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TV brasileira fica repetitiva? Remakes e realities em debate

há 13 horas
8 min de leitura

A aposta em novelas conhecidas e formatos consolidados revela a pressão comercial sobre as emissoras e levanta dúvidas sobre o espaço destinado a novas histórias.


Ilustração sobre a repetição na televisão brasileira, com remakes de novelas, realities e uma tela vazia que simboliza a busca por novas ideias.
Remakes e realities dividem espaço com o desafio de renovar a programação e conquistar um público cada vez mais conectado. Crédito: Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

A televisão brasileira está ficando repetitiva? A presença de remakes, reprises de novelas consagradas e realities com estruturas semelhantes alimenta essa discussão, enquanto as emissoras enfrentam a concorrência do streaming e das redes sociais. O fenômeno não comprova, por si só, uma crise de criatividade, mas expõe uma mudança nas prioridades de produção: projetos com marcas conhecidas e formatos já testados dividem espaço com a necessidade de conquistar públicos que consomem entretenimento de maneiras cada vez mais variadas.


Dois exemplos recentes ajudam a entender o debate. Em 2025, a Globo lançou uma nova versão de Vale Tudo, novela originalmente exibida em 1988. Em outubro de 2026, a emissora voltou a apostar em um clássico ao recolocar Roque Santeiro, de 1985, na programação vespertina. No mercado dos realities, a adaptação brasileira de The Inheritance, anunciada pelo Globoplay em janeiro de 2026, chegou à plataforma em setembro com o título Herança em Jogo.


Os casos mostram que histórias conhecidas e formatos importados continuam tendo espaço na estratégia audiovisual. A questão central é saber se essas escolhas funcionam como ponto de partida para novas experiências ou se acabam reduzindo as oportunidades para produções originais.


Remakes e reprises: o valor comercial da nostalgia


Revisitar uma novela conhecida pode reunir públicos de idades diferentes. Quem acompanhou a obra original encontra personagens ligados à própria memória, enquanto espectadores mais jovens têm a oportunidade de conhecer uma história que circulava antes de seu nascimento ou de seu contato com a televisão.


Essa familiaridade também tem valor comercial. Personagens reconhecidos facilitam a divulgação, despertam comparações e criam assuntos para redes sociais. Ainda assim, uma marca consagrada não garante audiência elevada nem impede críticas ao roteiro, ao elenco ou às mudanças feitas na adaptação.


O remake de Vale Tudo, estreado em 31 de março de 2025, recuperou uma trama que discute ambição, honestidade e desigualdade social. A nova versão, escrita por Manuela Dias, manteve o conflito central entre Raquel e Maria de Fátima, mas transportou personagens e situações para uma realidade contemporânea. A atualização permitiu explorar temas como a busca por visibilidade e a influência das redes sociais na construção da imagem pública.


O desafio de uma adaptação está em encontrar equilíbrio entre respeito à obra original e liberdade criativa. Reproduzir fielmente uma história pode agradar a quem deseja reencontrar a narrativa conhecida, mas também corre o risco de parecer desnecessário. Alterar demais os personagens, por sua vez, pode afastar quem esperava reconhecer os elementos que tornaram a produção marcante.


A reprise de Roque Santeiro oferece outra perspectiva. Exibida originalmente em 1985, a novela de Dias Gomes e Aguinaldo Silva voltou à programação da Globo em 5 de outubro de 2026. Sua história, ambientada na fictícia Asa Branca, mistura religiosidade popular, interesses políticos, negócios e construção de mitos coletivos.


Os primeiros números de audiência precisam ser interpretados com cautela. O UOL Splash informou que a estreia registrou 16 pontos no Rio de Janeiro e 11 em São Paulo, com crescimento em relação às médias recentes da faixa nessas praças. Já o NaTelinha publicou uma avaliação diferente sobre o desempenho em São Paulo, indicando que a estreia ficou abaixo de outras novelas anteriormente exibidas no mesmo horário. As diferenças de comparação reforçam a necessidade de identificar a praça, o período e o critério usado antes de concluir se uma reprise foi bem-sucedida.


O retorno de clássicos, portanto, não deve ser confundido automaticamente com falta de ideias. O acervo pode oferecer entretenimento, preservar a memória audiovisual e conquistar novos espectadores. O problema surge quando a recuperação de obras conhecidas ocupa o espaço que poderia ser destinado a histórias inéditas sem que haja uma política consistente de renovação.


