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Político e influenciador têm o mesmo manual do oportunismo

Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
Marcos Paulo Assis
há 4 minutos
7 min de leitura

Com a eleição de 2026 em marcha e restaurantes reagindo a pedidos de permuta, dois personagens disputam a mesma moeda: atenção.


Charge editorial mostra político e influenciador em restaurante enquanto um garçom apresenta uma grande conta.
 Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

Há uma coincidência curiosa no ar em 2026: enquanto candidatos voltam às ruas em busca de votos, restaurantes começam a ficar menos pacientes com uma categoria que também vive de atenção — os influenciadores que chegam ao estabelecimento esperando comer de graça em troca de "divulgação". De um lado, a temporada eleitoral recoloca abraços, selfies e promessas no cardápio. De outro, donos de restaurantes em diferentes países passaram a questionar uma prática que se tornou comum nas redes: a ideia de que seguidores seriam suficientes para pagar a conta.


A comparação parece absurda, e é justamente por isso que funciona.


O político oportunista aparece quando precisa do eleitor. O influenciador oportunista aparece quando precisa do restaurante. Um promete visibilidade para a obra pública; o outro promete visibilidade para o negócio. Um chega acompanhado de assessor e microfone; o outro, de celular e ring light. E os dois podem sair sorrindo, acenando para a câmera, enquanto alguém que ficou para trás começa a fazer as contas.


A provocação desta reportagem nasce de dois fenômenos reais que ganharam força nos últimos meses. No Brasil, as Eleições Gerais de 2026 já entraram na fase oficial de propaganda, inclusive nas redes sociais, desde 16 de agosto. O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para a propaganda digital, impulsionamento, lives e uso de inteligência artificial, numa eleição em que a disputa pela atenção do eleitor deverá ocorrer cada vez mais no ambiente das plataformas.


Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos e em outros mercados, restaurantes vêm reagindo publicamente a influenciadores que pedem refeições gratuitas, bebidas, mesas ou pagamentos em troca de publicações. Reportagens recentes do Los Angeles Times mostram conflitos envolvendo restaurantes e criadores que receberam refeições ou dinheiro e não entregaram o conteúdo combinado. Em Nova York, proprietários também passaram a dizer não a pedidos que consideram abusivos.


Não se trata de afirmar que todo influenciador age assim. Longe disso. Também seria injusto colocar todo político na mesma categoria. A questão é outra: o que acontece quando a influência deixa de ser uma ferramenta de comunicação e passa a ser tratada como moeda capaz de comprar tudo?


A eleição chegou. E o pastel também


O calendário eleitoral tem uma característica curiosa: ele melhora a memória de algumas pessoas.


O candidato que passou meses sem aparecer de repente conhece o comerciante pelo nome, lembra da feira do bairro, descobre problemas antigos e encontra uma extraordinária disposição para comer pastel diante de uma câmera. O caldo de cana ganha função política. A barraca vira cenário. O aperto de mão vira conteúdo.


Nada disso é ilegal por si só. Candidato pode conversar com eleitor, visitar comércio, participar de eventos e produzir conteúdo dentro das regras eleitorais. O problema começa quando a imagem substitui a prestação de contas e a promessa passa a valer mais do que a capacidade de entregá-la.


O TSE lembra que a propaganda eleitoral de 2026 deve respeitar regras destinadas a preservar a igualdade entre candidaturas e proíbe práticas como abuso de poder, compra de votos e uso irregular de recursos. Na internet, a liberdade de manifestação continua protegida, mas existem limites para conteúdos que ofendam a honra ou divulguem fatos sabidamente inverídicos.


O político profissional sabe que precisa aparecer.


O oportunista acredita que basta aparecer.


Do pastel ao menu degustação


O influenciador oportunista tem outro figurino.


Ele não precisa esperar quatro anos. Basta descobrir um restaurante novo, um lançamento gastronômico ou um estabelecimento que esteja desesperado por divulgação.


A mensagem chega pelo direct:


"Olá! Adoraria fazer uma collab com vocês."


A palavra parece moderna, profissional e simpática. Às vezes, é exatamente isso. Uma parceria bem negociada pode ser excelente para os dois lados. O restaurante ganha exposição e o criador recebe uma remuneração, uma experiência ou outro benefício previamente combinado.


O problema começa quando "collab" vira sinônimo de "me dê comida de graça".


A discussão ganhou força internacionalmente. Em Nova York, restaurantes passaram a rejeitar pedidos de supostos influenciadores que exigiam refeições e bebidas gratuitas. Reportagens publicadas no fim de 2025 relataram pedidos que incluíam desde refeições completas para grupos até garrafas caras de champanhe.


Em Los Angeles, o problema assumiu outra dimensão em 2026. O Los Angeles Times relatou casos em que restaurantes ofereceram refeições e dinheiro para publicações e acabaram enfrentando atrasos, disputas sobre o combinado e exposição pública nas redes. Em um dos episódios, uma família proprietária de restaurante desembolsou US$ 500 por uma publicação que não apareceu como esperado.


A conta, aparentemente, voltou a ser o assunto principal.


O restaurante descobriu que seguidor não paga fornecedor


O restaurante trabalha com uma matemática pouco romântica.


