Eleição no Paraná esquenta com Moro na frente e guerra nos bastidores
A disputa pelo governo ganhou tensão nos tribunais, enquanto levantamentos mostram cenários diferentes e tornam a reta final ainda mais imprevisível.

A eleição para o Governo do Paraná entrou em uma semana de sinais contraditórios. Sergio Moro continua aparecendo na frente em pesquisas recentes, mas a distância para os adversários varia significativamente conforme o instituto. Ao mesmo tempo, a campanha de Sandro Alex passou a enfrentar decisões na Justiça Eleitoral, enquanto a disputa pelo Senado se mostra igualmente aberta. O resultado é uma corrida menos definida do que sugerem os números isolados de qualquer levantamento.
A pesquisa Real Time Big Data divulgada em 11 de setembro colocou Moro com 35% no primeiro turno, contra 23% de Sandro Alex e 21% de Requião Filho. No segundo turno, Moro aparece com 43% contra 36% de Sandro. O levantamento ouviu 1.600 eleitores entre 4 e 8 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Poucos dias antes, porém, o Paraná Pesquisas havia apresentado uma fotografia diferente: Moro tinha 45%, Requião Filho 24% e Sandro Alex 17,5%. A diferença entre os levantamentos não é um detalhe estatístico menor. Ela mostra que o eleitorado ainda pode estar em movimento e que a campanha terá papel relevante na definição do segundo turno.
A eleição que as pesquisas ainda não conseguiram fotografar
A principal conclusão dos levantamentos recentes talvez esteja justamente na divergência entre eles. O eleitor paranaense não está necessariamente diante de uma corrida consolidada, mas de uma disputa em que metodologia, período de entrevistas, conhecimento dos candidatos e dinâmica da campanha podem produzir fotografias distintas.
O IRG, por exemplo, ouviu 1.200 eleitores entre 31 de agosto e 3 de setembro e encontrou Moro com 38,8%, Sandro Alex com 27% e Requião Filho com 21,8% no cenário estimulado. No segundo turno entre Moro e Sandro, o resultado foi 44,8% a 40,5%, uma diferença de apenas 4,3 pontos.
Os números não autorizam concluir que Moro esteja perdendo a liderança. Pelo contrário, ele aparece à frente nos levantamentos citados. O que eles mostram é que a vantagem pode ser mais ou menos confortável conforme a pesquisa e que o cenário ainda comporta alterações.
Para o eleitor, há uma consequência prática: pesquisa não substitui voto. Para os candidatos, a consequência é ainda mais importante: nenhuma campanha pode considerar garantida uma vaga no segundo turno.
O desafio de Sandro Alex
Sandro Alex precisa resolver uma equação particularmente difícil. Ele disputa contra Moro carregando a marca de continuidade do grupo político de Ratinho Junior, mas precisa transformar a elevada avaliação do governo estadual em intenção de voto pessoal.
O candidato tem experiência administrativa e uma narrativa baseada em infraestrutura. Antes da candidatura, comandou a Secretaria de Infraestrutura e Logística e construiu sua imagem política em torno de obras, rodovias e investimentos. Em entrevista publicada anteriormente pela Gazeta do Povo, defendeu as concessões rodoviárias e apresentou-se como integrante de longa data do grupo político de Ratinho Junior.
O problema é que uma eleição majoritária exige mais do que currículo administrativo. Sandro precisa convencer o eleitor de que representa continuidade sem parecer simplesmente um substituto do governador. Também precisa ocupar um espaço próprio diante de Moro e de Requião Filho.
Essa dificuldade ajuda a explicar a intensidade crescente da campanha.
A guerra jurídica entrou no centro da disputa
Um dos fatos mais relevantes dos bastidores nesta semana foi a escalada de representações na Justiça Eleitoral envolvendo a propaganda dos principais candidatos.
O próprio TRE-PR registra uma representação contra Sandro Alex, Rafael Greca e a coligação "A Mudança Continua". A ação questiona uma peça publicitária que reuniu resultados de diferentes pesquisas e, segundo a acusação, teria apresentado os levantamentos como se formassem uma tendência eleitoral contínua, omitindo outros estudos do mesmo período.
O caso é especialmente sensível porque pesquisas eleitorais têm peso estratégico. Uma campanha que mostra determinado candidato crescendo pode influenciar a percepção de eleitores indecisos, lideranças políticas, empresários e até aliados que avaliam a viabilidade de suas próprias candidaturas.
A Justiça Eleitoral, portanto, não está apenas arbitrando uma disputa de propaganda. Está estabelecendo os limites de uma guerra de comunicação em que alguns pontos percentuais podem alterar o comportamento eleitoral.
Moro também está sob contestação
O PL e aliados de Moro igualmente recorrem à Justiça Eleitoral. O TRE-PR registra representação relacionada a suposto impulsionamento negativo nas redes sociais contra o candidato. Há ainda outros processos envolvendo propaganda eleitoral e conteúdo digital.
Esse ambiente revela uma característica da eleição de 2026: as campanhas perceberam que a disputa jurídica pode ser tão importante quanto a disputa política.
Em vez de esperar apenas o julgamento do eleitor, as equipes procuram controlar aquilo que o adversário pode dizer, divulgar ou impulsionar. A tendência é que esse tipo de confronto aumente na reta final.
A crítica legítima faz parte da democracia. O problema surge quando a campanha transforma a Justiça Eleitoral em uma extensão permanente do marketing político.
