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Uso de cotonetes faz mal? O que médicos recomendam para limpar os ouvidos

  • Foto do escritor: Marcos Paulo Assis, editor — com apoio de IA
    Marcos Paulo Assis, editor — com apoio de IA
  • há 4 horas
  • 4 min de leitura

Apesar de presente em milhões de banheiros, o cotonete é alvo de alertas médicos. Entenda os riscos e as alternativas mais seguras.


Pessoa segurando um cotonete próximo ao ouvido enquanto um médico alerta para os riscos da limpeza inadequada.
Especialistas afirmam que a cera tem função protetora e que o uso frequente de cotonetes pode trazer riscos à saúde auditiva.

Quem nunca saiu do banho e recorreu a um cotonete para dar aquela sensação de limpeza completa nos ouvidos? O hábito é tão comum que atravessa gerações e faz parte da rotina de milhões de brasileiros. O que muita gente não sabe é que um dos objetos mais presentes nos banheiros também está entre os mais criticados pelos especialistas em saúde auditiva.


A orientação de otorrinolaringologistas tem sido clara há anos: cotonetes não devem ser introduzidos no canal auditivo. A recomendação, embora amplamente divulgada, ainda encontra resistência diante de um costume culturalmente consolidado.


A questão vai além de uma simples regra médica. Ela envolve comportamento, indústria de higiene pessoal, percepção de limpeza e até desinformação.


A cera de ouvido não é sujeira


Uma das principais razões para o uso inadequado de cotonetes é a crença de que a cera acumulada no ouvido representa falta de higiene.


Na realidade, o cerúmen — nome técnico da cera de ouvido — exerce funções essenciais para a proteção do organismo. Ele ajuda a impedir a entrada de poeira, insetos, fungos e bactérias, além de manter a região hidratada.


O próprio ouvido possui um mecanismo natural de limpeza. Movimentos da mandíbula durante a fala e a mastigação auxiliam a condução gradual da cera para a parte externa do canal auditivo, onde ela pode ser removida durante o banho ou com uma toalha.


Quando o cotonete é introduzido profundamente, o efeito costuma ser o oposto do esperado. Em vez de retirar a cera, ele frequentemente a empurra para dentro, favorecendo a formação de tampões.


O problema que começa com uma sensação de limpeza


A cena é comum nos consultórios médicos. O paciente relata sensação de ouvido tampado, diminuição da audição ou desconforto. Após a avaliação, descobre que o problema foi provocado justamente pelas tentativas de limpeza.


Especialistas explicam que o canal auditivo possui formato semelhante a uma curva. O cotonete alcança apenas parte da cera visível e empurra o restante para regiões mais profundas.


Em muitos casos, o resultado é a compactação do material, formando uma espécie de rolha que dificulta a passagem do som.


Os sintomas podem incluir:

  • Sensação de ouvido entupido;

  • Redução temporária da audição;

  • Coceira;

  • Dor;

  • Zumbido;

  • Tontura em alguns casos.


A remoção desse excesso geralmente precisa ser realizada por um profissional habilitado.


Quando o cotonete se transforma em risco


Além dos tampões de cera, o uso inadequado pode provocar lesões.


A pele do canal auditivo é extremamente fina e sensível. Pequenos arranhões podem abrir caminho para infecções, algumas delas bastante dolorosas.


Há ainda situações mais graves. Embora raras, perfurações do tímpano ocorrem todos os anos devido à introdução de objetos nos ouvidos. Crianças estão entre os grupos mais vulneráveis, especialmente quando realizam a limpeza sem supervisão.


Basta um movimento brusco, um tropeço ou um susto inesperado para que o cotonete avance além do limite seguro.


Em casos extremos, podem surgir perdas auditivas temporárias ou permanentes.


Um hábito que resiste às recomendações médicas


Mesmo diante dos alertas, o mercado de cotonetes continua forte. Isso acontece porque o produto possui diversas utilidades domésticas, desde a aplicação de cosméticos até pequenos cuidados pessoais.


O problema surge quando sua função é associada à limpeza interna dos ouvidos.


Parte da persistência desse hábito está relacionada à sensação psicológica de asseio. Muitas pessoas relatam desconforto ao imaginar que existe cera dentro dos ouvidos, ainda que ela esteja cumprindo sua função natural.


Outro fator é a tradição familiar. Durante décadas, pais ensinaram filhos a usar cotonetes como parte da rotina de higiene, criando um comportamento repetido automaticamente na vida adulta.


A mudança de hábito, portanto, exige não apenas informação médica, mas também uma revisão cultural sobre o que realmente significa estar limpo.


O que fazer quando há excesso de cera?


Embora a maioria das pessoas não precise remover o cerúmen manualmente, existem situações em que o acúmulo se torna excessivo.


Isso pode ocorrer por características anatômicas, produção aumentada de cera, uso frequente de fones intra-auriculares ou aparelhos auditivos.


Nesses casos, especialistas recomendam procurar avaliação médica.


O tratamento pode incluir o uso de soluções específicas para amolecimento da cera ou procedimentos realizados em consultório.


A tentativa de resolver o problema em casa, utilizando cotonetes, grampos, pinças ou outros objetos improvisados, costuma aumentar o risco de complicações.


E as velas auriculares e aparelhos de sucção?


Nos últimos anos, redes sociais passaram a divulgar métodos alternativos para limpeza dos ouvidos. Entre eles estão as chamadas velas auriculares, dispositivos de sucção e kits domésticos vendidos pela internet.


A maioria dessas soluções não possui comprovação científica robusta para uso rotineiro.

As velas auriculares, por exemplo, já foram alvo de diversos alertas internacionais devido ao risco de queimaduras e lesões.


A orientação médica permanece a mesma: qualquer procedimento que envolva o interior do canal auditivo deve ser realizado com cautela e, preferencialmente, sob supervisão profissional.


Como higienizar os ouvidos corretamente


A recomendação mais aceita entre especialistas é simples.


Durante o banho, a água que escorre naturalmente já ajuda na higiene da região externa da orelha. Após isso, basta secar delicadamente a parte visível com uma toalha limpa.


A limpeza deve se restringir à área externa.


A regra frequentemente repetida por otorrinolaringologistas resume bem a questão: não se deve colocar no ouvido nada menor do que o próprio cotovelo.


Embora a frase seja bem-humorada, ela traduz um princípio importante: o organismo possui mecanismos próprios para cuidar dessa região.


O futuro da higiene auditiva passa pela informação


A discussão sobre o uso de cotonetes revela como hábitos cotidianos podem permanecer por décadas mesmo diante de evidências contrárias. O produto continua sendo útil para diversas finalidades, mas sua utilização dentro dos ouvidos é cada vez mais questionada pela comunidade médica.


A popularização de conteúdos sobre saúde nas redes sociais ampliou o acesso à informação, mas também trouxe novos mitos e soluções milagrosas. Nesse cenário, compreender o funcionamento natural do corpo torna-se uma ferramenta valiosa para evitar problemas desnecessários.


Afinal, talvez a maior surpresa seja descobrir que aquilo que muitos tentam remover todos os dias — a cera — é justamente um dos mecanismos que ajudam a proteger a audição ao longo da vida.


Fontes
  • Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial

  • American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery

  • Mayo Clinic

  • Diretrizes internacionais de saúde auditiva e prevenção de lesões do canal auditivo.

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