Empresas paranaenses reduzem riscos diante de juros ainda elevados
- Marcos Paulo Assis
- há 1 dia
- 5 min de leitura
Inadimplência recorde, crédito caro e desaceleração econômica desafiam empresas, mas Paraná ainda registra crescimento do comércio e geração de empregos.

A economia paranaense não está diante de uma crise generalizada, mas o ambiente financeiro ficou mais difícil para uma parcela significativa das empresas. O número de negócios inadimplentes no Paraná chegou a 601.986 em junho de 2026, segundo a Serasa Experian, enquanto o Brasil ultrapassou 9,1 milhões de empresas negativadas, novo recorde da série. As dívidas empresariais no país alcançaram R$ 232,9 bilhões.
O dado merece atenção porque a inadimplência não significa necessariamente falta de vendas. Uma empresa pode aumentar o faturamento e, mesmo assim, terminar o mês com dificuldades para pagar fornecedores, impostos, salários e financiamentos. O problema aparece quando o dinheiro entra mais lentamente do que as despesas vencem ou quando a margem obtida nas vendas deixa de compensar o aumento dos custos.
É justamente essa combinação que torna o atual cenário mais complexo. O comércio paranaense continua crescendo, o mercado de trabalho mantém geração de vagas e a indústria apresenta momentos de reação. Ao mesmo tempo, o crédito permanece caro e a atividade econômica brasileira começa a perder velocidade.
Para o empresário, a pergunta deixou de ser apenas quanto vender. Passou a ser quanto da receita efetivamente se transforma em caixa e qual é o custo para financiar a operação.
Serviços concentram a maior parte das empresas inadimplentes
A checagem dos dados da Serasa muda uma interpretação importante da reportagem anterior. Serviços são o segmento com maior participação entre as empresas negativadas, representando 55,7% do total em junho. O comércio aparece com 32,2%, a indústria com 8% e o setor primário com 0,9%.
A origem das dívidas reforça o papel do capital de giro nessa dificuldade. Serviços responderam por 31,6% das dívidas inadimplidas, enquanto bancos e cartões representaram 19,5%. A Serasa aponta que muitas empresas continuam utilizando crédito para sustentar a operação, e não necessariamente para financiar expansão.
O quadro atinge principalmente os pequenos negócios. Em junho, as micro e pequenas empresas respondiam por 8,6 milhões dos CNPJs inadimplentes no país e concentravam R$ 201,4 bilhões em dívidas. Cada empresa desse grupo tinha, em média, 6,9 contas inadimplidas, segundo a Serasa.
Na prática, o problema pode começar de maneira discreta. Um restaurante compra insumos com prazo de 28 dias, recebe parte das vendas no cartão e precisa pagar folha e aluguel antes de receber todo o faturamento. Uma pequena indústria pode ter encomendas, mas precisar financiar matéria-prima e estoque. Uma empresa de serviços pode ter contratos assinados e, ainda assim, enfrentar atrasos dos clientes.
Quando a diferença entre recebimentos e pagamentos aumenta, o crédito passa a funcionar como uma ponte. O problema surge quando essa ponte começa a ser usada todos os meses para cobrir despesas correntes.
Paraná ainda cresce, mas perde velocidade
Os indicadores disponíveis não autorizam afirmar que o Paraná esteja vivendo uma recessão. O comércio é um dos exemplos mais claros. Em maio, o varejo ampliado paranaense cresceu 1,1% em relação ao mesmo mês de 2025, enquanto o resultado nacional foi de queda de 0,6%. No acumulado de janeiro a maio, o avanço estadual chegou a 2,4%, quase o dobro dos 1,3% registrados pelo país.
O resultado, porém, não elimina os sinais de desaceleração. Na comparação com abril, as vendas de maio recuaram 0,4% no Paraná. A própria Fecomércio PR observa que o desempenho acumulado em 12 meses continua positivo, mas apresenta perda de ritmo.
Os serviços também mostram uma economia que ainda cresce, embora em ritmo menor. No Brasil, o volume de serviços caiu 0,4% em maio, depois de avançar 1,1% em abril. Na comparação anual, houve crescimento de 0,4%, e o acumulado de janeiro a maio chegou a 1,9%.
