Pesquisa revela efeitos da natureza na saúde das crianças
Estudos com crianças mostram que o contato com solo, plantas e ambientes biodiversos pode alterar a microbiota e marcadores ligados à regulação imunológica.

Uma brincadeira aparentemente banal — cavar a terra, mexer em folhas, plantar uma muda ou construir alguma coisa com barro — ganhou uma dimensão inesperada na ciência.
Estudos realizados na Finlândia indicam que a exposição de crianças pequenas a ambientes naturais ricos em microrganismos pode modificar a microbiota da pele e do intestino e produzir alterações em marcadores associados à regulação do sistema imunológico.
Os resultados não significam que brincar na terra seja um tratamento ou que crianças que tenham contato com solo estejam protegidas contra alergias, asma ou outras doenças. A evidência disponível é mais específica: pesquisadores conseguiram observar mudanças biológicas depois que áreas de recreação infantil foram enriquecidas com vegetação, solo e materiais naturais.
A pesquisa que mais chamou atenção foi publicada em 2020 na revista científica Science Advances. O trabalho acompanhou 75 crianças de 3 a 5 anos em dez creches das cidades finlandesas de Lahti e Tampere. Os pesquisadores compararam três tipos de ambientes: pátios urbanos convencionais, espaços modificados com elementos de biodiversidade e creches orientadas para a natureza, nas quais as crianças tinham contato frequente com florestas.
Nos pátios modificados, parte das áreas de cascalho recebeu solo de floresta, gramado, plantas e outros elementos naturais. As crianças permaneciam ao ar livre cerca de uma hora e meia por dia, de segunda a sexta-feira. Depois de 28 dias, os pesquisadores encontraram diferenças na microbiota da pele e alterações em indicadores relacionados à resposta imunológica.
O resultado mais interessante talvez esteja justamente naquilo que os olhos não conseguem perceber: enquanto a criança brinca, uma enorme comunidade de microrganismos presentes no solo e nas plantas entra em contato com seu organismo.
O que a terra tem a ver com o sistema imunológico
O corpo humano não vive separado dos microrganismos. Pele, boca e intestino abrigam comunidades microbianas que participam de processos fisiológicos e mantêm relações complexas com o sistema imunológico. A composição dessas comunidades é influenciada por alimentação, medicamentos, ambiente, estilo de vida e outros fatores.
A chamada hipótese da biodiversidade parte da ideia de que a urbanização e a redução do contato com ambientes naturais podem diminuir a variedade de microrganismos ambientais aos quais as pessoas são expostas. Os pesquisadores finlandeses investigaram se aumentar essa diversidade no ambiente cotidiano das crianças poderia produzir mudanças mensuráveis em sua microbiota e em mecanismos de regulação imunológica.
No experimento, a transformação do pátio não consistiu simplesmente em colocar um pouco de terra para as crianças brincarem. Os pesquisadores utilizaram elementos de ambientes naturais, incluindo solo de floresta, vegetação, gramado, plantas cultivadas e blocos de turfa que podiam ser utilizados para atividades de exploração. A proposta era aumentar a biodiversidade do espaço de convivência.
Depois da intervenção, houve aumento da diversidade de determinados grupos bacterianos na pele. Também foram identificadas alterações em marcadores imunológicos, incluindo mudanças relacionadas a citocinas e células T reguladoras. Esses resultados foram interpretados pelos autores como sinais de imunorregulação, e não como prova de prevenção de doenças.
Essa diferença é fundamental. Um marcador imunológico pode mudar sem que isso necessariamente signifique que uma criança ficará menos doente no futuro. Para demonstrar redução de alergias, asma ou doenças autoimunes seria necessário acompanhar grupos maiores por períodos mais longos e observar diretamente a ocorrência dessas enfermidades.
Um segundo experimento reforçou a hipótese
A investigação finlandesa não terminou com o estudo das creches. Em 2022, pesquisadores publicaram outro experimento, desta vez com 26 crianças de 3 a 5 anos. O desenho foi mais controlado: algumas crianças brincaram em caixas de areia contendo solo enriquecido com uma comunidade diversificada de microrganismos, enquanto o grupo de comparação utilizou material visualmente semelhante, mas microbiologicamente menos diverso.
O contato ocorreu durante duas semanas, seguido de um período de acompanhamento. Os pesquisadores observaram mudanças na microbiota da pele e alterações em marcadores associados à imunorregulação, incluindo aumento da interleucina-10 e da relação entre interleucina-10 e interleucina-17A no grupo que recebeu o material enriquecido. Também foram observadas associações entre determinadas bactérias da pele e células T reguladoras.
O estudo foi particularmente relevante porque utilizou um desenho duplo-cego e controlado por placebo, algo que fortalece a avaliação experimental. Ainda assim, o número de participantes foi pequeno. Por isso, os resultados devem ser considerados evidência de uma possível relação entre diversidade microbiana ambiental e imunorregulação, e não uma conclusão definitiva sobre a saúde de todas as crianças.
