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Urnas eletrônicas brasileiras são seguras? O que a checagem revela

Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
Marcos Paulo Assis
há 1 dia
9 min de leitura

Às vésperas das Eleições 2026, segurança da urna volta ao debate. Veja os riscos, as auditorias, o papel dos mesários e os modelos usados no exterior.


Urna eletrônica brasileira em uma seção eleitoral, com eleitor pressionando o botão confirma e bandeira do Brasil ao fundo.
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

A menos de um mês do primeiro turno das Eleições 2026, marcado para 4 de outubro, a segurança das urnas eletrônicas volta a ocupar espaço no debate político brasileiro. Com 158,7 milhões de eleitores aptos a votar e 517.206 seções eleitorais, qualquer dúvida sobre a integridade da votação ganha dimensão nacional e pode afetar não apenas candidatos, mas a confiança da população no resultado.


A pergunta "a urna eletrônica é segura?" não comporta uma resposta baseada apenas em confiança no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), assim como também não pode ser respondida pela simples afirmação de que sistemas eletrônicos são vulneráveis. A checagem das regras de 2026 e dos mecanismos de auditoria mostra um cenário mais complexo: há várias barreiras técnicas e procedimentos de fiscalização, existem vulnerabilidades que podem ser encontradas em testes controlados, mas não há comprovação de fraude eletrônica capaz de alterar uma eleição brasileira.


O ponto central está em distinguir possibilidade de ataque, vulnerabilidade, irregularidade e fraude comprovada. São situações diferentes e misturá-las costuma produzir conclusões que os fatos disponíveis não sustentam.


A urna é testada antes de chegar ao eleitor


A segurança começa muito antes de o equipamento ser colocado sobre a mesa de uma escola. Para as eleições de 2026, os códigos-fonte dos sistemas eleitorais ficaram disponíveis para inspeção desde outubro de 2025 e foram submetidos ao ciclo de testes, aperfeiçoamentos, assinatura digital e lacração dos sistemas. O próprio TSE informa que a urna só funciona com os programas desenvolvidos e oficialmente autorizados pela Justiça Eleitoral.


Um dos mecanismos mais relevantes é o Teste Público de Segurança dos Sistemas Eleitorais, conhecido como Teste da Urna. Investigadores externos recebem autorização para tentar encontrar vulnerabilidades nos sistemas que serão utilizados na eleição. Em 2025, foram apresentadas 122 inscrições de planos de teste por 149 pessoas, e a etapa prática contou com dezenas de planos destinados a atacar diferentes componentes do sistema.


O resultado merece uma leitura cuidadosa. Foram identificados achados que levaram a correções e aperfeiçoamentos, mas nenhuma das tentativas executadas em 2025 conseguiu comprometer o sigilo ou a integridade do voto. Em maio de 2026, pesquisadores retornaram ao TSE para verificar se as correções haviam sido efetivamente implementadas; o Tribunal informou que o Teste de Confirmação validou as melhorias realizadas.


Isso permite uma conclusão importante: o sistema não é tratado tecnicamente como algo que jamais poderá apresentar uma vulnerabilidade. Ao contrário, a estratégia é justamente colocar o sistema sob pressão antes da eleição, descobrir problemas e corrigi-los.


Vulnerabilidade não significa eleição fraudada


Uma falha encontrada em um ambiente de teste não equivale a uma fraude ocorrida em uma eleição real. Para transformar uma vulnerabilidade em manipulação efetiva seria necessário explorar aquela falha nas condições concretas do processo, superar outros mecanismos de proteção e produzir um resultado que permanecesse consistente com os registros e procedimentos de auditoria.


Também não é correto afirmar que a existência de testes públicos prova que uma urna seja "inviolável". O teste demonstra exatamente o contrário: qualquer sistema complexo deve ser continuamente submetido a tentativas de ataque. A questão passa a ser se os ataques conseguem comprometer o resultado e se eventuais problemas são corrigidos antes do pleito.


Quem fiscaliza uma seção eleitoral?


No dia da votação, a fiscalização não depende exclusivamente dos mesários. A seção é administrada pela Mesa Receptora de Votos, composta por cidadãos convocados ou nomeados pela Justiça Eleitoral, enquanto os partidos, federações e coligações podem indicar fiscais para acompanhar as etapas da votação e da apuração.


A regulamentação das Eleições 2026 permite que cada partido, federação ou coligação nomeie até dois fiscais para cada Mesa Receptora, embora somente um fiscal de cada organização possa atuar simultaneamente dentro da seção. O mesmo fiscal pode acompanhar mais de uma seção.


A identificação do eleitor também pode ser acompanhada pelos fiscais. As normas estabelecem que o documento apresentado pelo eleitor poderá ser examinado por esses representantes, e uma eventual impugnação da identidade pode ser apresentada antes que a pessoa inicie a votação.


