Contos do Paranashop | A última linha do Ônibus Circular
Primeiro episódio da série "Contos do Paranashop" acompanha uma cobradora aposentada que reencontra, no Terminal Guadalupe de Curitiba, um passageiro que nunca esqueceu.

O passageiro da janela
Dona Nair passou trinta e dois anos de pé, equilibrando o troco entre uma curva e outra. Cobradora da linha Circular, conhecia Curitiba pelo balanço do ônibus: sabia de olhos fechados quando o veículo cruzava a Rua XV, quando subia o Batel, quando chegava ao Terminal Guadalupe, onde o motor suspirava e a catraca parava de girar.
Aposentou-se em março. Em abril, já não sabia o que fazer com as manhãs.
Naquela quinta-feira de geada, acordou às cinco, como sempre, vestiu o casaco de lã e, sem decidir direito, foi até o terminal. Ficou ali, num banco de metal gelado, vendo o povo passar apressado, e sentiu falta até do cheiro de diesel.
Foi quando o viu.
Um homem de cabelos brancos, boina cinza, sentado junto à janela de um ônibus parado. Segurava uma sacola de pão e olhava para o nada. Nair sentiu o coração dar um tranco, daqueles que nem trinta e dois anos de estrada tinham ensinado a prever.
A caderneta
Durante todo o tempo de serviço, Nair guardou no bolso do avental uma caderneta de capa verde. Anotava ali, em letra miúda, as histórias que os passageiros deixavam escapar: o estudante que ia fazer a prova mais importante da vida, a costureira que carregava o primeiro vestido de noiva que fez, o senhor que viajava todo dia só para ver o mar de prédios e lembrar da roça.
Mas havia uma página que ela nunca releu. Era de 1998.
"Rapaz de boina cinza. Entra no Guadalupe, desce no Alto da XV. Todo dia 14. Leva flores. Nunca disse pra quem."
Ela nunca perguntou. Cobradora não pergunta; cobradora observa. Um dia, o rapaz parou de aparecer, e a página ficou ali, sem fim.
Vinte e seis anos depois
Nair levantou-se do banco. As pernas, que já tinham aprendido a descansar, pareceram lembrar do ofício. Atravessou a plataforma, subiu os degraus do ônibus e sentou-se no banco da frente, de costas para a catraca, onde nunca tinha se sentado.
— Bom dia — disse.
O homem virou o rosto devagar. Demorou um segundo, depois dois.
— A senhora é a moça do troco — falou ele, e sorriu com metade da boca. — Da linha Circular. Eu me lembro da sua voz. A senhora sempre dizia "segura firme" quando o ônibus fazia a curva.
Nair sentiu os olhos arderem.
— Todo dia 14 o senhor levava flores — disse ela, de repente, como quem larga um peso. — Eu anotei. Desculpe a indiscrição.
O homem ficou em silêncio. Lá fora, o motor começou a esquentar. Alguém gritou o horário no alto-falante.
— Era minha esposa — disse ele, afinal. — O cemitério fica depois do Alto da XV. Ela morreu em março de 1998, e eu prometi que levaria flores todo dia 14, até quando aguentasse. Aguentei até o joelho dar problema. Agora venho só de vez em quando. Hoje é dia 14.
Ele apontou para a sacola. Debaixo dos pães, escondido, havia um ramo pequeno de cravos brancos.
O fim da linha
Nair não disse nada. Tirou a caderneta de dentro da bolsa, abriu na página de 1998 e, com a caneta que ainda levava por hábito, escreveu embaixo, devagar:
"Era a esposa. Hoje, 14. O rapaz virou senhor, e as flores continuam."
Mostrou a página a ele. O homem leu, apertou os lábios, e os dois ficaram ali, calados, enquanto o ônibus enchia de gente que não sabia que estava dentro de uma história.
— Posso acompanhar o senhor? — perguntou ela. — Faz tempo que não passo do Alto da XV.
— Pode — respondeu ele. — A senhora conhece o caminho melhor que eu.
O ônibus partiu. Nair sentiu, pela primeira vez em meses, a curva do Batel balançar o corpo inteiro. Sem pensar, soltou a frase antiga:
— Segura firme.
O homem riu, e segurou.
Na volta
No fim do dia, já em casa, Nair separou a caderneta verde numa gaveta e ficou olhando para ela. Estava quase no fim das páginas. Tinha histórias demais para um caderno só, e dedos cansados demais para escrevê-las sozinha.
No dia seguinte, ela embrulhou a caderneta num pano e colocou na bolsa. Havia uma pessoa em Ponta Grossa, uma guia de turismo que ela conhecera num ônibus anos atrás, que talvez soubesse o que fazer com tantas vidas anotadas.
A caderneta seguia viagem.
Histórias do Paraná · Episódio 1 · Curitiba
Texto de ficção produzido por Marcos Paulo Assis (marcos@paranashop.com.br) com auxílio de inteligência artificial e sob supervisão editorial humana. Personagens e situações são imaginários; os lugares são reais
Próximo episódio: O sino da Vila Velha (Ponta Grossa).



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