A indústria paranaense apresentou alta de 0,8% em abril na comparação com março, acompanhando a recuperação registrada em dez dos 15 locais pesquisados pelo IBGE. O resultado mostra que também não há uma deterioração uniforme entre as atividades econômicas.
Essa diferença entre setores é fundamental para entender a crise. Não existe, hoje, um único segmento que possa ser apontado como o “mais prejudicado” pela economia nacional em todos os indicadores. Serviços concentram a maior quantidade de empresas inadimplentes, enquanto comércio, indústria e outras atividades enfrentam dificuldades diferentes conforme o nível de consumo, custo financeiro, demanda e exposição ao mercado externo.
Juros menores ajudam, mas crédito continua caro
O Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano em 5 de agosto, depois de a taxa permanecer em 15% desde janeiro. Foi o primeiro movimento de redução após um longo período de juros elevados. O Copom, entretanto, descreveu a atividade econômica como moderando gradualmente e manteve uma postura de cautela diante das expectativas de inflação e das incertezas fiscais e externas.
A redução é positiva para as empresas, mas seus efeitos não aparecem imediatamente no custo de todos os empréstimos. A taxa cobrada de uma pequena empresa depende também do risco, das garantias, do prazo e do relacionamento bancário.
Por isso, um empresário que está pensando em ampliar uma loja, comprar máquinas ou abrir uma segunda unidade precisa fazer uma conta diferente daquela feita em períodos de crédito barato. A pergunta central não é apenas se o investimento aumenta o faturamento, mas se o retorno será suficiente para pagar o custo do capital e ainda produzir margem.
Essa distinção separa expansão saudável de crescimento financiado por dívida.
Investir ou esperar? A resposta está no próprio balanço
Para empresas financeiramente equilibradas, esperar indefinidamente pela queda dos juros pode ser tão arriscado quanto investir sem planejamento. Concorrentes capitalizados podem ocupar espaços, comprar equipamentos em condições melhores, contratar profissionais e conquistar clientes enquanto os demais permanecem parados.
O investimento mais defensável neste momento tende a ser aquele que possui retorno mensurável. Automação que reduz despesas, equipamentos que aumentam produtividade, tecnologia que diminui perdas e ações comerciais com capacidade comprovada de elevar vendas podem ter prioridade sobre projetos de expansão baseados apenas em expectativas.
A situação muda completamente quando a empresa está utilizando empréstimos para pagar despesas básicas. Nesse caso, aumentar o endividamento para abrir uma nova unidade ou ampliar estoque pode transformar um problema de liquidez em uma crise de solvência.
O primeiro passo é separar quatro números: faturamento, margem, lucro e caixa. Eles contam histórias diferentes. Faturamento mostra quanto a empresa vendeu; margem revela quanto sobra depois dos custos diretamente relacionados à venda; lucro considera o conjunto da operação; e caixa mostra quanto dinheiro efetivamente está disponível para cumprir os compromissos.
A economia paranaense oferece razões para algum otimismo. O comércio segue crescendo acima da média nacional, a indústria apresenta resultados positivos em determinados períodos e a redução da Selic abre espaço para uma melhora gradual das condições financeiras. Ao mesmo tempo, o recorde de inadimplência empresarial mostra que uma parcela relevante dos negócios ainda está tentando reorganizar dívidas e recuperar o equilíbrio financeiro.
O cenário recomenda menos apostas e mais precisão. Para quem tem caixa, baixo endividamento e demanda consistente, a crise pode produzir oportunidades. Para quem depende de crédito para manter as portas abertas, a prioridade deve ser reorganizar a operação antes de pensar em crescimento.
No fim, talvez a decisão mais importante para uma empresa paranaense em 2026 não seja escolher entre investir ou esperar. É descobrir quanto tempo consegue esperar, quanto pode investir sem comprometer o caixa e qual investimento realmente melhora sua capacidade de competir.
A resposta estará menos nas manchetes sobre juros ou crescimento do PIB e mais nos números de cada negócio. Em uma economia que ainda cresce, mas perdeu velocidade, sobreviver pode ser pouco. Crescer sem comprometer o futuro pode ser o verdadeiro desafio.
Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.



Comentários