A estrutura de fiscalização não termina na porta da sala. O processo envolve Justiça Eleitoral, partidos, Ministério Público e outras entidades habilitadas a acompanhar as diferentes fases. Para 2026, o TSE também regulamentou Missões de Observação Eleitoral e ampliou mecanismos de acompanhamento do início e do encerramento da votação.


Zerésima e Boletim de Urna criam pontos de conferência


Antes de começar a votação, a urna emite a zerésima, documento que demonstra que não há votos registrados para candidatos naquele momento. Nas regras de 2026, as duas primeiras pessoas da fila são convidadas a acompanhar o procedimento, além dos mesários e fiscais presentes.


No encerramento ocorre uma etapa ainda mais conhecida: a emissão do Boletim de Urna (BU). O documento apresenta a votação daquela seção, incluindo os votos atribuídos a candidatos e legendas, além de brancos, nulos e outras informações previstas na regulamentação.


Uma via assinada do BU é afixada em local visível da seção. A norma também prevê que as duas últimas pessoas a votar sejam convidadas a acompanhar o encerramento e recebam uma cópia do boletim. O resultado produzido pela urna não fica, portanto, restrito a um sistema central da Justiça Eleitoral.


O BU ainda possui código QR, permitindo a conferência por aplicativo. A regulamentação de 2026 autoriza inclusive que entidades e pessoas não vinculadas à Justiça Eleitoral desenvolvam ferramentas próprias para leitura e tratamento desses dados.


Esse mecanismo é fundamental para entender a auditabilidade do processo: cada seção produz um resultado que pode ser confrontado posteriormente com os dados utilizados na totalização.


O que acontece depois que a urna é encerrada?


Após o encerramento, a urna gera o Boletim de Urna, o Registro Digital do Voto e outros arquivos, que são assinados digitalmente. Os dados seguem para os sistemas de transmissão e totalização da Justiça Eleitoral. A regulamentação prevê ainda mecanismos para verificar a autenticidade e a integridade dos arquivos recebidos.


Para as eleições de 2026, o TSE determinou que os Boletins de Urna enviados para totalização sejam disponibilizados em sua página na internet, assim como diversos arquivos relacionados aos resultados. Entre eles estão imagens dos BUs, arquivos do Registro Digital do Voto, logs das urnas e dados de votação por seção.


Há, portanto, diferentes caminhos para conferir se o resultado publicado corresponde ao resultado produzido em cada seção. Essa característica reduz a plausibilidade de uma fraude simples baseada na ideia de que alguém poderia simplesmente "mudar os números em Brasília" sem deixar nenhuma possibilidade de comparação.


Subornar mesários poderia mudar uma eleição?


A hipótese de corrupção de uma pessoa que trabalha na seção não pode ser considerada impossível. Mesários são pessoas e, como ocorre em qualquer atividade pública, podem cometer erros ou tentar praticar irregularidades. O que precisa ser analisado é qual poder efetivo um mesário possui dentro da estrutura eleitoral.


O presidente da Mesa Receptora e os demais integrantes têm atribuições específicas, como preservar a urna, conduzir os procedimentos de votação e participar do encerramento. Eles não possuem um comando que permita escolher ou alterar individualmente os votos registrados pelos eleitores.


No fim da votação, o Boletim de Urna precisa ser emitido, assinado e afixado na seção. Fiscais partidários presentes também podem acompanhar e assinar os documentos. A regulamentação estabelece ainda procedimentos para retirada da mídia de resultado, lacração e encaminhamento dos documentos.


Uma tentativa de subornar um mesário para praticar uma irregularidade pode configurar crime, dependendo da conduta. O Código Eleitoral considera funcionário público, para fins penais, quem exerce temporariamente ou sem remuneração uma função pública e prevê diversos crimes eleitorais. A corrupção eleitoral do artigo 299 envolve oferecer, prometer, solicitar ou receber vantagem para obter ou dar voto ou conseguir abstenção.


Existe, entretanto, uma diferença importante entre subornar um mesário e comprar votos. A compra de votos ocorre diretamente sobre o eleitor e é uma ameaça eleitoral concreta, enquanto uma eventual tentativa de corrupção de um mesário teria de produzir alguma interferência no procedimento da seção. Em ambos os casos, seria necessário haver prova da conduta para que houvesse responsabilização.


Onde estão os riscos mais realistas?


O risco eleitoral não está necessariamente concentrado na urna. Uma eleição pode ser afetada por compra de votos, abuso de poder econômico ou político, coação, desinformação, utilização indevida da máquina pública ou irregularidades na campanha, mesmo que nenhum voto seja alterado eletronicamente.


