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A Justiça virou personagem central da eleição

Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
Marcos Paulo Assis
há 1 dia
7 min de leitura

A reta final da eleição paranaense foi marcada por decisões judiciais, guerra de pesquisas, ofensivas entre campanhas e novas disputas pelo segundo turno.


Semana política no Paraná: os bastidores das eleições, decisões judiciais, pesquisas e disputas que movimentaram o estado.

A última semana antes da entrada na reta final da campanha paranaense mostrou que a disputa pelo Governo do Estado e pelo Senado não está sendo travada apenas nos palanques, nas redes sociais e no horário eleitoral. Tribunais, pesquisas de intenção de voto e ações entre adversários passaram a ocupar espaço central na estratégia das campanhas.


O movimento mais expressivo ocorreu em torno de duas candidaturas: Sergio Moro, que enfrenta uma ação eleitoral relacionada à utilização da estrutura da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), e Deltan Dallagnol, cuja campanha ao Senado permanece suspensa por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, embora o registro da candidatura continue válido.


Ao mesmo tempo, uma sequência de pesquisas colocou Sandro Alex e Requião Filho em uma disputa cada vez mais apertada pelos votos que podem definir a composição do segundo turno. O quadro, porém, está longe de ser uniforme: os institutos apresentam fotografias diferentes do eleitorado, com diferenças consideráveis nos percentuais.

O resultado é uma eleição em que a disputa pela narrativa dos números se tornou quase tão importante quanto os próprios números.


Deltan permanece candidato, mas continua impedido de fazer campanha


O caso de Deltan Dallagnol talvez seja o episódio juridicamente mais delicado desta reta final.


Em 8 de setembro, o TRE-PR havia deferido, por 4 votos a 3, o registro da candidatura de Dallagnol ao Senado. A decisão foi contestada no TSE e, em 19 de setembro, o ministro Floriano de Azevedo Marques concedeu liminar suspendendo os atos de campanha do candidato. A medida atingiu propaganda eleitoral, participação em debates e utilização de recursos públicos.


O quadro ficou ainda mais complexo porque, em 23 de setembro, o TRE-PR manteve o registro da candidatura. Assim, existem duas situações jurídicas que precisam ser separadas: o registro continua válido no âmbito da decisão regional, mas a campanha está suspensa por determinação do TSE. A palavra final sobre a validade da candidatura ainda pertence à Corte Superior.


A controvérsia tem origem em fatos relacionados à saída de Dallagnol do Ministério Público Federal antes de sua entrada na política. Os partidos que questionam sua candidatura sustentam que a situação deve ser alcançada pelo entendimento adotado pelo TSE em 2023, quando o então deputado federal teve o mandato cassado. A defesa de Dallagnol contesta essa interpretação e sustenta que a decisão regional reconheceu sua elegibilidade.


O ponto jornalisticamente relevante é que nenhuma das duas narrativas deve ser tratada como decisão definitiva. O caso permanece submetido ao Judiciário, e o eleitor precisa distinguir alegação das partes, decisão liminar e julgamento definitivo.


A disputa pelas pesquisas também chegou aos tribunais


A guerra eleitoral desta semana teve outro componente incomum: as próprias pesquisas de intenção de voto passaram a ser objeto de disputas judiciais.


A nova pesquisa Quaest, contratada pela RPC, chegou a ser suspensa provisoriamente pelo TRE-PR após questionamentos apresentados pela coligação de Sandro Alex. A representação levantou dúvidas sobre a identificação do responsável pelo pagamento, uma nota fiscal emitida antes do trabalho de campo e o tratamento das entrevistas em que o eleitor não informava a renda familiar.


A suspensão, entretanto, não durou até a divulgação. Em 23 de setembro, a juíza auxiliar Cláudia Cristina Cristofani revogou a liminar depois que a Quaest apresentou esclarecimentos e documentos. A pesquisa foi então divulgada no dia seguinte.