Por que os realities se multiplicaram?


Os realities oferecem uma vantagem que ajuda a explicar sua presença recorrente na programação: combinam competição, personagens reais, acontecimentos imprevisíveis e oportunidades de interação com o público. Uma prova, uma discussão ou uma eliminação pode gerar repercussão durante a exibição e continuar rendendo conteúdo nas redes sociais nos dias seguintes.


O modelo também permite diversificar as receitas. Além da publicidade convencional, os programas podem receber patrocínios, promover produtos e desenvolver ações comerciais integradas à narrativa. Essa combinação torna o gênero atraente para emissoras e plataformas que procuram ampliar as formas de monetização do conteúdo.


A adaptação de The Inheritance é um exemplo da circulação internacional desses formatos. Produzido originalmente no Reino Unido pela Studio Lambert, o reality ganhou uma versão brasileira no Globoplay, chamada Herança em Jogo, com Rodrigo Faro e Susana Vieira. A competição envolve estratégia, alianças e decisões que colocam os participantes diante de dilemas psicológicos.


A importação de formatos não é necessariamente um sinal de empobrecimento criativo. Adaptar uma atração a outro país exige escolhas de linguagem, elenco, ritmo e produção. A questão está em saber se o resultado acrescenta características próprias ou apenas reproduz uma fórmula sem explorar as particularidades do público brasileiro.


A sensação de repetição aparece quando programas diferentes recorrem continuamente aos mesmos mecanismos: confinamento, alianças, votações, conflitos pessoais e disputas por permanência. Mesmo com cenários e participantes distintos, a estrutura pode se tornar previsível para quem acompanha várias temporadas e atrações semelhantes.


Há também um aspecto comportamental. Os realities estimulam o espectador a escolher favoritos, julgar atitudes e participar de discussões coletivas. Essa dinâmica pode criar comunidades em torno de um programa, mas também favorece julgamentos precipitados quando cenas isoladas circulam fora de contexto. A exposição constante transforma participantes em personagens públicos e pode aumentar a pressão sobre suas vidas pessoais.


A crise está na criatividade ou no modelo de negócio?


Produzir uma novela, uma série ou um programa de grande porte envolve despesas com profissionais, equipamentos, cenários, figurinos, gravações, edição e divulgação. Uma obra inédita precisa conquistar reconhecimento sem contar, necessariamente, com personagens já conhecidos ou com uma audiência previamente estabelecida. Diante desse risco, é compreensível que empresas procurem projetos cuja aceitação pareça mais previsível.


Essa lógica empresarial, porém, tem limites. Quando o planejamento privilegia apenas propriedades conhecidas e fórmulas testadas, propostas novas podem encontrar dificuldades para obter orçamento, espaço na grade e tempo suficiente para formar público. O resultado pode ser uma programação eficiente na exploração de marcas existentes, mas menos aberta à descoberta de novos talentos e linguagens.


Não há dados suficientes para afirmar que a televisão brasileira atravessa uma crise geral de criatividade apenas pela quantidade de remakes ou realities. Essa conclusão exigiria analisar o conjunto da produção, a diversidade de formatos, os investimentos em obras inéditas e a recepção dos espectadores. O que se pode observar é uma tensão entre o desejo de inovar e a necessidade de controlar custos e riscos comerciais.


A audiência também precisa ser tratada com cuidado. Os índices medem o alcance de programas em mercados e períodos determinados, mas não funcionam como uma avaliação direta da originalidade de um roteiro. Uma atração pode obter números expressivos e ainda receber críticas por repetir fórmulas; outra pode experimentar uma linguagem diferente e alcançar um público menor, sem que isso determine seu valor artístico.


A discussão, portanto, não deve colocar o sucesso comercial e a qualidade criativa como objetivos necessariamente incompatíveis. Uma produção pode ser popular e original ao mesmo tempo. O desafio é construir condições para que o desempenho imediato não seja o único critério usado na escolha dos projetos.


Streaming muda a disputa pela atenção


A concorrência da televisão aberta já não se limita a outras emissoras. Plataformas de vídeo sob demanda, redes sociais, podcasts e criadores independentes disputam o mesmo tempo livre do público, oferecendo conteúdos que podem ser consumidos em horários e dispositivos diferentes.


