Se alguém disser que uma situação é muito cringe, que alguém tem rizz ou que não consegue tankar alguma coisa, está usando expressões que circulam entre jovens conectados às redes sociais. Para quem não acompanha esse vocabulário, a conversa pode parecer uma língua estrangeira. Para adolescentes e jovens adultos, são palavras que ajudam a expressar humor, aprovação, crítica e identidade de grupo.
TikTok, Instagram, YouTube, jogos eletrônicos e comunidades digitais aceleram a circulação dessas expressões. Uma palavra pode aparecer em um vídeo, ser adaptada por usuários brasileiros e chegar às conversas presenciais. Nem todas, porém, são propriamente novas: algumas já circulavam em comunidades específicas e ganharam visibilidade mais ampla com as plataformas digitais.
Há ainda uma particularidade brasileira: enquanto a internet espalha termos de alcance internacional, as expressões regionais seguem marcando diferenças culturais. Em Curitiba, alguém pode chamar o amigo de piá; em Minas Gerais, o uai aparece em diferentes situações; no Nordeste, oxente e massa têm usos próprios. O português falado no país reúne repertórios diversos, que variam conforme região, idade e contexto.
Geração Z e Alpha: por que tantas palavras novas?
As classificações geracionais são aproximadas e não existe uma fronteira universalmente aceita para todas elas. Uma referência bastante utilizada situa a geração Z entre os nascidos de 1997 a 2012. A geração Alpha costuma designar os nascidos a partir do início da década de 2010, mas o ano final e o marco inicial variam entre pesquisadores e publicações.
Mais do que a idade, a experiência tecnológica ajuda a explicar parte do vocabulário. Redes sociais, vídeos curtos, transmissões ao vivo e jogos online aproximam comunidades que antes tinham menos contato. Expressões em inglês são incorporadas, adaptadas à pronúncia brasileira e misturadas a palavras já usadas no país.
As gírias também cumprem uma função social: ajudam a criar pertencimento e a marcar referências compartilhadas. A linguista Luciana Migliaccio, ouvida pela Folha de S.Paulo, observa que a linguagem dos jovens recebe influências de redes sociais, memes, jogos e palavras estrangeiras. O fenômeno não é exclusivo dos adolescentes: diferentes grupos sociais desenvolvem vocabulários próprios.
Dicionário das gírias: o que significam?
Os significados abaixo representam usos frequentes em redes e conversas informais. Não são definições fixas: o sentido pode mudar conforme a comunidade, a frase e a entonação.
| GíriaSignificado mais comum | |
| Cringe | Algo que provoca vergonha alheia ou constrangimento. |
| Tankar | Suportar, aguentar ou conseguir lidar com uma situação; termo associado ao vocabulário dos games. |
| Flopar | Fracassar ou não alcançar o sucesso e a repercussão esperados. |
| Hitar | Fazer sucesso, bombar ou viralizar. |
| Rizz | Charme ou habilidade de flertar e conquistar alguém. |
| Delulu | Abreviação de delusional: alguém iludido ou com expectativas pouco realistas, muitas vezes em tom de brincadeira. |
| Slay | Arrasar, brilhar ou fazer algo muito bem. |
| Serviu | Elogio para alguém que impressionou ou entregou uma apresentação, visual ou resposta marcante. |
| Gag | Ficar chocado, admirado ou sem palavras diante de algo impressionante. |
| Farmar aura | Acumular simbolicamente carisma, estilo ou prestígio por uma atitude considerada marcante. |
| POV | Sigla de point of view (ponto de vista), usada para apresentar uma cena por determinada perspectiva. |
| Red flag | Sinal de alerta sobre um comportamento ou situação. |
| Green flag | Característica positiva, vista como sinal de confiança ou compatibilidade. |
| Shippar | Torcer para que duas pessoas formem um casal. |
| Ghosting | Interromper o contato e desaparecer de uma conversa ou relação sem explicação. |
| Situationship | Relação afetiva sem definição clara de compromisso ou status. |
| Old | Algo considerado velho, conhecido ou que já deixou de ser novidade. |
| PPRT / Pprt | Abreviação de “papo reto”: conversa direta, sem rodeios. |
| Se pá | Talvez, quem sabe ou possivelmente. |
| Juro | Marcador de fala que pode reforçar sinceridade, concordância, ironia ou incredulidade. |
| Jantou | Venceu uma discussão com uma resposta considerada certeira ou contundente. |
| Six-seven (6-7) | Meme verbal popular entre crianças e pré-adolescentes. Costuma ser repetido como brincadeira, sem significado estável ou consenso. |
| Brain rot | Expressão usada para falar de conteúdo online considerado raso, repetitivo ou absurdo e, em tom autocrítico, do consumo excessivo desse tipo de material. |
Algumas expressões têm origens identificáveis. Rizz é uma redução de charisma e ganhou projeção internacional. Tankar veio do vocabulário dos jogos, no qual “tank” é um personagem capaz de resistir a danos. Já farmar remete à repetição de tarefas nos games para acumular pontos ou recursos; na expressão “farmar aura”, o que se acumula simbolicamente é carisma ou prestígio.
Six-seven é um caso diferente. A expressão viralizou como meme entre crianças e adolescentes, em parte justamente por não ter um significado objetivo compartilhado. Atribuir a ela uma tradução literal ou um sentido único seria enganoso. Reportagens recentes também observam que o termo está mais associado à geração Alpha do que à geração Z.
Gírias regionais: cada região tem seu repertório
As expressões regionais não são um idioma separado nem pertencem necessariamente a todos os moradores de um estado. São marcas de fala que variam entre cidades, grupos sociais e gerações. Algumas atravessam fronteiras e ganham novos sentidos em outros lugares.
