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A arte de puxar saco: da política às redes sociais

Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
Marcos Paulo Assis
há 6 horas
7 min de leitura

O velho hábito de agradar quem tem poder ganhou novas ferramentas. Curtidas, comentários e selfies agora fazem parte da disputa por atenção e proximidade.


Ilustração editorial mostra pessoas disputando a atenção de uma autoridade enquanto acompanham suas redes sociais.
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

Existe uma pequena corrida que acontece todos os dias nas redes sociais e quase ninguém admite disputar. Um chefe publica uma fotografia, um político divulga uma agenda ou uma autoridade recebe uma homenagem. Em poucos minutos, aparecem os mesmos nomes: os primeiros a curtir, comentar, compartilhar e elogiar. Alguns parecem ter desenvolvido uma espécie de radar capaz de detectar uma publicação antes mesmo que ela termine de carregar.


A cena pode parecer banal, mas revela uma transformação interessante nas relações de poder. A velha bajulação, conhecida no vocabulário popular como “puxar saco”, encontrou nas redes sociais uma ferramenta permanente de exposição. Antes, era preciso estar perto da autoridade para demonstrar admiração. Agora, um celular permite marcar presença diariamente diante do chefe, do político, do empresário ou de qualquer pessoa que tenha influência.


A psicologia e os estudos sobre comportamento organizacional tratam parte desse fenômeno como ingratiation, termo usado para descrever comportamentos destinados a aumentar a simpatia ou a aceitação de uma pessoa por outra que possui influência. A prática faz parte de um conjunto mais amplo chamado gerenciamento de impressão, no qual indivíduos procuram controlar a maneira como são percebidos pelos demais.


Não significa que todo elogio seja bajulação. Admirar uma autoridade, elogiar um chefe ou apoiar publicamente uma decisão são comportamentos perfeitamente normais. A questão começa a ficar interessante quando o elogio deixa de ser apenas manifestação espontânea e passa a funcionar como estratégia de aproximação.


A fila invisível ao redor do poder


Na política, a proximidade com quem ocupa uma posição de comando sempre teve valor. Prefeitos, governadores, parlamentares e integrantes do Executivo convivem com pessoas que desejam acesso, espaço, influência ou oportunidades profissionais. Essa relação, por si só, não representa irregularidade: políticos naturalmente constroem redes de relacionamento e cidadãos têm liberdade para apoiá-los.


O problema aparece quando relações pessoais passam a substituir critérios públicos de mérito, transparência ou interesse coletivo. É nesse ponto que a expressão popular “boquinha” entra no vocabulário político para descrever a expectativa de conseguir algum benefício por meio da proximidade com quem manda.


Imagine uma inauguração. Antes mesmo de começar o evento, determinado grupo já está ao redor da autoridade. Todos querem a fotografia. Alguns fazem questão de cumprimentá-la diante das câmeras. Outros publicam imediatamente as imagens nas redes. Depois, o grupo continua acompanhando as publicações e participando dos eventos.


Nada disso permite concluir, isoladamente, que alguém esteja buscando vantagem indevida. Para chegar a essa conclusão seriam necessárias evidências concretas sobre nomeações, contratos, favorecimentos ou outras circunstâncias específicas.


Na administração pública, os critérios são ainda mais rigorosos. A Constituição estabelece princípios como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. O governo federal também explica que o nepotismo, por exemplo, envolve favorecimento de familiares e é vedado em determinadas situações pela legislação e pela Súmula 13 do Supremo Tribunal Federal.


A diferença é fundamental: bajulação pode ser socialmente desagradável; favorecimento ilegal é outra coisa e precisa ser demonstrado com fatos.


O pânico para ser o primeiro a curtir


As redes sociais acrescentaram uma dimensão nova ao fenômeno: a velocidade.

O chefe publica às 9h12. Às 9h13, alguém já escreveu “Parabéns, chefe!”. Às 9h14, outro compartilha a publicação. Às 9h15, aparece uma sequência de palmas, corações e elogios. Quando o personagem em questão é um político, a dinâmica pode ganhar escala ainda maior.


Para algumas pessoas, a interação digital virou uma espécie de cartão de visitas permanente. Não basta conhecer a autoridade; é interessante que ela saiba quem está acompanhando seu conteúdo.


A ciência já começou a estudar esse comportamento. Uma pesquisa publicada no European Management Journal, em 2026, analisou estratégias de gerenciamento de impressão nas redes sociais, incluindo autopromoção, bajulação e demonstração de dedicação. O estudo ouviu 128 profissionais de vendas e marketing de empresas da lista Fortune 500 em Alemanha, França, Índia, Itália, Polônia, Reino Unido e Estados Unidos. Os pesquisadores encontraram associação entre o uso de bajulação nas redes e a obtenção de oportunidades de trabalho, embora não tenham identificado relação direta entre essa estratégia e satisfação profissional.


O resultado não significa que uma curtida garanta emprego, promoção ou qualquer vantagem. O que a pesquisa mostra é algo mais sutil: as redes ampliaram os espaços nos quais as pessoas podem administrar a própria imagem profissional.


O ambiente digital tornou pública uma interação que antes ficaria restrita ao corredor do escritório.


Quando agradar passa a valer mais do que discordar


Existe um risco maior quando a cultura da bajulação ultrapassa a esfera individual e começa a contaminar o ambiente de trabalho.


Em uma equipe saudável, o chefe deveria receber elogios quando merece, mas também ouvir críticas quando uma decisão apresenta problemas. A divergência pode ser desconfortável, mas é justamente ela que permite identificar erros antes que eles se transformem em prejuízos.


