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Jovens e o voto no Brasil: o que explica o afastamento da política

há 6 horas
6 min de leitura

Dados do TSE mostram que o eleitorado brasileiro envelheceu, enquanto a participação juvenil ganhou novas formas dentro e fora dos partidos.


Jovem brasileiro usando celular ao lado de urna eletrônica, representando a participação política da juventude nas eleições.
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

A imagem de uma juventude cada vez mais distante das urnas ganhou força nos últimos anos, mas os números oficiais contam uma história mais complexa. O Brasil está, de fato, com um eleitorado proporcionalmente mais velho, mas os adolescentes que podem votar facultativamente não abandonaram a eleição. Nas municipais de 2024, quase nove em cada dez eleitores de 16 e 17 anos compareceram às urnas.


O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou 1,836 milhão de eleitores nessa faixa etária em 2024, 78% acima do número registrado nas eleições municipais de 2020. O comparecimento chegou a 89%, enquanto a abstenção ficou em 11%. Em 2022, nas eleições gerais, mais de 2,1 milhões de jovens de 16 e 17 anos estavam aptos a votar, e o comparecimento médio foi de cerca de 1,7 milhão.


A pergunta, portanto, precisa ser reformulada. Em vez de perguntar por que os jovens deixaram de votar, é mais preciso investigar por que a juventude ocupa um espaço proporcionalmente menor no eleitorado e por que uma parcela dela demonstra pouco interesse pelas formas tradicionais de participação política.


O Brasil está envelhecendo — e isso aparece nas urnas


Uma das principais explicações está longe dos partidos, das campanhas e das redes sociais. Ela está na demografia.


O Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou uma mudança profunda na estrutura etária brasileira. A população com 60 anos ou mais chegou a 32,1 milhões de pessoas, 15,8% da população. Em 2010, essa faixa representava 10,8%.

No mesmo período, a proporção de crianças de até 14 anos caiu de 24,1% para 19,8%. A idade mediana da população brasileira passou de 29 anos, em 2010, para 35 anos, em 2022.

O efeito chega diretamente ao cadastro eleitoral.


Segundo o TSE, entre 2022 e 2026 o número de eleitores com 60 anos ou mais passou de 32,9 milhões para 37,5 milhões. A participação desse grupo no eleitorado subiu de 21,02% para 23,60%.


Na faixa de 21 a 34 anos ocorreu o movimento inverso: o contingente caiu de 43,8 milhões para 41 milhões, reduzindo sua participação no eleitorado de 28,01% para 25,85%.

Isso não significa que milhões de jovens tenham simplesmente decidido não votar. A composição etária da própria sociedade brasileira está mudando. Há proporcionalmente menos pessoas nas faixas mais jovens e mais adultos e idosos.


É uma transformação demográfica que também terá consequências para a agenda política, para o mercado de trabalho, para a Previdência, para a saúde pública e para o consumo.


O primeiro voto contradiz a ideia de uma juventude ausente


A faixa dos 16 e 17 anos oferece um dos melhores exemplos de como uma estatística mal interpretada pode criar uma conclusão equivocada. Nessa idade, o voto é facultativo. Mesmo assim, a participação cresceu de maneira expressiva nas últimas eleições.


Em 2018, cerca de 1,4 milhão de adolescentes de 16 e 17 anos estavam aptos a votar. Em 2022, o número ultrapassou 2,1 milhões, aumento superior a 50%. Nas eleições municipais de 2024, foram 1,836 milhão — 78% a mais que em 2020.


O comparecimento registrado em 2024 foi especialmente significativo: 89% dos eleitores de 16 e 17 anos foram às urnas, contra 53% de comparecimento considerando todo o eleitorado para o qual o voto era facultativo naquele pleito.


A comparação mostra que o jovem que tira o título eleitoral não necessariamente encara a eleição como uma obrigação sem sentido. Em determinadas circunstâncias, ele pode participar em proporção elevada.


Campanhas realizadas pelo TSE também ajudaram a estimular o alistamento de adolescentes. Nas eleições de 2022, ações como a Semana do Jovem Eleitor e campanhas nas redes sociais procuraram aproximar a Justiça Eleitoral desse público. O resultado não permite concluir que campanhas institucionais sejam a única explicação para o aumento, mas mostra que o comportamento eleitoral juvenil pode responder positivamente quando existe comunicação dirigida a esse público.


