Contos do Paranashop | O sino da Vila Velha
Segundo episódio da série "Histórias do Paraná" leva a caderneta verde de Dona Nair até o Parque Estadual de Vila Velha, onde uma guia aprende a ouvir as histórias do lugar.

Histórias do Paraná · Episódio 2 · Ponta Grossa
A guia que não acreditava em lendas
Helena fazia o mesmo caminho há onze anos. Entrava no Parque Estadual de Vila Velha antes de o sol esquentar os arenitos, conferia o rádio, ajustava o crachá e esperava o primeiro grupo do dia. Sabia de cor onde cada turista pararia para fotografar, em que ponto alguém perguntaria "isso é natural mesmo?" e quando a criança mais cansada pediria colo.
O que ela não sabia, e nunca quis saber, era a história do sino.
Os guias mais antigos contavam que, em certas manhãs de vento sul, uma das fendas entre as rochas soltava um som grave, redondo, parecido com um sino de capela distante. Chamavam de o sino da Vila Velha. Helena achava graça. Para ela, era vento passando por pedra, e pedra não guarda segredo.
A visita da senhora de casaco de lã
Numa terça-feira de céu limpo, o grupo das nove tinha só três pessoas: um casal de aposentados de Maringá e uma senhora de casaco de lã, bolsa de pano apertada contra o peito, que chegou sozinha e pediu desculpas por não ter reservado.
— Eu conheci a senhora num ônibus, há uns oito anos — disse ela, quando o casal se afastou para fotografar. — A senhora ia para a rodoviária com uma mochila de excursão. Disse que trabalhava com turismo e que gostava de contar histórias das pedras.
Helena demorou a lembrar.
— A cobradora do Circular — disse, enfim. — Dona Nair, não é?
Nair sorriu e tirou da bolsa uma caderneta de capa verde, gasta nas pontas.
— Vim pedir uma ajuda. Tenho histórias demais para um caderno só. Pensei que a senhora, que conversa com tanta gente, soubesse o que fazer com elas.
O que o vento guarda
Elas caminharam até os arenitos, entre as formas que o tempo esculpiu, e Nair foi contando. Falou do estudante, da costureira, do senhor que olhava os prédios e lembrava da roça. Falou do passageiro de boina cinza e das flores do dia 14.
Helena ouvia de cabeça baixa. Quando Nair terminou, ficou um tempo calada.
— Sabe o que é curioso? — disse. — Eu levo gente por aqui há onze anos e nunca perguntei a ninguém o que o lugar significa para ele. Só explico como as rochas se formaram.
— É um bom começo — respondeu Nair. — Mas pedra também escuta, minha filha.
Nesse momento o vento virou. Helena sentiu primeiro no rosto, depois no som: baixo, fundo, vindo de uma fenda a poucos metros. Um tom que não era exatamente de sino, mas de algo que queria ser ouvido.
As duas ficaram paradas. O casal de Maringá, lá longe, também levantou a cabeça.
— É vento — disse Helena, mais para si do que para a outra.
— É vento — concordou Nair. — Mas tem dia que o vento sabe a hora certa.
A página nova
Depois da visita, Helena levou Nair até o pequeno quiosque da entrada e pediu dois cafés. Abriu a caderneta com cuidado, como quem abre algo que não é seu, e leu a página de 1998 com a letra miúda. Depois pegou a caneta do próprio crachá.
— Posso?
— É para isso que ela serve.
Helena escreveu na primeira página em branco que encontrou:
"Parque Estadual de Vila Velha. Uma guia que não acreditava em sino. O vento tocou assim mesmo."
E, pela primeira vez em onze anos, ela fez o que nunca tinha feito. Foi até o casal de Maringá, que tomava água num banco, e perguntou:
— Desculpem a curiosidade: o que o lugar faz o senhor sentir?
O homem olhou para a esposa, depois para as pedras.
— Que a gente é pequeno — disse. — E que isso, às vezes, é um alívio.
Helena anotou. Nair, de longe, sorriu.
A caderneta segue viagem
Ao fim da tarde, quando o parque esvaziou, Nair devolveu a caneta e fechou a caderneta.
— Fique com uma página só — disse Helena. — Eu tiro uma cópia das que escrevi. A senhora precisa levar o resto pra frente.
— Pra frente é Guarapuava — respondeu Nair. — Tem um produtor de lá, seu Antônio, que pegou meu ônibus durante anos. Escreveu uma carta pedindo para eu passar por lá quando me aposentasse. E novembro, dizem, é o mês em que a geada não perdoa.
Helena acompanhou Nair até o ponto de ônibus. Na despedida, o vento soprou de novo, e dessa vez nenhuma das duas fingiu não ouvir.
A caderneta seguia viagem.
Texto de ficção produzido por Marcos Paulo Assis (marcos@paranashop.com.br) com auxílio de inteligência artificial e sob supervisão editorial humana. Personagens e situações são imaginários; os lugares são reais
Próximo episódio: Geada de novembro (Guarapuava).
Episódios anteriores
Episódio 1 · A última linha do Ônibus Circular
Episódio 2 · O sino da Vila Velha
Episódio 3 ·

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