Paraná: 1 em cada 4 mulheres viveu violência e não a reconheceu, diz estudo

O recorte estadual da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, mostra que cerca de 25% das paranaenses relataram ter vivido ao menos uma situação concreta de agressão nos últimos 12 meses sem declará-la espontaneamente como violência.

No Paraná, cerca de 25% das mulheres relataram ter vivido, nos 12 meses anteriores à pesquisa, ao menos uma das situações concretas de violência investigadas — mesmo sem declarar espontaneamente ter sofrido violência doméstica ou familiar. É o que aponta o Mapa Nacional da Violência de Gênero, recém-atualizado com os resultados por unidade da Federação da 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher.
O índice do estado oscila dentro da margem de erro da estimativa nacional (29%), o que não permite classificá-lo como distinto do patamar do país. Ainda assim, o dado expõe a distância entre a violência vivida pelas mulheres e aquela que chega aos registros oficiais — e, portanto, ao alcance das políticas públicas de proteção e acolhimento.
A análise foi possível pelo cruzamento de dados, uma das premissas do Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), do Senado Federal, em parceria com o Instituto Natura e a Gênero e Número.
A pesquisa
A 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher foi realizada pelo DataSenado em 2025, com o objetivo de investigar o problema além das estatísticas oficiais. O levantamento ouviu 21.641 mulheres de 16 anos ou mais em todo o Brasil, entre 16 de maio e 8 de julho de 2025, com amostra probabilística e nível de confiança de 95%.
“Ampliar a Rede de Proteção é fundamental, mas os dados mostram que precisamos olhar também para o que acontece antes de a mulher chegar à Rede. Uma política pública só consegue proteger plenamente quando as mulheres têm informação para reconhecer a violência, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessíveis e seguros para buscar ajuda”, afirma Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal.
Os números do Paraná
Segundo o levantamento, 24% das paranaenses já sofreram violência doméstica ou familiar provocada por homem ao longo da vida, e 13% afirmam ter passado por esse tipo de violência nos 12 meses anteriores à pesquisa.
Entre as mulheres que declararam ter sofrido violência provocada por um homem, 93% relataram violência psicológica, 90% violência moral e 76% violência física. Em 59% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima no momento da agressão.
Do total de vítimas no estado, 17% ainda convivem com quem as agrediu e, destas, 58% moram com o agressor. Nas situações de violência mais grave, 57% das entrevistadas afirmaram que o agressor estava inconformado com o término ou a tentativa de término do relacionamento, e 55% disseram que ele estava com ciúmes.
Para 77% das mulheres que encerraram o relacionamento com o agressor, a violência teve muita influência na decisão. O impacto na vida profissional ou no trabalho remunerado foi sentido por 49% das vítimas, enquanto 47% disseram que os estudos foram afetados.
“Os dados ajudam a romper com uma leitura da violência doméstica como um episódio isolado. A violência não termina quando a agressão acaba: ela reorganiza a rotina, afeta relações, trabalho, renda e as possibilidades que uma mulher tem de tomar decisões sobre a própria vida”, afirma Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número.
Conhecimento sobre direitos e proteção
A pesquisa aponta que 68% das paranaenses conhecem alguma amiga, familiar ou pessoa próxima que já sofreu violência doméstica ou familiar. Ao mesmo tempo, 66% acreditam que as mulheres denunciam as agressões “na minoria das vezes” e 20% acham que elas não denunciam.
O conhecimento sobre os instrumentos de proteção ainda é limitado: 67% das mulheres dizem conhecer pouco a Lei Maria da Penha e 9% afirmam não conhecer nada sobre a legislação. Em relação às medidas protetivas, 65% relatam conhecê-las pouco e 13% dizem não ter conhecimento sobre o recurso.
A Delegacia da Mulher é o serviço de proteção mais conhecido pelas paranaenses, citado por 94% das entrevistadas, seguido pelo CRAS ou Creas (88%) e pela Defensoria Pública (83%). Os dados indicam ainda que 73% das paranaenses perceberam aumento da violência doméstica e familiar contra as mulheres nos 12 meses anteriores à pesquisa, e que 64% enxergam o Brasil como um país “muito machista”.
No Brasil, 93,6% não buscaram proteção policial
Das quase 29 milhões de mulheres que sofreram violência doméstica ou familiar nos últimos 12 meses no Brasil, cerca de 24,97 milhões (87%) relataram situações concretas de violência sem nomeá-las espontaneamente como violência. Somando a esse grupo 1,87 milhão de mulheres que declararam ter sofrido violência, mas não acionaram a delegacia, o Ligue 180 ou o 190, chega-se a 26,84 milhões de brasileiras — 93,6% das vítimas na lacuna entre a violência vivida e a busca por proteção policial.
De acordo com o levantamento, apenas 4% das brasileiras declararam ter sofrido violência doméstica ou familiar nos últimos 12 meses. Porém, ao serem questionadas sobre situações específicas, sem que o termo “violência” fosse citado, o percentual sobe para 33%. Ou seja, 29% da população feminina brasileira vivenciou essas situações sem identificá-las espontaneamente como violência.
“Para quase 25 milhões de brasileiras, a violência aparece apenas quando perguntamos o que aconteceu, mas desaparece quando perguntamos diretamente se elas sofreram violência. Isso revela uma barreira anterior ao próprio acesso à política pública: reconhecer e nomear o que se está vivendo”, afirma Beatriz Accioly, gerente de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra as Mulheres do Instituto Natura.
“O Mapa Nacional não é apenas mais um agregador de dados sobre o tema. É talvez o principal instrumento público capaz de expor, comparar, confrontar e mudar a realidade vivida, a cada 12 meses, pelas mulheres no Brasil”, afirma José Henrique Varanda, coordenador do Instituto de Pesquisa DataSenado.
Onde buscar ajuda
Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher: canal gratuito e sigiloso, que funciona 24 horas para orientar e encaminhar denúncias.
190 — Polícia Militar: para situações de emergência ou risco imediato.
Delegacia da Mulher e Defensoria Pública: atendimento especializado e orientação jurídica.
Sobre o Mapa Nacional da Violência de Gênero
O Mapa é uma plataforma pública e interativa fruto da parceria entre o Senado Federal — representado pelo Observatório da Mulher contra a Violência e pelo DataSenado —, o Instituto Natura e a Gênero e Número. A agenda de Direitos e Saúde das Mulheres do Instituto Natura é realizada em parceria com a Avon, a partir da integração com o Instituto Avon.
Fontes: DataSenado, Observatório da Mulher contra a Violência (Senado Federal), Instituto Natura e Gênero e Número. Mais informações no Mapa Nacional da Violência de Gênero.



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