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Tempestade

Contos do Paranashop | O barco que não saiu de Paranaguá

Dona Nair conversa com o pescador Bento no cais de Paranaguá, diante da caderneta verde, uma fotografia antiga e uma carta encontrada pelo mar.
Dona Nair e o pescador Bento investigam um mistério no cais de Paranaguá. Ilustração gerada por inteligência artificial. Foto: Ilustração gerada por IA

Uma maré fora de época, um pescador que se recusa a deixar o cais e uma antiga anotação na caderneta de Dona Nair movimentam o quarto episódio de Histórias do Paraná.

Histórias do Paraná · Episódio 4 · Paranaguá

O barco estava pronto

O barco estava pronto desde as quatro da manhã. As redes tinham sido revisadas, o combustível conferido e as caixas de gelo acomodadas no porão. Mesmo assim, quando os outros pescadores começaram a deixar o cais de Paranaguá, Bento permaneceu sentado no banco de madeira, olhando para o mar.

Não era medo de tempestade. Bento conhecia a Baía de Paranaguá desde menino. Sabia distinguir o vento que anunciava chuva daquele que apenas mudava de direção. Conhecia o cheiro da água antes da ressaca e o silêncio das gaivotas quando alguma coisa estava prestes a acontecer.

Naquela manhã, porém, havia algo diferente. A maré estava subindo, mas as pequenas embarcações pareciam presas a uma corrente invisível. A água avançava devagar, quase sem movimento, como se o mar estivesse respirando fundo antes de dizer alguma coisa.

— Vai sair ou vai ficar conversando com o barco? — gritou Zeca, de outra embarcação.

Bento não respondeu. Puxou o boné para baixo, levantou-se e caminhou até a ponta do cais. Olhou para a Ilha dos Valadares e depois para o horizonte.

— Hoje não — murmurou.

A mulher da caderneta verde

Dona Nair chegou pouco depois das sete. Trazia a bolsa de pano no braço, o casaco claro fechado até o pescoço e a inseparável caderneta verde. Desceu do ônibus próximo ao Mercado Municipal e caminhou pelas ruas antigas, perguntando pelo pescador Bento.

Encontrou-o sentado novamente no mesmo banco.

— O senhor continua com essa mania de conversar com o mar? — perguntou.

Bento levantou a cabeça. Levou alguns segundos para reconhecer a mulher.

— Dona Nair?

— Faz tempo, Bento.

Ele se levantou e apertou a mão dela.

— A senhora não mudou nada.

— Mudou, sim. Só aprendi a esconder melhor.

Os dois riram. Depois ficaram em silêncio, observando os barcos que ainda retornavam ao cais.

— O Antônio mandou lembranças — disse Nair, retirando um pequeno embrulho da bolsa. — E pediu para entregar isto.

Era um saquinho de pano com sementes de feijão. Bento recebeu o presente com cuidado. Passou os dedos pelo tecido, como quem reconhece um objeto de família.

— Ele ainda guarda sementes?

— Guarda. E distribui. Parece que não aprendeu outra maneira de viver.

Bento sorriu, mas logo voltou a olhar para a água.

— A senhora veio por causa da caderneta?

Nair abriu a bolsa.

A página de 2004

A caderneta verde estava gasta nas bordas. Algumas páginas tinham manchas de café, outras guardavam pequenos papéis dobrados. Nair folheou até encontrar uma anotação escrita com letra inclinada.

Leu em voz alta:

“Bento, pescador de Paranaguá. Não saiu com o barco numa manhã de maré estranha. Disse que o mar estava devolvendo alguma coisa. Quando perguntaram o quê, respondeu: aquilo que a gente esqueceu de procurar.”

Bento fechou os olhos.

— Eu falei isso?

— Está escrito aqui.

— Faz mais de vinte anos...

— E eu me lembro de ter perguntado o que o senhor queria dizer. O senhor respondeu que um dia eu entenderia.

Bento levantou-se e caminhou até uma pequena embarcação coberta por uma lona azul. Retirou a lona e abriu um compartimento de madeira escondido sob o banco. De dentro, tirou uma lata antiga, enferrujada nas bordas.

— Encontrei isto naquela manhã — explicou. — A maré trouxe a lata até perto das pedras. Estava presa entre pedaços de madeira e restos de rede.

