CNN Brasil, o levantamento indica que mais de 6 milhões de brasileiros já fizeram procedimentos estéticos com profissionais que não são médicos.
Na mesma pesquisa, os procedimentos feitos por cirurgiões plásticos receberam nota média 8, e os realizados por não médicos, nota média 3. A SBCP afirma que os números acendem um alerta sobre a banalização dos procedimentos. O levantamento foi encomendado pela própria entidade, que representa a categoria.
O tamanho do mercado
O Brasil está entre os maiores mercados do mundo. Segundo a SBCP, com base em relatório da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) de 2024, foram cerca de 2,35 milhões de cirurgias plásticas no país, e mais de 3,1 milhões ao somar os procedimentos minimamente invasivos. O DCOMÉRCIO cita quase 2,4 milhões de cirurgias e 3,1 milhões no total, e coloca o Brasil em primeiro lugar em cirurgias.
Ainda de acordo com o DCOMÉRCIO, os procedimentos cirúrgicos mais realizados em 2024 foram lipoaspiração (cerca de 290 mil), aumento de mamas (232 mil), blefaroplastia, cirurgia de pálpebras (231 mil), abdominoplastia (193 mil) e aumento de glúteos (168 mil).
No mundo, segundo a ISAPS citada pela CNN Brasil, a toxina botulínica segue como o procedimento não cirúrgico mais comum, com 7,8 milhões de aplicações feitas por cirurgiões plásticos. O preenchimento com ácido hialurônico cresceu 5,2% e chegou a 6,3 milhões. Entre os procedimentos faciais, a cirurgia de pálpebras passou de 2,1 milhões (alta de 13,4%), a rinoplastia ficou em 1 milhão (queda de 10%) e o enxerto de gordura facial chegou a 0,9 milhão (alta de 19,2%).
Não foram encontrados dados específicos sobre o volume de procedimentos estéticos ou de complicações no Paraná.
Fontes
Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), CNN Brasil, Estado de Minas, DCOMÉRCIO, MedFoco, Canal Ideal, Grupo A Hora e Factual Brasil.



