Uma ligação telefônica, uma contribuição por Pix ou uma doação feita pela internet. Para milhões de brasileiros, o Criança Esperança representa uma oportunidade de ajudar crianças e adolescentes que vivem em situação de vulnerabilidade. Mas uma pergunta permanece legítima: para onde vai o dinheiro arrecadado e quem garante que ele chega efetivamente a quem precisa?
A resposta encontrada na documentação oficial indica que a campanha possui uma estrutura institucional de gestão e controle. A Globo é responsável pela mobilização pública, enquanto a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) recebe os recursos, seleciona as organizações beneficiadas, realiza os repasses e acompanha a execução dos projetos.
Segundo as perguntas frequentes publicadas pela própria Globo, as doações são depositadas diretamente em uma conta da UNESCO. Portanto, o dinheiro não passa pelo caixa da emissora, conforme esclarece a organização. A campanha também não oferece dedução do Imposto de Renda ao doador.
A parceria entre Globo e UNESCO começou em 2004. Antes disso, o Criança Esperança teve participação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o que explica por que algumas pessoas ainda associam a campanha às duas instituições.
Quem audita o Criança Esperança?
Esta é uma das questões mais relevantes para quem deseja doar com segurança.
A UNESCO não é um instituto de auditoria, mas uma agência especializada das Nações Unidas. Suas próprias demonstrações financeiras são submetidas a auditoria externa, conforme as regras financeiras aprovadas pelos Estados-membros.
Em novembro de 2023, a Conferência Geral da UNESCO nomeou Tsakani Maluleke, auditora-geral da África do Sul, para exercer a função de auditora externa da organização no período de 2024 a 2029. A nomeação está registrada oficialmente nos documentos da Conferência Geral.
A Auditoria-Geral da África do Sul (Auditor-General South Africa) informou, em novembro de 2025, que havia concluído sua primeira auditoria das contas da UNESCO, referentes ao exercício de 2024. O resultado foi uma opinião sem ressalvas, conhecida internacionalmente como clean audit.
Isso representa um elemento institucional favorável à confiança na organização responsável pela gestão da campanha.
Existe, entretanto, uma diferença que precisa ser compreendida: a auditoria externa das contas gerais da UNESCO não equivale, automaticamente, a uma auditoria individual e independente de cada edição do Criança Esperança. A documentação pública consultada não identifica uma empresa de auditoria contratada exclusivamente para fiscalizar a campanha, nem apresenta um parecer separado que certifique individualmente todo o dinheiro arrecadado em cada edição.
A resposta mais precisa, portanto, é que a UNESCO possui auditoria externa institucional, enquanto os projetos beneficiados estão sujeitos a controles, acompanhamento e prestação de contas específicos.
Como o dinheiro chega às instituições beneficiadas?
O processo começa antes mesmo de uma organização receber qualquer recurso. A UNESCO abre um edital público, estabelece critérios de participação e avalia as propostas encaminhadas por organizações da sociedade civil.
No processo seletivo de 2026, destinado a apoiar projetos que serão executados em 2027, as entidades precisam comprovar existência jurídica, pelo menos três anos de fundação e registro válido em um Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente, de Assistência Social ou de Educação.
Também são exigidos documentos contábeis, incluindo balanços patrimoniais e demonstrações do resultado do exercício, assinados por contador habilitado. Certidões de regularidade fiscal, trabalhista e do FGTS integram a documentação obrigatória.
A avaliação não se limita à existência legal da instituição. São considerados a experiência da organização, a capacidade da equipe responsável, a consistência da proposta, o público atendido e o potencial de transformação social.
Outro ponto interessante é que a apresentação de relatórios anuais de atividades, instrumentos de transparência e relatórios de auditoria externa da própria entidade pode contribuir para a pontuação do projeto.
O edital estabelece ainda que os recursos sejam depositados em uma conta bancária exclusiva para movimentação financeira do projeto. O dinheiro é repassado em quatro parcelas: 18%, 62%, 10% e 10%. A última parcela funciona como reembolso e depende da aprovação da prestação de contas final.
Para o ciclo de apoio de 2027, os valores previstos são de R$ 150 mil, R$ 200 mil ou R$ 250 mil por projeto, com duração de 12 meses.
Na prática, isso significa que uma instituição não recebe simplesmente um cheque para utilizar como desejar. Ela precisa apresentar um plano de trabalho, demonstrar como os recursos serão empregados e comprovar a execução das atividades previstas.
O Paraná também recebe recursos da campanha?
Sim. O histórico de projetos apoiados mostra que organizações paranaenses já participaram da iniciativa.
