Medicamentos mais vendidos no Brasil e os riscos da automedicação
Analgésicos, anti-hipertensivos e medicamentos para diabetes lideram as vendas nas farmácias brasileiras. O consumo crescente levanta um debate sobre os riscos da automedicação, a influência do marketing da indústria farmacêutica e a chamada "empurroterapia" praticada em parte do varejo.

O brasileiro tem uma relação peculiar com as farmácias. Elas estão presentes em praticamente todos os bairros, funcionam por longos períodos — muitas delas durante 24 horas — e se transformaram em estabelecimentos que oferecem muito mais do que medicamentos. Quem entra para comprar um simples analgésico frequentemente sai levando vitaminas, suplementos, descongestionantes, protetores gástricos e outros produtos sugeridos durante o atendimento no balcão.
Essa mudança de comportamento acompanha a expansão do mercado farmacêutico nacional. O Brasil figura entre os maiores consumidores de medicamentos do mundo, impulsionado pelo envelhecimento da população, pelo aumento das doenças crônicas, pela maior oferta de medicamentos genéricos e pela rápida expansão das grandes redes de farmácias. Ao mesmo tempo em que esse cenário amplia o acesso aos tratamentos, também desperta preocupações entre médicos, farmacêuticos e órgãos reguladores quanto ao uso indiscriminado de remédios.
Em muitos lares, a chamada "farmacinha doméstica" tornou-se um hábito. Sobras de antibióticos, anti-inflamatórios, analgésicos e medicamentos prescritos meses ou até anos antes permanecem guardados para um eventual reaproveitamento. Quando surgem sintomas semelhantes aos de episódios anteriores, muitas pessoas decidem iniciar um tratamento por conta própria, sem consultar um profissional de saúde. A prática parece inofensiva, mas pode atrasar diagnósticos importantes, provocar reações adversas e até agravar doenças.
Dados da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), vinculada à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mostram que bilhões de embalagens de medicamentos são comercializadas anualmente no país. A maior parte corresponde a remédios destinados ao controle de doenças cardiovasculares, diabetes, distúrbios hormonais e tratamento da dor, refletindo o perfil de saúde da população brasileira.
Os campeões de vendas nas farmácias brasileiras
Ao contrário do que muitos imaginam, os medicamentos mais vendidos nem sempre são aqueles divulgados em campanhas publicitárias. Grande parte do volume comercializado corresponde a tratamentos de uso contínuo para doenças crônicas, que precisam ser adquiridos mensalmente por milhões de pacientes.
Entre os princípios ativos que lideram as vendas no Brasil estão medicamentos utilizados diariamente por pessoas com hipertensão, diabetes, colesterol elevado e problemas na tireoide. Também aparecem na lista remédios destinados ao alívio da dor e da febre, responsáveis por um enorme volume de vendas ao longo do ano.
Os dez medicamentos mais vendidos no Brasil
1. Cloreto de sódio – disponível sem receita em diversas apresentações. É utilizado principalmente para lavagem nasal, hidratação e soluções empregadas em hospitais.
2. Dipirona – parte das apresentações pode ser adquirida sem prescrição médica. É indicada para redução da febre e alívio de dores de diferentes intensidades.
3. Losartana potássica – medicamento de venda sob prescrição destinado ao tratamento da hipertensão arterial, uma das doenças crônicas mais comuns entre os brasileiros.
4. Metformina – utilizada no controle do diabetes tipo 2. O medicamento ajuda a reduzir os níveis de glicose no sangue e costuma fazer parte do tratamento por muitos anos.
5. Nimesulida – anti-inflamatório indicado para dores e processos inflamatórios. Apesar da popularidade, exige cuidados devido ao risco de efeitos adversos, especialmente no fígado.
6. Ibuprofeno – comercializado em apresentações que dispensam receita médica. É empregado no tratamento de dores, febre e inflamações, mas seu uso excessivo pode provocar complicações gastrointestinais e renais.
7. Levotiroxina sódica – medicamento indicado para pacientes com hipotireoidismo. O tratamento normalmente é contínuo e requer acompanhamento médico periódico.
8. Hidroclorotiazida – diurético utilizado principalmente no controle da pressão alta e de casos de retenção de líquidos.