Imagine uma empresa prestes a lançar um produto. Um funcionário percebe uma falha importante e apresenta a objeção durante uma reunião. Outro colega prefere dizer que a estratégia da direção é “excelente” e que qualquer questionamento seria desnecessário.


Se esse comportamento se repetir, a organização começa a criar um incentivo perverso. As pessoas aprendem que concordar é mais seguro do que argumentar.


Uma pesquisa publicada no Baltic Journal of Management, em 2025, investigou justamente a formação de um chamado “clima de bajulação” dentro de equipes. O estudo analisou 90 grupos de trabalho chineses, envolvendo 446 participantes, e examinou como a pressão para agradar superiores poderia estar relacionada a comportamentos inadequados em defesa do chefe.


É uma conclusão que merece atenção porque desloca a discussão. O problema não é simplesmente existir um funcionário que elogia demais. O risco aparece quando uma organização começa a recompensar sistematicamente a submissão e a aprovação automática.


O chefe também perde.


Quem está cercado por pessoas que sempre concordam recebe menos informação sobre os próprios erros. Aos poucos, pode formar-se uma bolha na qual decisões ruins parecem boas porque ninguém quer ser responsável pela notícia desagradável.


O bajulador profissional também mudou


O antigo puxa-saco precisava de presença física. Ficava perto da mesa do chefe, aparecia nas reuniões, oferecia ajuda em excesso e fazia questão de demonstrar lealdade.

O modelo atual pode trabalhar 24 horas por dia.


Ele acompanha stories. Comenta publicações. Compartilha entrevistas. Marca o chefe em assuntos relacionados ao trabalho. Publica fotografias de eventos. Reage rapidamente a homenagens. Demonstra concordância pública e mantém uma presença digital constante.


Há uma diferença importante entre participação legítima e comportamento estratégico. Um servidor pode acompanhar o trabalho do prefeito porque acredita na administração. Um funcionário pode elogiar seu diretor porque realmente considera a decisão correta. Um eleitor pode comentar diariamente as publicações de um candidato por convicção política.

A intenção não pode ser deduzida simplesmente de uma curtida.


Essa cautela é especialmente necessária quando a discussão envolve políticos. O Tribunal Superior Eleitoral mantém regras específicas para condutas de agentes públicos e ilícitos eleitorais. A Resolução nº 23.735/2024, atualizada para as Eleições de 2026 pela Resolução nº 23.757/2026, trata de temas como abuso de poder, corrupção eleitoral, captação ilícita de sufrágio e condutas vedadas a agentes públicos.


Entre as condutas vedadas estão, por exemplo, o uso de bens, materiais ou serviços públicos em benefício eleitoral nas situações previstas pela legislação. O simples fato de alguém elogiar uma autoridade ou aparecer ao lado dela, entretanto, não é suficiente para caracterizar essas infrações. A análise depende das circunstâncias e das provas.


Essa distinção evita transformar uma crítica comportamental em acusação sem fundamento.


A economia da proximidade


Por trás da bajulação existe também uma questão econômica. Em ambientes competitivos, as pessoas procuram aumentar suas chances de conseguir oportunidades.


Um profissional pode construir reputação pela competência, pela experiência e pelos resultados. Outro pode investir mais intensamente em relacionamento e visibilidade. Na prática, as duas estratégias podem coexistir.


O problema surge quando a proximidade começa a substituir a capacidade.


Isso pode acontecer em qualquer ambiente hierárquico. Na empresa privada, quando a promoção depende mais de agradar o superior do que de entregar resultados. Na política, quando relações pessoais passam a pesar mais que critérios objetivos. Em associações, quando determinados grupos monopolizam o acesso à direção. Até em pequenos círculos sociais, quando estar próximo da pessoa certa abre portas que permaneceriam fechadas para os demais.


A bajulação, portanto, não é exclusivamente um fenômeno político. A política apenas torna mais visível uma característica presente em diferentes organizações humanas: onde existe poder, algumas pessoas tentarão se aproximar dele.


As redes sociais deram a essa aproximação uma vitrine.


A fábrica de aplausos


Talvez a característica mais curiosa do puxa-saco digital seja que ele não quer apenas ser percebido pelo poderoso. Muitas vezes, quer que os outros saibam que é percebido pelo poderoso.


Uma fotografia ganha valor adicional quando a autoridade aparece ao lado. Um comentário ganha importância quando recebe uma resposta. Uma publicação parece mais relevante quando é compartilhada pelo perfil certo.


A própria visibilidade passa a funcionar como moeda.


O fenômeno também ajuda a explicar por que algumas pessoas parecem estar permanentemente presentes nos círculos de poder. Elas transformam relacionamento em exposição e exposição em reputação. Quanto mais aparecem, mais conhecidas se tornam; quanto mais conhecidas, mais facilmente são convidadas para novos espaços.


É um ciclo que pode ser legítimo quando baseado em competência e relacionamento profissional. Torna-se problemático quando a aparência de influência passa a valer mais do que a contribuição efetiva.


No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja quem é o maior puxa-saco de determinada empresa, partido ou grupo político. É outra: o que acontece com uma organização quando as pessoas descobrem que dizer aquilo que o chefe quer ouvir é mais vantajoso do que dizer aquilo que ele precisa ouvir?


Nas redes sociais, a resposta aparece diariamente em forma de curtidas, aplausos e comentários instantâneos. Mas, fora da tela, as consequências podem ser muito mais concretas.


Porque uma sociedade precisa de pessoas capazes de reconhecer acertos, mas também precisa de quem tenha coragem de apontar erros. Entre o elogio sincero e a bajulação interessada existe uma fronteira difícil de enxergar. Talvez seja justamente nessa zona cinzenta que a velha arte de puxar saco tenha encontrado sua versão mais moderna.



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Edição: Marcos Paulo Assis

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

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