Terceiro episódio da série "Histórias do Paraná" leva a caderneta verde de Dona Nair até uma propriedade rural de Guarapuava, onde uma geada força uma família a decidir o futuro da terra.
Histórias do Paraná · Episódio 3 · Guarapuava
A previsão
Seu Antônio olhou o céu de Guarapuava como quem lê um recibo que não quer pagar. Estava limpo demais. Sem nuvem, sem vento, com aquele azul fundo de fim de tarde que, em novembro, costuma anunciar madrugada fria.
O celular, na mão da filha, confirmava o que o céu já dizia.
— Pai, a previsão é de geada. Perto de zero grau às cinco da manhã — disse Luana, agrônoma, três anos de volta à propriedade depois de um tempo fora. — A lavoura está nova. Se pegar forte, a gente perde parte do plantio.
Antônio ficou calado. A lavoura tinha sido plantada com a ajuda de todos: ele, Luana, o filho Rafael e até a mulher, Dona Cida, que ainda levava marmita para o campo como se os filhos fossem pequenos.
— E o seguro? — perguntou.
— Cobre parte — respondeu Luana. — Mas o Rafael acha que é a hora de pensar no que não dá mais certo.
Rafael, encostado na cerca, evitou o olhar do pai.
A conversa na varanda
Depois do jantar, a família se reuniu na varanda. Rafael falou primeiro, como quem tira um peso:
— Apareceu uma proposta pela parte de baixo da terra. Dinheiro bom. A gente quitava dívida, comprava máquina nova e parava de depender do tempo.
— Terra não é só dinheiro, Rafael — disse Antônio, sem levantar a voz.
— Mas dinheiro também não é pecado, pai. Todo ano a gente aposta, e todo ano alguém aqui perde o sono.
Luana tentou ponderar:
— Os dois têm razão. Só que a gente não precisa decidir isso hoje. Hoje a gente só precisa decidir o que fazer antes da geada.
Foi quando o portão bateu.
A visita
Uma senhora de casaco de lã, bolsa de pano apertada contra o peito, atravessava o pasto com passos de quem conhece trajeto de ônibus, não de chão de terra.
— Seu Antônio? — chamou. — Sou a Nair. A cobradora do Circular.
Antônio levantou-se da cadeira, devagar, e tirou o chapéu.
— Dona Nair! A senhora veio mesmo.
— O senhor mandou carta. Promessa é promessa.
Dona Cida trouxe café. Nair sentou-se na varanda, ouviu a conversa que ainda pairava no ar e abriu a caderneta de capa verde sem pressa.
— Tenho uma anotação sua aqui — disse. — De 2004.
— Minha?
— "Homem da semente. Entra no Terminal do Portão, sempre com um saquinho de pano. Quem pergunta, ganha um punhado de feijão. Diz que semente dá sorte a quem não tem terra."
Antônio riu, e os olhos ficaram marejados.
— Eu fazia isso mesmo. Minha avó dizia que semente que a gente não reparte, apodrece.
A madrugada
Ninguém dormiu direito. Antes das cinco, a família inteira estava no campo, lanternas na mão. O ar cortava. A grama, sob o pé, rangia como vidro fino.
A geada veio. Não foi a pior, mas foi suficiente: manchas escuras nas folhas, fileiras inteiras curvadas. Luana caminhou entre as plantas, tocando uma por uma, avaliando.
— Uns trinta por cento — disse, por fim. — Talvez menos, se as raízes aguentarem.
Rafael apertou a nuca com a mão. Antônio olhou a lavoura em silêncio, e Nair, a alguns passos, não disse nada. Cobradora sabe que há horas em que a melhor coisa a oferecer é não falar.
Foi Dona Cida quem quebrou o silêncio:
— Antônio. A semente da sua avó. Ainda tem?
Ele demorou a entender. Depois sorriu.
O replantio
Na manhã seguinte, a família foi até o paiol e abriu o velho baú de madeira. Dentro, em saquinhos de pano amarrados com barbante, estavam as sementes de feijão que Antônio guardara por anos, as mesmas que ele distribuía nos ônibus.
— Isso não repara trinta por cento de lavoura — disse Rafael, mas sem dureza.
— Não — concordou Luana. — Mas replantar as falhas com uma cultura de ciclo mais curto pode ajudar. E a gente decide sobre a terra depois, com a cabeça fria.
Antônio olhou o filho.
— Eu não sou contra vender, Rafael. Só não quero vender com medo.
Rafael respirou fundo.
— Então a gente conversa de novo no inverno. Com números. Os três.
Antônio estendeu a mão. Rafael apertou.
Nair, de longe, abriu a caderneta e escreveu embaixo da página de 2004:
"Guarapuava. A geada veio. A semente também."
A caderneta segue viagem
Na despedida, Antônio pôs um saquinho de pano na mão de Nair.
— Para a senhora levar. Quem recebe, passa pra frente.
— Para onde vai a caderneta agora? — perguntou Luana.
— Para o litoral — respondeu Nair. — Tem um pescador em Paranaguá que me deve uma conversa há vinte anos. E a maré, dizem, anda estranha.
A caderneta seguia viagem.
Texto de ficção produzido por Marcos Paulo Assis (marcos@paranashop.com.br) com auxílio de inteligência artificial e sob supervisão editorial humana. Personagens e situações são imaginários; os lugares são reais
Próximo episódio: O barco que não saiu de Paranaguá (litoral).
Episódios anteriores
- A última linha do Ônibus Circular
- O sino da Vila Velha
- Geada de novembro
- O barco que não saiu de Paranaguá (litoral).