9. Cloridrato de nafazolina – descongestionante nasal bastante conhecido pelos consumidores. Embora seja vendido sem receita, o uso prolongado pode provocar efeito rebote, aumentando a congestão nasal.
10. Sinvastatina – indicada para reduzir os níveis de colesterol e prevenir complicações cardiovasculares em pacientes com fatores de risco.
O ranking evidencia uma característica importante do mercado farmacêutico brasileiro. Enquanto medicamentos destinados às doenças crônicas lideram as vendas em volume, remédios para dor, febre e inflamações permanecem entre os mais procurados pela facilidade de acesso e pela cultura da automedicação. É justamente nesse grupo que especialistas identificam um dos maiores desafios para a saúde pública.
A facilidade para comprar determinados medicamentos faz muitas pessoas acreditarem que eles são totalmente inofensivos. Entretanto, até mesmo um simples analgésico pode provocar alergias graves, mascarar sintomas de doenças mais sérias ou interagir com outros remédios utilizados pelo paciente. O risco aumenta entre idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas e indivíduos que utilizam vários medicamentos ao mesmo tempo.
Automedicação cresce e preocupa especialistas
A automedicação faz parte da rotina de milhões de brasileiros e costuma começar com situações aparentemente banais. Uma dor de cabeça após um dia estressante, um resfriado, dores musculares depois da academia ou uma azia após uma refeição pesada são exemplos de sintomas que levam muitas pessoas diretamente à farmácia, sem passar por uma consulta médica. O problema é que um sintoma comum pode esconder doenças completamente diferentes, exigindo tratamentos específicos.
A facilidade de acesso aos medicamentos também contribui para esse comportamento. Com farmácias espalhadas por praticamente todas as cidades e horários de funcionamento cada vez mais amplos, comprar um remédio tornou-se tão simples quanto adquirir um alimento ou um produto de higiene. Em muitos casos, o consumidor escolhe o medicamento pela experiência anterior, pela indicação de familiares ou pela recomendação encontrada nas redes sociais, deixando de lado a avaliação de um profissional de saúde.
Outro hábito bastante comum é guardar sobras de medicamentos em casa. Antibióticos, anti-inflamatórios e analgésicos permanecem nas gavetas por meses e acabam sendo reutilizados sempre que surgem sintomas semelhantes. Essa prática favorece o uso inadequado de doses, aumenta o risco de reações adversas e, no caso dos antibióticos, contribui para o avanço da resistência bacteriana, considerada hoje um dos maiores desafios da medicina.
Os medicamentos isentos de prescrição, conhecidos pela sigla MIPs, desempenham um papel importante no tratamento de problemas leves quando utilizados corretamente. Eles permitem que o paciente alivie sintomas simples sem sobrecarregar os serviços de saúde. Isso, porém, não significa que sejam isentos de riscos. A utilização por períodos prolongados ou em doses superiores às recomendadas pode provocar intoxicações, hemorragias, lesões nos rins, danos ao fígado e alterações na pressão arterial.
Os anti-inflamatórios ilustram bem esse cenário. Embora sejam amplamente utilizados para aliviar dores e inflamações, o uso frequente pode aumentar o risco de sangramentos digestivos, piorar a função renal e elevar a pressão arterial. Analgésicos aparentemente inofensivos também podem causar complicações quando consumidos de forma repetitiva, especialmente por pessoas idosas ou portadoras de doenças crônicas.
Quando a recomendação vira estratégia de vendas
Poucas situações são tão comuns quanto entrar em uma farmácia para comprar apenas um medicamento e ouvir uma sequência de sugestões adicionais. O consumidor pede um antigripal e recebe a oferta de vitaminas, sprays nasais, pastilhas, probióticos, xaropes, suplementos alimentares e até cosméticos. Em muitos casos, sai do estabelecimento com uma sacola muito maior do que imaginava.
Essa prática ficou conhecida popularmente como "empurroterapia". O termo não possui definição jurídica, mas é usado para descrever situações em que produtos são oferecidos de maneira insistente, muitas vezes sem uma necessidade clínica claramente demonstrada. O fenômeno ganhou força com a profissionalização do varejo farmacêutico e com o aumento da concorrência entre as grandes redes.