Entre os exemplos divulgados pela Rede Globo estão a Associação de Apoio e Assessoramento à Comunidade Surda (ACAP Geny Ribas), de Ponta Grossa; a Associação Pontagrossense de Assistência à Criança Deficiente (APACD); a Congregação dos Oblatos de São José – Centro de Educação Infantil Menino de Nazaré, de Curitiba; e o Centro Assistencial Lar São Francisco de Assis, de Jandaia do Sul, incluído em uma relação de instituições apoiadas em edição anterior.
Há registros de outras entidades paranaenses em diferentes edições. A lista de contemplados, entretanto, muda conforme os processos seletivos e a disponibilidade de recursos. Não se deve confundir projetos aprovados em fundos estaduais ou municipais com iniciativas financiadas pelo Criança Esperança.
Para o processo seletivo de 2026, referente ao apoio em 2027, o edital estabeleceu uma distribuição regional que reserva 8% dos recursos disponíveis à Região Sul. O percentual é uma referência regional, não uma garantia de que determinado município ou instituição receberá dinheiro.
O processo seletivo seguinte, anunciado em outubro de 2026, abriu inscrições para organizações interessadas em receber apoio em 2028.
O que muda na vida de uma criança?
A discussão sobre confiabilidade não pode ficar restrita aos números arrecadados e aos procedimentos administrativos. O resultado mais importante é aquilo que acontece depois que o dinheiro chega à instituição.
Imagine uma criança que passa parte do dia sozinha enquanto os pais trabalham. Uma organização social pode oferecer alimentação, acompanhamento pedagógico, atividades esportivas, oficinas culturais e convivência com profissionais preparados.
Em outra realidade, uma criança com deficiência pode ter acesso a atendimento especializado, equipamentos e atividades que seriam financeiramente inacessíveis para sua família.
Para adolescentes, oficinas de tecnologia, música, leitura e preparação profissional podem representar uma oportunidade concreta de desenvolver habilidades e construir alternativas de futuro.
Os efeitos são individuais, mas também alcançam as famílias e as comunidades. O atendimento no contraturno escolar pode contribuir para reduzir a exposição de crianças a situações de risco, fortalecer vínculos familiares e ampliar oportunidades educacionais.
Existe ainda um impacto econômico indireto. Quando uma organização consegue manter educadores, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais, os recursos também movimentam a economia local e ajudam a sustentar serviços que complementam a atuação do poder público.
Isso não significa que toda iniciativa financiada produzirá necessariamente os mesmos resultados. O efeito depende da qualidade da execução, da continuidade das atividades e da capacidade de avaliar o que realmente mudou na vida dos participantes.
Afinal, vale a pena doar?
Com base nas informações documentais disponíveis, o Criança Esperança apresenta mecanismos institucionais relevantes de transparência e controle: gestão pela UNESCO, seleção por edital público, exigências documentais, conta bancária exclusiva, repasses parcelados e prestação de contas.
A existência de auditoria externa das demonstrações financeiras da UNESCO acrescenta uma camada de controle institucional. A opinião sem ressalvas emitida sobre as contas de 2024 também é um dado favorável.
Isso não significa que o doador deva abrir mão de questionar a aplicação dos recursos. Transparência exige informações acessíveis sobre arrecadação, distribuição regional, valores efetivamente transferidos, instituições beneficiadas e resultados alcançados.
No caso do Paraná, seria especialmente interessante que os moradores pudessem consultar, em uma página de fácil acesso, quanto foi destinado ao Estado, quais entidades receberam os recursos e quantas crianças e adolescentes foram atendidos em cada município.
A solidariedade ganha força quando vem acompanhada de informação. Doar é um gesto de confiança, mas essa confiança não precisa ser cega. Quanto mais claros forem os resultados e mais acessíveis os dados, maior será a capacidade de a sociedade acompanhar o destino de cada contribuição.
A pergunta que fica não é apenas quanto dinheiro foi arrecadado em uma noite de televisão, mas quantas oportunidades foram efetivamente criadas depois que as câmeras se apagaram.
Fontes e documentos consultados
- Rede Globo – Dúvidas frequentes sobre o Criança Esperança.
- UNESCO – Termo de Referência do Processo Seletivo 2026.
- UNESCO – Resoluções da 42ª Conferência Geral, nomeação da auditora externa.
- Auditor-General South Africa – Primeira auditoria da UNESCO, 3/11/2025.
- Rede Globo – Projetos paranaenses apoiados pelo Criança Esperança.
- Rede Globo – Relação de instituições apoiadas em edição anterior.
- UNESCO – Informações sobre o processo seletivo 2027.
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Edição: Marcos Paulo Assis
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.