Senado tem cenário ainda mais imprevisível
Se a disputa pelo governo apresenta um líder, a eleição para o Senado é muito mais difícil de decifrar. O Paraná escolherá dois senadores, e os levantamentos recentes apresentam combinações bastante diferentes entre os candidatos.
Pesquisa do IRG divulgada pelo Bem Paraná colocou Deltan Dallagnol na liderança, seguido por Gleisi Hoffmann e Alexandre Curi. Outro levantamento, do Neokemp, também mostrou Deltan à frente no primeiro voto, com Alexandre Curi e Gleisi em posições competitivas. A mesma pesquisa apontou Filipe Barros como forte candidato na segunda escolha do eleitor.
A mecânica da eleição torna tudo mais complexo. O eleitor poderá votar em dois nomes e não necessariamente escolher candidatos da mesma corrente política. Um candidato pode ter forte desempenho como primeira opção e outro crescer na segunda escolha.
Esse comportamento favorece campanhas que consigam construir uma imagem de complementaridade.
Deltan entre a força eleitoral e o desgaste jurídico
Deltan Dallagnol continua sendo um dos nomes mais competitivos da disputa, mas sua candidatura também entrou no radar jurídico do TRE-PR.
Em 5 de setembro, o tribunal informou que o processo de registro da candidatura tinha mais de 5 mil páginas e determinou sigilo imediato sobre documentos fiscais de terceiros que haviam sido juntados aos autos. O TRE-PR encaminhou o episódio ao Ministério Público para as providências consideradas cabíveis.
O tribunal, contudo, não afirmou que o episódio significasse impedimento à candidatura. A questão relatada oficialmente dizia respeito ao tratamento de documentos sigilosos dentro do processo.
A distinção é fundamental. Em uma campanha marcada por forte polarização, um problema processual pode rapidamente ser transformado em argumento político. Cabe ao jornalismo separar o fato jurídico da interpretação eleitoral.
A sucessão de Ratinho é o verdadeiro pano de fundo
Mais do que uma simples eleição entre candidatos, a disputa pelo governo representa uma decisão sobre a continuidade do grupo político que administra o Paraná.
Ratinho Junior construiu uma ampla rede de alianças municipais e partidárias, além de uma agenda administrativa baseada em investimentos, infraestrutura e relacionamento próximo com prefeitos. Sandro Alex é o candidato escolhido para tentar preservar esse espaço político.
O desafio é conhecido em outros estados: popularidade de governador não se transfere automaticamente para o sucessor.
A própria campanha de Sandro precisa equilibrar dois movimentos. De um lado, mostrar resultados do atual governo. De outro, apresentar propostas próprias para que o eleitor enxergue nele um governador potencial, e não apenas um administrador encarregado de continuar o projeto de Ratinho.
Esse debate tem impacto direto sobre a economia paranaense. O próximo governo terá de lidar com investimentos em infraestrutura, concessões rodoviárias, logística, industrialização, segurança, saúde, educação e equilíbrio das contas públicas.
Não basta perguntar quem está ganhando. É preciso perguntar qual projeto terá condições de sustentar o Estado nos próximos quatro anos.
O eleitor começa a separar governo de candidato
A reta final tende a colocar uma questão no centro da campanha: até que ponto a avaliação do governo Ratinho Junior será transferida para Sandro Alex?
Essa transferência nunca é automática. Um eleitor pode aprovar uma administração, reconhecer obras realizadas e ainda assim escolher outro candidato por razões ideológicas, econômicas ou simplesmente por preferência pessoal.
O mesmo vale para Moro. Sua liderança eleitoral é evidente em diferentes pesquisas, mas uma eleição para governador exige que o senador transforme sua forte identidade política nacional em uma proposta concreta para administrar o Paraná.
É aí que a campanha entra em uma segunda fase. Menos slogans e mais respostas.
Como será a política de segurança? Qual será a relação com os municípios? Como o Estado enfrentará o aumento das despesas? Que modelo será adotado para novas concessões? Qual será a política para saúde e educação? Como o Paraná pretende ampliar investimentos sem comprometer o equilíbrio fiscal?
Essas questões atingem diretamente a vida cotidiana. Estão presentes no preço do transporte, na qualidade das estradas, no atendimento dos hospitais, na segurança dos bairros e na capacidade das empresas de investir e contratar.
A pergunta que fica
A semana termina com Sergio Moro na frente, Sandro Alex tentando reduzir a distância, Requião Filho preservando espaço competitivo e uma disputa pelo Senado ainda bastante aberta. Ao mesmo tempo, a Justiça Eleitoral passou a ocupar espaço crescente na campanha, especialmente nas batalhas envolvendo propaganda e pesquisas.
A fotografia mais honesta neste momento é a de uma eleição competitiva, com liderança definida, mas sem resultado antecipado.
Nas próximas semanas, o eleitor deverá assistir a uma campanha mais agressiva e mais profissional. O risco é que a disputa fique concentrada em ataques, pesquisas e vídeos de poucos segundos, deixando em segundo plano aquilo que realmente deveria decidir uma eleição: a capacidade dos candidatos de administrar o Estado.
No fim, a pergunta mais relevante talvez não seja quem consegue produzir a melhor propaganda, mas quem consegue apresentar ao paranaense um projeto que sobreviva ao dia seguinte da posse.
É quando termina a campanha que começa a cobrança de verdade.
Edição: Marcos Paulo Assis
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.


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