É importante diferenciar a atuação técnica do farmacêutico da venda motivada exclusivamente por interesses comerciais. A legislação brasileira atribui ao farmacêutico um papel essencial na orientação sobre o uso correto dos medicamentos, na prevenção de interações medicamentosas e na promoção da saúde. Quando essa orientação é baseada em critérios científicos, ela representa um benefício para o consumidor.
O problema surge quando fatores comerciais passam a influenciar a recomendação feita no balcão. Programas de metas, campanhas promocionais, bonificações por desempenho e incentivos oferecidos pela indústria para determinados produtos podem estimular a oferta de medicamentos, suplementos e itens de maior valor agregado. Nem todas as empresas adotam esse modelo, mas entidades de defesa do consumidor e conselhos profissionais reconhecem que a prática ainda ocorre em parte do mercado.
Especialistas em administração do varejo explicam que a margem de lucro obtida com alguns suplementos alimentares, vitaminas e medicamentos de marca costuma ser superior à dos medicamentos genéricos. Isso ajuda a entender por que determinados produtos recebem maior destaque nas prateleiras e nas campanhas promocionais das farmácias.
A influência da indústria farmacêutica
A indústria farmacêutica investe bilhões de reais todos os anos em pesquisa, desenvolvimento, inovação e divulgação de seus produtos. Esse investimento é fundamental para o surgimento de novos tratamentos, mas também faz do setor um dos mais competitivos da economia mundial.
No Brasil, a publicidade de medicamentos sujeitos à prescrição médica é restrita ao público profissional, conforme as normas da Anvisa. Mesmo assim, laboratórios desenvolvem estratégias de relacionamento com médicos, farmacêuticos e redes varejistas, além de campanhas voltadas aos medicamentos isentos de prescrição, cuja divulgação ao consumidor é permitida dentro de regras específicas.
Outra estratégia bastante utilizada é a negociação de espaços privilegiados nas gôndolas, campanhas de descontos e programas de fidelidade. O consumidor muitas vezes acredita estar escolhendo espontaneamente um produto, sem perceber que sua decisão também pode ser influenciada pela forma como os medicamentos são expostos ou apresentados no ambiente de venda.
Para quem compra, a melhor defesa continua sendo a informação. Questionar se realmente há necessidade de um produto adicional, pedir esclarecimentos sobre os benefícios e verificar a existência de versões genéricas equivalentes são atitudes que ajudam a evitar gastos desnecessários e reduzem o risco do uso inadequado de medicamentos.
Um mercado bilionário que continua em expansão
O setor farmacêutico brasileiro vive um dos ciclos de crescimento mais consistentes da economia. Todos os anos, bilhões de embalagens de medicamentos chegam às mãos dos consumidores, movimentando um mercado que reúne laboratórios nacionais e multinacionais, distribuidoras, redes de farmácias e milhares de estabelecimentos independentes. A expansão ocorre mesmo em períodos de desaceleração econômica, já que os medicamentos são considerados bens essenciais.
O envelhecimento da população ajuda a explicar esse cenário. O aumento da expectativa de vida fez crescer o número de pessoas que convivem com hipertensão, diabetes, colesterol elevado, doenças cardiovasculares e problemas hormonais. Para esses pacientes, a compra de medicamentos deixou de ser eventual e passou a fazer parte do orçamento mensal da família.
Além das doenças crônicas, mudanças no estilo de vida também influenciam o consumo. O aumento da obesidade, do sedentarismo, da ansiedade e dos transtornos do sono elevou a procura por medicamentos específicos, enquanto a pandemia de Covid-19 reforçou o hábito de manter estoques domésticos de analgésicos, antitérmicos e vitaminas. Embora esse comportamento tenha diminuído nos últimos anos, muitos consumidores continuaram comprando remédios preventivamente, mesmo sem necessidade imediata.
Outro fenômeno recente é a explosão da procura pelos medicamentos utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 que também apresentam efeito na perda de peso. Produtos à base de agonistas do receptor de GLP-1 ganharam enorme visibilidade e passaram a figurar entre os campeões de faturamento das farmácias brasileiras. O sucesso comercial provocou períodos de desabastecimento, aumento da demanda e discussões sobre o uso indiscriminado por pessoas que buscavam apenas objetivos estéticos.