— E o que havia dentro?

— Uma fotografia. E uma carta.

A fotografia que voltou do mar

Bento abriu a lata com dificuldade. Dentro havia um envelope amarelado, protegido por um pedaço de plástico. A fotografia mostrava dois homens jovens, abraçados diante de um barco de madeira. No verso, uma data: 1968.

Nair aproximou o rosto.

— Quem são?

— Meu pai e meu tio. Os dois saíram para pescar juntos. Meu tio nunca voltou.

Bento contou que, durante décadas, a família acreditou que o homem tivesse desaparecido no mar. O pai nunca aceitou a explicação. Até morrer, guardou a esperança de que o irmão tivesse sobrevivido em algum lugar.

A carta estava dobrada em quatro partes. A tinta quase desaparecera, mas algumas frases ainda podiam ser lidas.

“Se esta mensagem chegar à nossa família, digam que não houve acidente. Eu fiquei. Não consegui voltar. Um dia explicarei.”

Nair olhou para Bento.

— O senhor nunca procurou saber quem escreveu?

— Procurei. Mas o nome estava apagado. E naquela época ninguém sabia por onde começar.

— E por que não contou a ninguém?

Bento demorou a responder.

— Porque meu pai morreu esperando. Eu não queria alimentar uma esperança que talvez não existisse.

O segredo do cais

Nair examinou a fotografia com atenção. Um dos homens usava um relógio de bolso preso ao colete. O outro segurava uma pequena placa de madeira com o nome do barco.

— Bento, o senhor sabe onde esse barco está?

— Foi desmontado há muitos anos.

— E o nome?

Ele aproximou a fotografia da luz.

— Estrela do Sul.

Nair fechou a caderneta.

— Então precisamos descobrir quem recebeu essa carta.

Bento soltou uma risada curta.

— A senhora acha que vai resolver um mistério de quase sessenta anos com essa caderneta?

— Já resolvi coisa mais difícil com menos informação.

Naquele momento, um rapaz se aproximou pelo cais. Era Lucas, neto de Bento, que trabalhava com turismo e ajudava o avô nas manhãs de pesca.

— Vô, o senhor não vai acreditar. Um senhor ligou lá em casa. Disse que está procurando alguém da família do antigo barco Estrela do Sul.

Bento ficou imóvel.

— Quem é ele?

— Não quis falar muito. Disse que está vindo de Antonina e que tem uma coisa para entregar.

Nair abriu novamente a caderneta. Na última página, escreveu:

“Paranaguá. A maré trouxe uma carta. Agora falta descobrir quem ainda espera pela resposta.”

A decisão de Bento

O sol já estava alto quando os três deixaram o cais. O barco continuava amarrado, sem ter saído para a pesca.

Bento olhou para a água e, pela primeira vez naquela manhã, pareceu tranquilo.

— Amanhã eu saio — disse.

— E hoje? — perguntou Lucas.

— Hoje tenho uma coisa mais importante para pescar.

Nair guardou a caderneta na bolsa. Antes de ir embora, Bento entregou a ela uma pequena concha que estava sobre o banco do barco.

— Leve. O mar sempre devolve alguma coisa. O problema é que a gente nem sempre sabe reconhecer.

Nair guardou a concha no bolso do casaco.

No caminho de volta, o celular tocou. Era Antônio, de Guarapuava.

— Dona Nair, a senhora chegou bem?

— Cheguei. E parece que encontrei uma história que estava esperando há quase sessenta anos.

Do outro lado, Antônio ficou em silêncio.

— Então a caderneta ainda tem trabalho pela frente — respondeu.

Nair sorriu. Naquela noite, antes de dormir, abriu a caderneta e escreveu uma última frase:

“Nem toda viagem começa quando o barco deixa o cais. Algumas começam quando alguém decide voltar para procurar.”

A caderneta verde estava pronta para seguir viagem.

Sobre a série: Histórias do Paraná é uma coleção de contos de ficção ambientados em cidades paranaenses. Os personagens e acontecimentos são imaginários; os lugares e referências geográficas são reais.

Texto de ficção: Marcos Paulo Assis — marcos@paranashop.com.br

Esta história foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com revisão e edição humana.

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