Uma investigação posterior acompanhou a intervenção nas creches por dois anos. Os pesquisadores encontraram mudanças persistentes na microbiota ambiental e na microbiota associada às crianças, incluindo pele e saliva, além de alterações em algumas comunidades bacterianas do intestino. O trabalho reforçou a hipótese de que mudanças no ambiente podem influenciar comunidades microbianas humanas, mas os próprios autores apontam a necessidade de estudos que investiguem diretamente a ocorrência de doenças imunomediadas.
Natureza também muda a maneira de brincar
Há outro aspecto da experiência que não aparece em um exame de sangue. Um pátio coberto por vegetação oferece à criança possibilidades diferentes de um espaço dominado por concreto, piso emborrachado ou equipamentos fixos.
Terra pode virar uma cozinha imaginária. Folhas podem se transformar em ingredientes. Galhos servem para construir pequenas estruturas. Uma pedra pode virar objeto de uma coleção. A criança pode cavar, transportar, plantar, observar insetos ou simplesmente experimentar diferentes texturas.
Essa dimensão ganhou espaço em um artigo publicado em setembro de 2026 na revista Cities & Health. Os pesquisadores Alexia Barrable e Jake M. Robinson propõem o conceito de “dirty play”, expressão que pode ser traduzida como “brincadeira com sujeira”, para descrever atividades infantis envolvendo solo, lama e materiais naturais.
O trabalho, porém, é uma análise conceitual, não um novo experimento clínico. Os autores reúnem pesquisas de microbiologia, psicologia ambiental e educação infantil para argumentar que o contato com ambientes biodiversos pode oferecer benefícios que vão além da microbiota, incluindo experiências sensoriais, desenvolvimento motor, criatividade, conexão com a natureza e bem-estar.
A discussão também envolve desigualdade. Crianças que vivem em áreas urbanas com poucos parques, jardins e espaços naturais têm menos oportunidades de contato cotidiano com biodiversidade. O artigo chama atenção para essa diferença de acesso e defende que áreas verdes e espaços de brincar com elementos naturais sejam considerados também sob a perspectiva de saúde e desenvolvimento infantil.
Mais natureza, mas com segurança
A descoberta não deve ser interpretada como uma defesa da ausência de higiene. Existe uma diferença entre contato com um solo natural, selecionado e adequado para recreação e exposição a áreas contaminadas.
Solos urbanos podem conter metais pesados, hidrocarbonetos e outros contaminantes. Fezes de animais também podem transmitir organismos capazes de provocar doenças. Por isso, os pesquisadores que defendem maior contato com a natureza também enfatizam a necessidade de escolher corretamente os locais, avaliar o solo quando necessário e manter medidas básicas de higiene, como lavar as mãos antes das refeições.
A ideia é substituir uma lógica de esterilização excessiva por uma abordagem de higiene direcionada: controlar riscos reais sem eliminar toda exposição ambiental. Para uma escola ou creche, isso pode significar criar jardins, hortas, canteiros e áreas de exploração natural utilizando materiais apropriados, em vez de simplesmente permitir que crianças brinquem em qualquer terreno.
Para cidades brasileiras, a discussão abre uma frente interessante de planejamento urbano. Curitiba, por exemplo, possui uma extensa rede de parques e áreas verdes, mas o acesso cotidiano à natureza também depende de onde a criança mora, estuda e brinca. Transformar pequenos espaços escolares, praças e áreas comunitárias em ambientes com maior diversidade vegetal poderia aproximar a natureza da rotina infantil.
A ciência ainda não autoriza uma conclusão simples como “brincar na terra deixa a criança mais saudável”. O que os estudos permitem dizer é mais específico e, talvez, mais interessante: a qualidade biológica do ambiente em que uma criança vive e brinca pode influenciar seu microbioma e alguns mecanismos relacionados à regulação do sistema imunológico.
A partir daí, surge uma pergunta que ultrapassa os laboratórios finlandeses. Em cidades cada vez mais pavimentadas, quanto espaço estamos reservando para que as crianças tenham contato seguro com plantas, solo, água, insetos e outras formas de vida? Talvez o futuro dos espaços infantis não esteja apenas em torná-los mais seguros, mas também em torná-los biologicamente mais interessantes.
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Fontes
Roslund et al. — Science Advances, 2020: estudo com 75 crianças em creches finlandesas.
Roslund et al. — Environment International, 2021: acompanhamento de dois anos sobre microbiota e intervenção de biodiversidade.
Roslund et al. — Ecotoxicology and Environmental Safety, 2022: experimento controlado com 26 crianças.
Barrable & Robinson — Cities & Health, 2026: análise sobre “dirty play”, biodiversidade e infância urbana.
University of Helsinki — informações sobre pesquisas finlandesas de biodiversidade e saúde infantil.
Edição: Marcos Paulo Assis
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.


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