O avanço das grandes redes de farmácias
Quem circula pelas principais cidades brasileiras percebe facilmente a transformação do setor. Redes nacionais abriram centenas de novas lojas nos últimos anos e passaram a disputar espaços privilegiados em bairros residenciais, centros comerciais e até pequenas cidades do interior. Em algumas regiões, há duas ou três farmácias funcionando na mesma quadra, disputando o mesmo público.
O modelo de negócio também mudou. As farmácias deixaram de vender apenas medicamentos e passaram a oferecer serviços de saúde, vacinação, testes rápidos, aplicação de medicamentos, aferição de pressão arterial, exames laboratoriais simplificados e acompanhamento farmacêutico. Ao mesmo tempo, ampliaram o espaço dedicado a cosméticos, produtos de higiene, suplementos alimentares, alimentos funcionais e itens de conveniência.
A digitalização acelerou ainda mais essa transformação. Aplicativos permitem comparar preços em poucos segundos, consultar estoques, receber receitas eletrônicas e solicitar entregas em domicílio. Programas de fidelidade oferecem descontos personalizados e estimulam o retorno do consumidor, enquanto algoritmos analisam hábitos de compra para direcionar promoções específicas.
Embora essas ferramentas tragam praticidade, especialistas em defesa do consumidor alertam que elas também podem incentivar compras por impulso. Descontos exclusivos, ofertas limitadas e programas de pontos frequentemente levam o cliente a adquirir produtos que não estavam em sua lista inicial.
Como comprar medicamentos com mais segurança
O crescimento do mercado torna ainda mais importante o consumo consciente. Médicos e farmacêuticos recomendam que o primeiro passo seja utilizar medicamentos apenas quando houver indicação adequada, respeitando a dose, o horário e o período de tratamento estabelecidos. Mesmo os medicamentos vendidos sem receita devem ser usados com cautela, principalmente por idosos, gestantes, crianças e pessoas com doenças crônicas.
Outra orientação é evitar o reaproveitamento de receitas antigas. Uma dor nas costas hoje pode ter origem completamente diferente daquela registrada meses antes, e repetir um tratamento sem avaliação médica pode retardar o diagnóstico de doenças mais graves. O mesmo cuidado vale para medicamentos indicados por parentes, amigos ou influenciadores digitais, já que cada organismo responde de maneira diferente.
O consumidor também pode economizar sem abrir mão da qualidade. Sempre que houver prescrição pelo princípio ativo, vale perguntar ao farmacêutico sobre a disponibilidade de medicamentos genéricos, que passam pelos mesmos critérios de qualidade, segurança e eficácia exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Comparar preços entre diferentes estabelecimentos e desconfiar de promoções que incentivem a compra de grandes quantidades de medicamentos também são atitudes recomendadas.
Outro ponto frequentemente esquecido é o descarte correto. Medicamentos vencidos ou que sobraram de tratamentos não devem ser jogados no lixo comum nem no vaso sanitário, pois podem contaminar o meio ambiente. Diversas farmácias mantêm pontos de coleta para encaminhamento adequado desses produtos, contribuindo para a proteção ambiental e para a segurança da população.
Saúde não combina com improviso
A facilidade para encontrar medicamentos nunca foi tão grande, mas isso não significa que todo problema de saúde possa ser resolvido no balcão de uma farmácia. O acesso rápido aos remédios representa um avanço importante, desde que venha acompanhado de informação, orientação técnica e uso responsável.
O mercado farmacêutico continuará crescendo nos próximos anos, impulsionado pelo envelhecimento da população e pela inovação da indústria. O desafio será equilibrar os interesses comerciais com a promoção da saúde, garantindo que o consumidor tenha acesso aos tratamentos de que realmente necessita, sem ser induzido ao consumo desnecessário.
Para o cidadão, a melhor receita continua sendo a mais simples: procurar orientação profissional sempre que os sintomas persistirem, utilizar medicamentos de forma consciente e lembrar que nenhum comprimido substitui hábitos saudáveis, prevenção e acompanhamento médico regular.
Fontes
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED): Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico.
Conselho Federal de Farmácia (CFF).
Ministério da Saúde.
Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos (ISMP Brasil).
Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma).
Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

Comentários