Do ponto de vista tecnológico, os riscos incluem vulnerabilidades de software, falhas de implementação e problemas em outros componentes do ecossistema eleitoral. No campo físico, existem riscos associados à preservação de equipamentos, lacres, mídias e documentos. E há sempre o fator humano, que nenhum sistema informatizado consegue eliminar completamente.


A própria Justiça Eleitoral mantém procedimentos específicos para testar essas possibilidades. Em 2026, o Teste de Integridade das Urnas utiliza cédulas previamente preenchidas, cujos votos são digitados na urna para verificar se a contabilização corresponde ao conteúdo conhecido. Existe também o Teste de Integridade com Biometria, realizado com participação voluntária de eleitores.


Esses testes são feitos por amostragem, portanto não representam uma prova individual sobre cada uma das mais de 500 mil seções eleitorais. São instrumentos de auditoria destinados a verificar o funcionamento do sistema em condições controladas.


Brasil está entre os países que usam voto eletrônico


O modelo brasileiro não é único no mundo, embora sua escala seja incomum. A International IDEA registra 34 países que utilizavam alguma forma de votação eletrônica em sua base comparativa. Desses, 17 utilizavam máquinas de votação do tipo DRE — Direct Recording Electronic, categoria que inclui o Brasil.


Entre os países listados pela organização estão Brasil, Índia, Bangladesh, Butão, Albânia, Bulgária, Fiji, Irã, México, Omã, Panamá, Peru, Rússia, Venezuela e Namíbia, além de alguns estados norte-americanos. A tecnologia, entretanto, não é igual em todos eles.


Índia, México, Peru e Venezuela, por exemplo, aparecem na classificação de países que utilizam máquinas DRE acompanhadas de VVPAT, uma trilha física que permite ao eleitor verificar uma impressão correspondente ao voto. Brasil, Bangladesh, Butão, França e Namíbia aparecem na categoria DRE sem VVPAT na base consultada.


A comparação internacional também mostra que não existe uma solução única aceita por todas as democracias. A International IDEA registra países que abandonaram o voto eletrônico; entre as razões apontadas estão preocupações relacionadas à confiança e à segurança. Isso demonstra que o debate sobre auditabilidade não é exclusivamente brasileiro.


Uma eleição segura depende também de confiança


O Brasil realizará em outubro uma das maiores operações eleitorais do mundo. São mais de 158 milhões de eleitores, mais de 500 mil seções e cerca de 560 mil urnas preparadas para o pleito de 2026. A dimensão do processo explica por que a discussão sobre segurança não pode ser reduzida a uma disputa entre quem "confia" e quem "desconfia" da Justiça Eleitoral.


A checagem dos mecanismos existentes permite afirmar que há uma estrutura ampla de proteção, fiscalização e auditoria. A urna não opera conectada à internet durante a votação, os sistemas são submetidos a testes públicos, há fiscalização partidária e cada seção produz registros que podem ser conferidos posteriormente.


Isso não autoriza a conclusão de que a tecnologia seja absolutamente invulnerável. Os próprios testes públicos mostram que pesquisadores conseguem encontrar pontos que precisam ser aperfeiçoados. A diferença está no que acontece depois: os achados são analisados, as correções são implementadas e os pesquisadores retornam para verificar as mudanças.


Também não há base factual para afirmar que "bastaria comprar os mesários" para alterar uma eleição. O poder dos mesários é limitado por procedimentos, fiscalização, registros e auditorias. Uma fraude de grande escala exigiria uma operação muito mais complexa e deixaria diferentes pontos passíveis de investigação.


O dado mais relevante talvez seja histórico: não há comprovação de uma fraude eletrônica que tenha alterado o resultado de uma eleição brasileira desde a implantação do sistema, segundo o histórico apresentado pela Justiça Eleitoral. Isso não significa que toda suspeita seja ilegítima, mas estabelece um parâmetro para o debate: acusações de fraude precisam ser acompanhadas de evidências verificáveis.


A democracia não deveria depender de fé na tecnologia nem de suspeitas sem prova. O caminho mais seguro está na fiscalização permanente, na abertura dos sistemas ao escrutínio técnico, na participação dos partidos e da sociedade e na possibilidade de confrontar os resultados produzidos em cada seção.


No fim, a pergunta talvez precise ser ampliada. Mais do que saber se uma urna é "segura", o eleitor precisa saber se existem mecanismos suficientes para descobrir uma tentativa de fraude. E essa é uma discussão que não termina com a eleição de 2026: quanto maior a importância da tecnologia na escolha dos representantes, maior deve ser também a transparência exigida de quem administra o processo.


Fontes


Edição: Marcos Paulo Assis

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.


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