A política paranaense chega à eleição sob forte pressão
A reta final da eleição no Paraná foi marcada por pesquisas divergentes, disputa judicial sobre Deltan e operação da PF contra Mauro Moraes.

A última semana antes do primeiro turno transformou a sucessão do Governo do Paraná em uma disputa marcada menos pela tranquilidade dos favoritos e mais pela multiplicação de fatos capazes de alterar o ambiente eleitoral. Pesquisas apresentaram resultados bastante diferentes para a segunda colocação, uma operação da Polícia Federal atingiu o deputado estadual Mauro Moraes, aliado de Sergio Moro, e a situação jurídica da candidatura de Deltan Dallagnol ao Senado continuou sem uma solução definitiva.
O resultado é um cenário no qual o eleitor chega às urnas com muita informação, mas também com uma quantidade considerável de ruído. A própria sequência de pesquisas ajuda a entender a dificuldade de estabelecer uma fotografia única da eleição: levantamentos realizados por institutos diferentes, em datas próximas, produziram diferenças expressivas principalmente entre Sandro Alex e Requião Filho.
A eleição acontece neste domingo, 4 de outubro, das 8h às 17h. O TRE-PR informa que cerca de 8,6 milhões de eleitores estão aptos a votar no Paraná.
Pesquisas mostram um retrato menos simples do que a propaganda
A sucessão de pesquisas divulgadas nos últimos dias merece atenção justamente pelas diferenças entre elas.
Na pesquisa Alfa Inteligência divulgada em 1º de outubro, Sergio Moro apareceu com 37%, Sandro Alex com 28% e Requião Filho com 24%. Já levantamento da Veritá, realizado entre 21 e 25 de setembro e divulgado na mesma semana, apontou Moro com 49,1%, Requião Filho com 25,3% e Sandro Alex com 16,4%.
Outro levantamento, do Instituto Ranking, realizado entre 24 e 26 de setembro, mostrou Moro com 35%, Sandro Alex com 30% e Requião Filho com 20%. A pesquisa ouviu 1.200 eleitores e registrou margem de erro de 2,83 pontos percentuais.
O IRG, que ouviu 1.200 eleitores entre 29 de setembro e 1º de outubro, encontrou Moro com 40,6%, Sandro Alex com 28,4% e Requião Filho com 23% no cenário estimulado.
A divergência fica ainda mais evidente no levantamento Neokemp divulgado neste sábado. A pesquisa apontou Moro com 48,1%, Requião Filho com 24,7% e Sandro Alex com 23,2%. A diferença entre os dois últimos, de apenas 1,5 ponto, está dentro da margem de erro informada pelo instituto.
O dado que interessa ao observador político não é escolher qual pesquisa estaria "certa", mas perceber que há uma disputa real pelo segundo lugar e que os diferentes métodos e momentos de coleta produzem fotografias distintas. Transformar o resultado de um único instituto em tendência definitiva seria extrapolar o que os dados permitem afirmar.
A operação da PF colocou dinheiro e campanha no centro do debate
O episódio mais inesperado da semana ocorreu na sexta-feira (2), quando a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão tendo como alvo o deputado estadual Mauro Moraes (PL), candidato à reeleição e apoiador de Sergio Moro.
Segundo as informações divulgadas, a investigação apura possíveis ilícitos eleitorais e movimentações financeiras consideradas atípicas. A operação ocorreu na Assembleia Legislativa do Paraná depois de uma movimentação envolvendo aproximadamente R$ 300 mil em espécie.
Mauro Moraes nega irregularidades e apresentou sua própria explicação para manter dinheiro em espécie. O caso permanece sob investigação e, portanto, não permite concluir que tenha ocorrido crime. A busca e apreensão é uma medida de investigação destinada à obtenção de elementos de prova; não equivale a condenação.
Politicamente, porém, o impacto é imediato porque o deputado está associado à campanha de Moro. O próprio candidato afirmou que a investigação não tem relação com sua campanha, segundo reportagem do Plural.
É um daqueles episódios em que a política e o direito caminham em velocidades diferentes. A campanha precisa lidar imediatamente com o desgaste provocado pela notícia, enquanto a investigação depende de documentos, perícias e demais elementos para chegar a conclusões.
Deltan chega à reta final com candidatura ainda em disputa judicial
Outro capítulo relevante ocorreu no caso de Deltan Dallagnol, candidato do Novo ao Senado.
Depois de o TRE-PR ter deferido o registro por 4 votos a 3, o caso chegou novamente ao Tribunal Superior Eleitoral. O TSE havia determinado anteriormente a suspensão dos atos de campanha de Dallagnol, decisão confirmada pelo plenário por 5 votos a 2.
Na sexta-feira (2), porém, o vice-procurador-geral eleitoral apresentou parecer favorável à manutenção do registro concedido pelo TRE-PR. O parecer não encerra o processo: trata-se de manifestação do Ministério Público Eleitoral dentro do recurso que será analisado pelo TSE.