A distância maior está nos partidos e na política tradicional


Se o voto não desapareceu, existe outro indicador que merece atenção: a presença dos jovens nos partidos políticos. Dados divulgados pelo TSE em 2023 mostraram que apenas cerca de 1% dos eleitores de até 24 anos estavam filiados a partidos. O número correspondia a pouco mais de 170 mil pessoas. Um ano depois das eleições de 2022, as filiações entre eleitores de 16 a 24 anos haviam caído 14%. Essa diferença ajuda a compreender uma mudança de comportamento.


Um jovem pode acompanhar intensamente debates políticos no celular sem ter qualquer interesse em participar de uma reunião partidária. Pode conhecer propostas por vídeos curtos, acompanhar influenciadores, discutir eleições em grupos de mensagens ou participar de movimentos sociais sem necessariamente transformar esse envolvimento em filiação partidária. A política passou a ocupar espaços diferentes.


O problema para partidos e instituições é que a participação digital é mais fragmentada e menos previsível. Um eleitor pode defender determinada proposta em um assunto e discordar do mesmo político em outro. Pode mudar de opinião rapidamente diante de um acontecimento ou simplesmente rejeitar classificações ideológicas tradicionais.


O levantamento Panorama Político 2024, do DataSenado, ajuda a dimensionar essa distância. A pesquisa ouviu 21.808 brasileiros com 16 anos ou mais e encontrou uma parcela expressiva da população que não se identifica com classificações tradicionais de esquerda, centro ou direita. Isso não deve ser confundido automaticamente com apatia política. Não se identificar com uma corrente ideológica é diferente de não ter opinião sobre os problemas do país.


Custo de vida, trabalho e futuro entram na decisão


Para entender o comportamento de um jovem diante da política, também é preciso olhar para sua rotina.


A entrada na vida adulta ocorre em meio a decisões concretas: conseguir emprego, pagar aluguel, financiar uma formação profissional, lidar com transporte, construir uma reserva financeira e, muitas vezes, permanecer na casa dos pais por mais tempo.

Uma eleição pode parecer abstrata quando comparada à necessidade imediata de conseguir renda.


A própria pesquisa do DataSenado mostra que as preocupações variam conforme a idade. No conjunto da população brasileira, saúde apareceu como a principal preocupação em 2024, seguida por custo de vida e corrupção. O levantamento também identificou diferenças entre grupos etários.


No Paraná, especificamente, saúde foi apontada como principal preocupação por 28% dos entrevistados, seguida por corrupção, com 19%, e custo de vida, com 18%.


Esses números ajudam a colocar a discussão sobre juventude em uma perspectiva regional. O eleitor paranaense, independentemente da idade, não está olhando apenas para grandes debates ideológicos. Questões concretas do cotidiano têm peso relevante na formação das prioridades políticas.


Para os mais jovens, emprego e educação podem ganhar significado adicional porque estão diretamente ligados à possibilidade de independência econômica.


O que muda para a política brasileira


O envelhecimento do eleitorado deverá alterar o equilíbrio das prioridades eleitorais. Saúde, aposentadoria, Previdência e cuidados de longa duração tendem a ganhar ainda mais espaço à medida que cresce a população idosa.


Ao mesmo tempo, uma geração menor numericamente não significa uma geração politicamente irrelevante. Os jovens continuam sendo fundamentais para temas como educação, mercado de trabalho, tecnologia, empreendedorismo, habitação e transformação digital.


Existe ainda uma questão de representação. Se os jovens participam menos dos partidos, aparecem menos nas estruturas internas das legendas e encontram outras formas de expressão política, os partidos terão de compreender como essa geração se organiza e se informa.


O desafio não parece ser simplesmente convencer o jovem a votar. Os números das eleições recentes mostram que muitos já votam. A questão mais ampla é estabelecer uma relação permanente entre juventude e instituições democráticas.


A diferença é importante porque uma democracia não depende apenas do comparecimento às urnas a cada dois anos. Ela também depende de cidadãos capazes de acompanhar decisões públicas, cobrar resultados, participar de debates e reconhecer que políticas adotadas hoje podem afetar sua vida durante décadas.


O Brasil está envelhecendo e, simultaneamente, está formando uma geração que cresceu em um ambiente político e tecnológico muito diferente daquele conhecido por seus pais.

Talvez o fenômeno mais interessante não seja o suposto abandono das urnas, mas a transformação da maneira como os jovens se relacionam com elas. O voto continua existindo, mas a política já não começa necessariamente no partido, na televisão ou no comício.


Para as instituições brasileiras, fica uma questão em aberto: como transformar o interesse pontual de um jovem que vai às urnas em participação cidadã permanente, sem tentar reproduzir modelos políticos que já não correspondem à forma como essa geração vive, trabalha e se informa?


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