Há aluguel, folha de pagamento, energia, impostos, ingredientes, taxas de cartão, aplicativos, manutenção e fornecedores. Uma refeição oferecida gratuitamente não desaparece do balanço porque foi fotografada em alta resolução.


O influenciador, naturalmente, enxerga outra matemática: número de seguidores, visualizações, curtidas, alcance e potencial de viralização.


O conflito nasce quando as duas métricas não conversam.


Para o criador, 50 mil seguidores podem representar uma audiência interessante. Para o restaurante, a pergunta é mais objetiva: quantas pessoas dessa audiência realmente irão consumir?


É justamente por isso que alguns empresários passaram a preferir campanhas com critérios claros, códigos de desconto, links rastreáveis ou contratos que estabeleçam exatamente o que será entregue. A relação deixa de ser baseada em "confia em mim" e passa a ser tratada como negócio.


O curioso é que essa profissionalização pode ser boa para os dois lados.


O restaurante deixa de entregar comida esperando um milagre.


O influenciador deixa de vender apenas uma promessa de alcance.


O assessor e o videomaker


É aqui que a comparação com a política volta a fazer sentido.


O assessor segura o microfone.


O videomaker segura o celular.


O assessor procura a frase que vai render manchete.


O videomaker procura o enquadramento que vai render visualização.


O candidato precisa parecer próximo.


O influenciador precisa parecer relevante.


Ambos vivem de uma economia em que percepção tem valor. A diferença é que o eleitor não deveria ser tratado como consumidor de propaganda sem capacidade de cobrança, assim como o consumidor não deveria receber publicidade disfarçada de opinião espontânea.


No caso dos influenciadores, a questão da transparência já é tratada por órgãos de autorregulamentação e pelo poder público. O CONAR atualizou em 2026 seu guia para publicidade feita por influenciadores, reforçando a necessidade de identificação clara do conteúdo comercial. A publicidade, afinal, não deixa de ser publicidade porque foi publicada em um story de 15 segundos.


Na política, a exigência de transparência é ainda mais sensível. A campanha eleitoral de 2026 tem regras específicas para propaganda na internet, impulsionamento e utilização de conteúdo produzido ou alterado por inteligência artificial.


A última coxinha é sempre disputada


Imagine agora uma mesa.


O político chega primeiro. O influenciador aparece logo depois.


Há uma única coxinha.


O político argumenta que precisa manter contato com a base eleitoral. O influenciador diz que seus seguidores precisam conhecer aquele salgado.


O assessor pede a palavra.


O videomaker acende o ring light.


O garçom permanece imóvel.


— Quem vai pagar? — pergunta.


Silêncio.


É nesse momento que a piada deixa de ser apenas uma piada.


O restaurante não é cenário. É uma empresa. A comida não é adereço. É produto. O funcionário não é figurante. É trabalhador. E a divulgação não é dinheiro automaticamente convertido em caixa.


Isso não significa que restaurantes devam rejeitar influenciadores. Pelo contrário. Há criadores que produzem conteúdo profissional, levam público aos estabelecimentos e construíram reputação justamente porque preservam a credibilidade das próprias recomendações.


O Washington Post, ao analisar a relação entre restaurantes e influenciadores, observou que a maioria dessas relações é profissional e mutuamente benéfica quando as condições são combinadas previamente. Restaurantes passaram a selecionar melhor os criadores e, em muitos casos, formalizar expectativas sobre refeições, número de publicações e utilização do conteúdo.


A questão, portanto, não é acabar com a influência digital.


É acabar com a fantasia de que influência significa direito adquirido.


Quando a câmera desliga


O político oportunista e o influenciador oportunista têm algo em comum: ambos podem confundir presença com entrega.


A diferença entre os dois personagens aparece quando a câmera desliga.


O político precisa continuar trabalhando depois da eleição. O influenciador precisa continuar entregando resultados depois da publicação. O restaurante precisa continuar pagando as contas no dia seguinte. E o eleitor continuará morando na mesma rua quando o santinho já tiver sido recolhido.


Talvez seja por isso que a atual temporada eleitoral e a reação dos restaurantes ao chamado "turismo da comida grátis" produzam uma combinação tão curiosa.


Nos dois mundos, existe uma guerra pela atenção.


Na política, ela vale votos.


Na gastronomia, pode valer clientes.


Nas redes sociais, vale audiência.


E, para quem está no meio dessa disputa, talvez a pergunta mais importante seja também a mais simples:

quanto vale realmente aquilo que alguém está prometendo entregar?


Porque seguidores não são dinheiro. Promessas não são obras. Likes não são clientes. E uma fotografia bonita, por mais viral que seja, ainda não paga a conta.


No final do banquete, alguém sempre precisa pagar.


Fontes


Fontes principais da apuração: TSE, CONAR, Los Angeles Times, Washington Post, Estado de Minas e reportagens internacionais sobre os conflitos entre restaurantes e influenciadores.


Nota editorial: Os personagens e situações descritos são fictícios e utilizados como recurso de crônica e sátira. O texto não atribui condutas ilícitas a políticos, influenciadores, partidos, empresas ou pessoas determinadas.


Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.


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