*Problemas neurológicos, cardiológicos, circulatórios e emocionais estão entre as queixas de quem teve Covid-19 e segue com sintomas meses depois, segundo especialistas e estudos.*
A chamada Covid longa, ou condição pós-Covid, continua no radar dos serviços de saúde de Curitiba e do Paraná. Fadiga, falta de ar, dificuldade de concentração, queda de cabelo e risco de trombose aparecem entre as sequelas mais citadas por médicos e pesquisas ouvidas pelo Paranashop em material publicado desde 2021.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a condição oficialmente. De acordo com a ONU Brasil, ela costuma surgir três meses após o início da Covid-19, com sintomas que duram pelo menos dois meses e não são explicados por outro diagnóstico.
O que é a Covid longa
Janet Diaz, chefe de Gerenciamento Clínico da OMS, citou como sintomas fadiga, falta de ar e disfunção cognitiva, entre outros que afetam o dia a dia. Segundo a organização, os sintomas podem aparecer depois da recuperação inicial ou persistir desde a doença original, e também podem oscilar ou voltar com o tempo.
A ONU Brasil informa que ainda não há clareza entre os profissionais de saúde sobre a condição e que não existem testes específicos para diagnosticá-la. O Hospital Marcelino Champagnat, de Curitiba, afirma que a OMS a reconhece desde outubro de 2021.
Os critérios de tempo variam entre as fontes. Um portal português consultado fala em quatro semanas ou mais de sintomas, mas a maioria das definições clínicas exige pelo menos 12 semanas.
Sequelas mais citadas
Uma tabela da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, usada no fluxo de atendimento da Atenção Primária, lista frequências e durações dos sintomas. A fadiga aparece em 15% a 87% dos casos, por três meses ou mais, e a dispneia (falta de ar) em 10% a 71%, por dois a três meses ou mais.
O desconforto torácico foi registrado em 12% a 44% dos pacientes, e a tosse em 17% a 34%, ambos por dois a três meses ou mais. A perda de olfato (anosmia) aparece em 10% a 13%, por um mês ou mais.
Um estudo multicêntrico brasileiro, publicado no Brazilian Journal of Infectious Diseases, avaliou 1.907 pessoas e identificou Covid longa em 67% delas (1.281). Os sintomas mais prevalentes foram fadiga (60%) e dificuldade de concentração (55%). Sexo feminino, gravidade da doença, número de infecções e comorbidades elevaram o risco, e a imunização completa foi fator de proteção.
Efeitos no cérebro, no coração e no cabelo
Em matéria de setembro de 2021, o Paranashop citou uma meta-análise do Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry que revisou 215 estudos e concluiu que sequelas neurológicas são comuns entre pacientes curados. Para o neurologista e neuro-oncologista Gabriel Novaes de Rezende Batistella, “o cérebro acaba sendo um alvo fácil durante o processo de doença por diversos acontecimentos em simultâneo no corpo”.
Segundo o médico, entre as causas estão a falta de oxigênio, danos nos vasos, a alta carga inflamatória e a invasão do cérebro pelo vírus. Ele lista como sequelas frequentes fadiga, dores musculares, dor de cabeça, tontura, dificuldades de memória e concentração, além de insônia.
A nutróloga Marcella Garcez, da Associação Brasileira de Nutrologia, afirmou que pacientes com quadros graves têm como prioridade recuperar a massa muscular perdida. Já nos casos leves, segundo ela, as queixas incluem cansaço físico e emocional, fraqueza muscular, alterações de paladar e olfato e disfunções circulatórias, que vão de pequenos coágulos à queda de cabelo.
O cardiologista e intensivista Paulo Negreiros, do Marcelino Champagnat, explicou ao Bem Paraná que pacientes hipertensos têm mais risco de desenvolver trombose após a Covid-19. O diretor-técnico da Santa Casa de Curitiba disse à Gazeta do Povo que o paciente muitas vezes busca tratamento para falta de ar sem relacionar a queda de cabelo à doença.
O Bem Paraná também relatou que estresse pós-traumático, ansiedade e depressão são comuns em quem ficou mais tempo internado.
Estimativas e atendimento no Paraná
O Bem Paraná, com base na estimativa da OMS de que 1 em cada 10 pessoas tem problemas persistentes após 12 semanas, calculou mais de 90 mil paranaenses com sequelas. A Gazeta do Povo chegou a cerca de 141 mil. A diferença ocorre porque os cálculos partem de totais de casos de datas distintas.
Em Curitiba, o ambulatório pós-Covid do Hospital Universitário Cajuru começou em novembro de 2020 como projeto piloto. A equipe inclui pneumologista, fisioterapeutas, psicólogo, neuropsicólogo e cardiologista. O gerente médico, José Augusto Ribas Fortes, relatou maior índice de fadiga crônica, dificuldade cognitiva, dores no corpo e sequelas psicológicas.
No cenário mais recente, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) informou que, nas semanas epidemiológicas 1 a 18 de 2026, o Paraná registrou 6.683 hospitalizações e 281 óbitos por complicações respiratórias, com 271 casos de Covid-19 confirmados em laboratório. A Sesa afirma que a vacinação contra gripe, Covid-19 e VSR é a forma mais eficaz de evitar as doenças e suas complicações.
Quem tem sintomas persistentes após a Covid-19 deve procurar um médico para avaliação e início do tratamento, orientação já presente na matéria publicada pelo Paranashop em 2021.
Fontes: ONU Brasil; Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba; Brazilian Journal of Infectious Diseases; Bem Paraná; Gazeta do Povo; Secretaria de Estado da Saúde do Paraná; Hospital Marcelino Champagnat; matéria do Paranashop de setembro de 2021.