Os números mostraram Sergio Moro com 36%, Requião Filho com 20% e Sandro Alex também com 20%. Foram entrevistadas 804 pessoas entre 20 e 23 de setembro, com margem de erro de três pontos percentuais e registro PR-02802/2026.


O dado mais significativo da rodada, comparado à pesquisa anterior da própria Quaest, foi a evolução de Sandro Alex, que passou de 15% para 20%, enquanto Moro oscilou de 37% para 36% e Requião Filho de 21% para 20%. Isso colocou os dois últimos candidatos em empate numérico dentro da margem de erro.


O cenário, entretanto, muda quando se observam outros institutos.


A Paraná Pesquisas, realizada entre 15 e 17 de setembro, registrou Moro com 44,7%, Requião Filho com 23% e Sandro Alex com 19,7%. Já levantamento anterior do Real Time Big Data, realizado entre 11 e 15 de setembro, apontou Moro com 35%, Sandro Alex com 27% e Requião Filho com 22%.


A diferença entre levantamentos não significa necessariamente erro. Amostras, períodos de coleta, metodologia e formulação das perguntas podem produzir resultados distintos. O cuidado necessário é outro: não transformar uma pesquisa isolada em previsão do resultado eleitoral.


A ação contra Moro abre uma nova frente de batalha


Outro episódio que ganhou peso nos bastidores envolve Sergio Moro.


A Justiça Eleitoral do Paraná determinou a preservação de documentos da Fiep dentro de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral apresentada por Sandro Alex e pela coligação A Mudança Continua. O processo questiona se a estrutura da entidade teria sido utilizada para ampliar a exposição política de Moro e de Edson Vasconcelos, candidato a vice na chapa.


A acusação menciona eventos realizados pela Fiep e contratos que, segundo os autores da ação, somariam aproximadamente R$ 11,27 milhões. O pedido inclui a cassação dos registros da chapa e a declaração de inelegibilidade, mas a Justiça não determinou cassação alguma nesta fase. A decisão apenas determinou a preservação de documentos para permitir a investigação.


Essa distinção é fundamental.


O corregedor regional eleitoral, desembargador Fernando Prazeres, considerou que os fatos poderiam, em tese, ser examinados sob a ótica de abuso de poder econômico e entendeu haver elementos suficientes para preservar provas. Ao mesmo tempo, rejeitou outros pedidos apresentados pela coligação, entre eles a retirada imediata de outdoors e a proibição de participação de Moro e Vasconcelos em eventos da Fiep.


A defesa de Moro afirma que ele participou dos eventos como senador e autoridade convidada e que os fóruns faziam parte da programação institucional da Federação. A Fiep também informou possuir documentação organizada sobre contratos, atas e despesas e afirmou que poderá apresentar os documentos à Justiça.


Portanto, o episódio deve ser tratado como investigação em andamento, e não como comprovação de irregularidade.


A propaganda eleitoral está cada vez mais judicializada


O volume de processos revela uma característica importante da campanha de 2026.

Segundo o TRE-PR, até 23 de setembro haviam sido julgadas 374 representações por propaganda eleitoral irregular, contra 231 durante todo o período eleitoral de 2022. O tribunal também havia recebido 197 notícias de irregularidades em propaganda.


O dado não permite concluir, sozinho, que os candidatos estejam cometendo mais irregularidades. O ambiente eleitoral mudou, especialmente com a expansão da propaganda digital, das redes sociais e dos conteúdos patrocinados.


Mas a quantidade de ações revela outra coisa: as campanhas estão recorrendo à Justiça como instrumento cotidiano de disputa eleitoral.


O TRE-PR registra, por exemplo, processos envolvendo propaganda contra Moro, propaganda relacionada a Sandro Alex e peças ligadas à candidatura de Deltan. A Corte também analisa representações sobre pesquisas e conteúdos publicados nas redes sociais.