No Paraná e em Curitiba
- Piámenino, garoto ou jovem; também aparece como tratamento informal entre pessoas próximas.
- Guriamenina ou moça.
- Vinasalsicha, especialmente a usada no cachorro-quente curitibano. A palavra é associada ao alemão Wiener, referência a Viena.
- Penalestojo escolar para guardar lápis, canetas e outros materiais.
- Capazpode expressar surpresa, incredulidade ou recusa educada, conforme a entonação e a situação.
- Piazadagrupo de meninos, jovens ou amigos.
- Ligeirinhonome de uma categoria de ônibus do sistema de transporte de Curitiba; também é reconhecido no vocabulário cotidiano da cidade.
- Japonapalavra usada por muitos curitibanos para se referir a uma jaqueta ou casaco mais pesado.
Uma conversa pode começar com “E aí, piá?” e terminar com um convite para comer um cachorro-quente com vina. Para quem chega de outra região, esse repertório pode causar estranhamento; para muitos moradores, é parte da identidade local.
No Rio Grande do Sul
- Bahinterjeição de surpresa, admiração, indignação ou intensidade.
- Tchêforma informal de chamar alguém ou reforçar uma frase.
- Trimuito, bastante ou extremamente, como em “tri legal”.
- Guri e guriamenino e menina.
Em São Paulo
- Manotratamento informal entre amigos.
- Parçaparceiro ou companheiro.
- Móforma coloquial de “maior” ou “muito”, como em “mó legal”.
- Colaraparecer ou comparecer a algum lugar.
No Rio de Janeiro
- Mermãoforma de tratamento derivada de “meu irmão”.
- Maneiroalgo legal ou interessante.
- Caômentira, conversa enganosa ou desculpa.
- Brotaraparecer ou chegar a algum lugar.
Em Minas Gerais
- Uaiinterjeição versátil de surpresa, questionamento ou afirmação.
- Trempalavra que, na fala informal, pode designar objetos ou situações variadas.
- Nuinterjeição de espanto ou admiração em determinados usos mineiros.
- Sôtratamento informal usado para chamar alguém.
No Nordeste
- Oxente / oxeexpressões de surpresa, espanto ou questionamento, com variações locais.
- Massaalgo bom, interessante ou agradável.
- Arretadopode significar excelente, intenso ou bravo, conforme o contexto.
- Visseexpressão que reforça uma afirmação ou chama a atenção do interlocutor em variedades regionais.
- Abestadopessoa considerada ingênua, distraída ou atrapalhada; o tom pode ser brincalhão ou ofensivo.
Essas listas são exemplos, não um retrato completo de cada estado. O Nordeste, por exemplo, reúne variedades linguísticas muito diferentes entre si, assim como ocorre no Sul e no Sudeste. A pesquisa do Atlas Linguístico do Brasil documenta justamente a diversidade geográfica e social do português falado no país.
As gírias também influenciam consumo e comportamento
A transformação da linguagem alcança a publicidade, o comércio e o ambiente profissional. Marcas de roupas, empresas de tecnologia, restaurantes e criadores de conteúdo recorrem a expressões populares para tentar conversar com públicos mais jovens. Quando o uso parece espontâneo, pode gerar identificação; quando soa forçado, pode virar motivo de piada.
Nas escolas e nas famílias, o desafio é distinguir informalidade de inadequação. Uma mensagem em um grupo de amigos permite abreviações, memes e brincadeiras. Um currículo, um documento profissional ou uma redação escolar pede outro registro. Conhecer a diferença entre esses contextos é parte da competência de comunicação.
As gírias também podem aproximar gerações quando adultos demonstram curiosidade em vez de tratar toda novidade como erro. A linguagem muda, mas a necessidade de conversar e ser compreendido continua a mesma.
A língua muda, mas a identidade permanece
Gírias não nasceram com a internet. Cada geração teve expressões que pareciam estranhas aos mais velhos e que, em alguns casos, acabaram incorporadas ao cotidiano. A diferença atual é a velocidade de circulação: uma brincadeira criada em uma comunidade pode alcançar pessoas de várias regiões em pouco tempo.
Ao mesmo tempo, palavras como piá, vina, bah, uai e oxente preservam referências culturais e histórias locais. A língua brasileira não é uniforme: ela se transforma nas conversas, nas ruas, nas escolas, nos jogos e nas redes.
A próxima expressão que vai dominar os grupos de mensagens pode nascer de um vídeo de poucos segundos ou de uma palavra antiga recuperada por uma nova geração. Quando isso acontecer, talvez a pergunta não seja apenas “o que significa?”, mas também “de onde veio e o que revela sobre quem a usa?”.
Fontes e referências
- Folha de S.Paulo, Vitor Hugo Batista, 9 maio 2026 – “Old”, “juro”, “pprt”: gírias da geração Z desafiam comunicação com as mães.
- GZH / Zero Hora, 12 junho 2026 – “Gag”, “farmar aura”, “delulu” e “rizz”: o que significam as gírias que dominam a internet em 2026.
- Rádio Itatiaia, 16 abril 2026 – “Farmar aura”, “six seven” e mais: quais são e o que significam as gírias da nova geração.
- UOL Tilt, 1 junho 2025 – Nerfar? Este guia vai te explicar as gírias jovens da internet.
- RPC – Gírias e trejeitos curitibanos: descubra as expressões mais comuns da capital paranaense.
- Curitiba Histórica – Gírias de Curitiba.
- Capricho, 23 abril 2026 – “Gag” e “flopar”: estas são as gírias que dominam a geração Z e Alpha.
Nota editorial: gírias são usos informais e mutáveis. Os significados podem variar conforme região, grupo, idade e plataforma. As classificações geracionais são aproximadas.
Edição: Marcos Paulo Assis
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.