Dados do IBGE ajudam a dimensionar essa mudança. Em 2024, 43,4% dos domicílios brasileiros com televisão tinham acesso a algum serviço pago de streaming de vídeo, o equivalente a aproximadamente 32,7 milhões de residências. Em 2025, esse percentual subiu para 44,4%, alcançando 33,4 milhões de domicílios. Os números indicam expansão do streaming, mas não significam que a televisão aberta tenha deixado de ser relevante: muitos lares utilizam os dois modelos.


A diferença está também no modo de descoberta. Na programação linear, a emissora organiza os horários e o espectador escolhe entre as atrações disponíveis naquele momento. No streaming, o usuário seleciona o conteúdo, enquanto os sistemas de recomendação sugerem produções de acordo com o histórico e os interesses identificados.


Essa personalização facilita o acesso, mas pode limitar o contato com experiências diferentes quando as recomendações se concentram em gêneros já conhecidos. Quem assiste a competições pode receber mais realities; quem prefere romances pode encontrar uma sequência de histórias semelhantes. O efeito não é inevitável, mas ajuda a explicar por que a abundância de opções nem sempre produz a sensação de diversidade.


A televisão também aprendeu a distribuir suas atrações em vários ambientes. Uma novela rende cenas curtas, entrevistas e debates; um reality produz bastidores, comentários e vídeos compartilháveis. O programa passa a existir para além do horário de transmissão, criando novas oportunidades de publicidade e ampliando sua presença digital.


Essa estratégia, contudo, traz um risco: a busca por repercussão constante pode privilegiar conflitos fáceis de transformar em assunto nas redes, em detrimento de narrativas que precisam de tempo para desenvolver personagens e ideias. A disputa pela atenção exige criatividade justamente para não transformar todo conteúdo em uma sequência de momentos calculados para viralizar.


O que o público espera das próximas produções?


Não existe um único espectador brasileiro. Parte do público gosta de rever novelas por causa da memória afetiva, enquanto outras pessoas preferem acompanhar competições ou descobrir séries nas plataformas digitais. Há também quem combine esses hábitos, assistindo ao noticiário na televisão, acompanhando uma novela e recorrendo ao celular para consumir vídeos curtos.


Essa diversidade deveria ser vista como uma oportunidade para a indústria audiovisual. Histórias regionais, documentários, comédias, séries de investigação, programas sobre ciência e produções que retratem diferentes realidades brasileiras podem ampliar o repertório sem exigir que as emissoras abandonem os formatos populares.


A renovação também depende de dar espaço a novos autores, diretores e atores, além de permitir que projetos diferentes encontrem seu público. Uma história inédita nem sempre conquista audiência imediatamente, assim como uma produção baseada em uma marca conhecida não tem sucesso garantido. A disposição para experimentar precisa fazer parte do planejamento, e não ficar restrita a iniciativas ocasionais.


Para o espectador, a repetição se torna um problema quando a familiaridade deixa de oferecer conforto e passa a produzir indiferença. A televisão ainda tem condições de reunir pessoas em torno de uma história, provocar discussões e registrar mudanças de comportamento. Para preservar esse papel, precisa ir além da reprodução de fórmulas e continuar observando um país que muda, cria novos hábitos e apresenta conflitos que ainda não chegaram às telas.


Entre a nostalgia e a próxima grande história


Remakes, reprises e realities fazem parte de um mercado que procura equilibrar entretenimento, audiência e retorno financeiro. Esses formatos podem produzir bons resultados, recuperar obras relevantes e aproximar diferentes gerações, mas não substituem a necessidade de desenvolver narrativas originais e explorar novas linguagens.


A questão não é escolher entre o passado e o futuro, mas definir quanto espaço cada um terá na programação. Uma televisão que valoriza seu acervo e, ao mesmo tempo, investe em novas histórias pode transformar a memória em inspiração, em vez de tratá-la como garantia de sucesso.


A resposta sobre uma possível crise criativa não estará apenas nos índices de audiência. Ela também aparecerá na variedade das produções, nas oportunidades oferecidas a novos profissionais e na capacidade de surpreender um público que dispõe de mais alternativas do que nunca. Quando o telespectador já reconhece as fórmulas antes mesmo de o programa começar, estará na hora de mudar a receita?


Nota de checagem: os números de audiência citados correspondem a mercados específicos e foram publicados por veículos de imprensa. As interpretações sobre criatividade, estratégia comercial e comportamento do público são análises editoriais, não resultados de uma pesquisa direta sobre a qualidade das produções.


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Edição: Marcos Paulo Assis

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

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