Para o eleitor, isso aumenta a necessidade de consultar a fonte original antes de compartilhar uma acusação ou um número de pesquisa.


Ratinho Junior aumenta participação na campanha de Sandro Alex


Nos bastidores políticos, a movimentação de Ratinho Junior também ganhou peso.

O governador licenciou-se do cargo em 17 de setembro para ampliar sua participação na campanha de Sandro Alex. Durante o período, o vice-governador Darci Piana assumiu o comando do Executivo estadual. Ratinho passou a participar mais diretamente de agendas políticas ao lado do candidato do PSD.


A estratégia é claramente relevante para a sucessão estadual porque coloca o capital político do atual governo no centro da disputa.


Sandro Alex tenta transformar a avaliação positiva da administração estadual em argumento eleitoral, enquanto seus adversários procuram separar a avaliação do governo da escolha do sucessor. A Folha registrou que Ratinho Junior tem sido alvo de críticas de Moro justamente pela decisão de se afastar temporariamente do cargo para atuar na campanha.

O movimento mostra como a eleição deixou de ser apenas uma disputa entre três nomes. Tornou-se também uma avaliação indireta do legado administrativo do atual governo e da capacidade de seus aliados transferirem apoio eleitoral.


O Senado também entrou em zona de incerteza


A disputa pelas duas vagas do Paraná no Senado apresenta outro quadro fragmentado.

Na pesquisa Quaest divulgada em 24 de setembro, considerando a combinação das duas vagas, Alexandre Curi apareceu com 14%, Deltan Dallagnol e Filipe Barros com 11% cada e Gleisi Hoffmann com 10%. A pesquisa mostrou ainda parcela expressiva do eleitorado sem definição.


A situação de Deltan acrescenta uma variável que não pode ser ignorada: ele aparece nas pesquisas, mas está com a campanha suspensa por decisão do TSE.


Outro episódio judicial envolvendo pesquisa do Senado ocorreu nesta sexta-feira, 25. O TRE-PR determinou a suspensão da divulgação de levantamento do IRG registrado sob o número PR-01172/2026, após pedido da coligação Fortaleza Paraná. A Gazeta do Povo retirou os números da publicação original após a decisão.


Mais uma vez, é necessário separar duas coisas: uma pesquisa suspensa por decisão judicial não é automaticamente uma pesquisa considerada falsa; a suspensão é uma medida processual que pode ocorrer diante de questionamentos sobre registro, metodologia ou outros requisitos legais.


A última semana será decidida também pela capacidade de mobilização


Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, as campanhas entram agora no período de maior exposição pública.


A propaganda eleitoral tende a ficar mais agressiva, os ataques entre adversários devem aumentar e novas pesquisas podem alterar as estratégias. O debate previsto pela RPC para 29 de setembro será um dos últimos grandes momentos de confronto direto entre Moro, Sandro Alex e Requião Filho.


O principal desafio para os candidatos será transformar intenção de voto em voto efetivo. Para os partidos, será necessário mobilizar estruturas municipais, lideranças regionais e militância. Para o eleitor, será justamente o momento de separar promessa de proposta, propaganda de informação e acusação de fato comprovado.


A semana termina com uma eleição ainda marcada por diferenças entre pesquisas, disputas judiciais e intensa movimentação partidária. Nenhum desses elementos, isoladamente, determina o resultado das urnas.


O que eles mostram é uma campanha chegando ao momento decisivo com alto grau de competição e judicialização. A responsabilidade, daqui para frente, não será apenas dos candidatos e da Justiça Eleitoral. Também caberá à imprensa verificar informações antes de reproduzi-las e ao eleitor avaliar propostas, históricos e fatos documentados antes de transformar mensagens de campanha em convicções.


A urna de 4 de outubro encerrará uma etapa da disputa. Os processos judiciais, as contas de campanha e as consequências administrativas das escolhas políticas, porém, continuarão muito depois dela.


Edição: Marcos Paulo Assis

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

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