O caso tem consequência prática direta. O nome de Dallagnol já consta na urna eletrônica, mas sua situação jurídica continua condicionada ao julgamento definitivo. O cadastro eleitoral paranaense registrava a candidatura como aguardando julgamento em 2 de outubro.
A controvérsia recupera um episódio de 2023, quando o TSE cassou o mandato de Dallagnol como deputado federal. A discussão atual envolve justamente os efeitos jurídicos daquele episódio sobre a candidatura ao Senado em 2026.
É um caso que demonstra como uma eleição pode ser decidida também nos tribunais. Para o eleitor, a diferença entre registro deferido, candidatura sub judice e decisão definitiva não é meramente técnica: pode determinar a validade dos votos.
Pimentel explicita uma divergência dentro do próprio grupo político
Em Curitiba, um movimento chamou atenção porque expôs uma divisão política dentro da aliança que sustenta a candidatura de Sandro Alex.
O prefeito Eduardo Pimentel (PSD) declarou na sexta-feira que seu segundo voto para o Senado será Deltan Dallagnol. A manifestação representa apoio pessoal a um candidato que não integra a chapa oficial encabeçada por Sandro Alex e apoiada pelo governador Ratinho Junior.
O episódio revela uma característica frequente das eleições proporcionais e majoritárias para o Senado: alianças para o governo não significam necessariamente uniformidade na escolha dos dois candidatos ao Senado.
No ambiente eleitoral, esse tipo de movimento pode parecer secundário, mas tem significado político. Mostra que partidos e lideranças podem compartilhar um projeto para o Executivo estadual e, simultaneamente, fazer escolhas diferentes na composição da bancada federal.
O debate terminou, mas deixou uma herança para a próxima gestão
O debate da RPC, realizado em 29 de setembro entre Sergio Moro, Sandro Alex e Requião Filho, também entrou na reta final da campanha.
Os três candidatos concentraram o confronto em temas como segurança, saúde, educação, infraestrutura, Copel, Porto de Paranaguá, BR-277 e decisões dos governos estadual e federal. Uma checagem posterior confrontou 12 declarações com documentos oficiais e classificou parte delas como verdadeiras, verdadeiras com ressalvas, imprecisas, falsas ou sem comprovação.
A discussão revela um problema recorrente das campanhas: números verdadeiros podem ser utilizados fora do contexto original e promessas futuras podem ser apresentadas como se fossem resultados já obtidos.
Para quem acompanha a política estadual, essa diferença é fundamental. Dizer que determinada obra está contratada não significa que esteja concluída. Apresentar uma previsão de investimento não equivale a dinheiro efetivamente gasto. E atribuir ao governador, ao governo federal ou a um parlamentar uma realização que depende de vários órgãos pode simplificar excessivamente a realidade administrativa.
A disputa eleitoral movimentou centenas de milhões de reais
Outro bastidor que merece atenção é financeiro.
Levantamento publicado pelo Bem Paraná mostrou que os candidatos paranaenses já haviam movimentado centenas de milhões de reais na campanha. Até os últimos dias de setembro, as receitas declaradas chegavam a quase R$ 360 milhões, enquanto as despesas ultrapassavam R$ 200 milhões. A maior parte dos recursos tinha origem pública.
Esse dinheiro paga estruturas que o eleitor vê nas ruas, na televisão e nas redes sociais: publicidade, equipes, deslocamentos, produção audiovisual, eventos e comunicação digital.
O debate sobre financiamento eleitoral, portanto, não termina com a votação. Depois da eleição, será possível analisar quanto cada campanha recebeu, de onde vieram os recursos, onde foram gastos e quais despesas efetivamente foram declaradas.
Transparência financeira não deveria ser apenas uma exigência burocrática da Justiça Eleitoral. É uma das formas de o cidadão compreender como o poder político é construído.
O que fica para depois das urnas
A semana termina com uma eleição aberta a diferentes interpretações e com pesquisas que não oferecem uma narrativa única sobre a disputa. Ao mesmo tempo, episódios jurídicos e policiais colocaram a transparência no centro do debate justamente quando as campanhas chegaram ao limite do calendário.
O primeiro turno encerrará a disputa eleitoral, mas não necessariamente os conflitos políticos ou judiciais. O caso Dallagnol pode continuar nos tribunais; a investigação envolvendo Mauro Moraes seguirá seu curso institucional; e os números das pesquisas serão finalmente confrontados com os votos efetivamente depositados nas urnas.
Mais relevante ainda será observar o dia seguinte.
O próximo governador terá de transformar discurso em gestão, enquanto deputados e senadores terão de responder por decisões que afetam orçamento, infraestrutura, segurança, saúde e ambiente de negócios. A campanha pode produzir slogans em poucos segundos; uma administração pública precisa entregar resultados ao longo de quatro anos.
O verdadeiro teste da política paranaense, portanto, começa quando desaparecerem os santinhos, os programas eleitorais e os debates. É quando o eleitor deixa de ser alvo de campanha e passa a ser fiscal do poder que ajudou a escolher.
Edição: Marcos Paulo Assis
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.



Comentários