Por que Curitiba tem tantas farmácias? Entenda o crescimento do setor
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As drogarias se multiplicaram nos bairros da capital paranaense e hoje vão muito além da venda de medicamentos. Entenda o que impulsiona esse mercado bilionário.

Quem anda por Curitiba dificilmente percorre algumas quadras sem encontrar uma farmácia. Em avenidas de grande movimento, como República Argentina, Sete de Setembro, Visconde de Guarapuava, João Gualberto ou Anita Garibaldi, não é raro ver duas ou até três grandes redes funcionando a poucos metros de distância. A cena desperta uma pergunta recorrente entre moradores: afinal, existe demanda para tantas farmácias?
A resposta passa por mudanças profundas no perfil da população, na forma como os brasileiros consomem produtos de saúde e no próprio modelo de negócios do setor farmacêutico. A farmácia de hoje deixou de ser apenas um estabelecimento destinado à venda de medicamentos. Ela se transformou em um centro de serviços, prevenção, conveniência e bem-estar, tornando-se um dos segmentos mais rentáveis do comércio varejista brasileiro.
Segundo dados do Conselho Regional de Farmácia do Paraná (CRF-PR), Curitiba possui cerca de 1.400 estabelecimentos farmacêuticos privados registrados, entre farmácias e drogarias. A cidade também reúne mais de 4,2 mil farmacêuticos atuando nesses estabelecimentos, número que cresce ano após ano diante da expansão do mercado. Essa concentração coloca a capital entre os principais polos farmacêuticos do Sul do Brasil.
O envelhecimento da população impulsiona o setor
Embora a impressão seja de que novas farmácias surgem todos os meses, a expansão não acontece por acaso. Curitiba vive um processo gradual de envelhecimento da população, acompanhado pelo aumento das doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e problemas cardiovasculares.
Essas condições exigem tratamento contínuo e fazem com que milhares de pessoas retornem mensalmente às farmácias para adquirir medicamentos. Ao mesmo tempo, cresce o interesse por vitaminas, suplementos alimentares, produtos naturais e itens voltados à prevenção, ampliando o público consumidor.
A rotina de muitos curitibanos também favorece esse modelo de negócio. Quem sai cedo para trabalhar costuma aproveitar a farmácia do bairro para comprar um medicamento, um protetor solar, produtos de higiene, cosméticos ou até alimentos específicos para dietas restritivas. A praticidade passou a ser um dos principais diferenciais das redes.
Outro fator relevante é a localização estratégica. Grandes grupos disputam pontos comerciais em esquinas de intenso fluxo de veículos e pedestres porque sabem que a conveniência influencia diretamente a decisão de compra. Quanto menor a distância até o consumidor, maiores as chances de fidelização.
Muito além da venda de medicamentos
Há alguns anos, o faturamento das farmácias dependia principalmente dos remédios prescritos por médicos. Hoje, a realidade é bem diferente. Em muitas unidades, uma parcela significativa da receita vem de produtos que não exigem receita médica e apresentam margens de lucro mais elevadas.
Entre os itens mais vendidos estão medicamentos para dor, gripe e alergias, vitaminas, suplementos alimentares, dermocosméticos, produtos para cuidados com a pele, maquiagem, perfumes, fraldas infantis e geriátricas, artigos de higiene pessoal e alimentos especiais destinados a pessoas com restrições alimentares.
Essa diversificação permitiu que as drogarias ampliassem seu público e reduzissem a dependência dos medicamentos tradicionais. Algumas redes destinam áreas inteiras das lojas para produtos de beleza e cuidados pessoais, aproximando-se do conceito de lojas de conveniência.
O avanço do comércio eletrônico também contribuiu para esse crescimento. Atualmente, grande parte das redes oferece aplicativos próprios, programas de fidelidade e entregas rápidas, permitindo que medicamentos e outros produtos cheguem à casa do consumidor em poucos minutos.
O farmacêutico ganhou um papel cada vez mais estratégico
A imagem do farmacêutico restrita ao balcão ficou no passado. A legislação brasileira determina que esses profissionais estejam presentes durante todo o horário de funcionamento das farmácias, mas sua atuação passou a ser muito mais ampla.
Além de orientar sobre o uso correto dos medicamentos, o farmacêutico analisa prescrições, identifica possíveis interações entre remédios, acompanha tratamentos e presta esclarecimentos que ajudam a evitar erros de medicação. Em um cenário de crescente automedicação, essa orientação tornou-se ainda mais relevante para a segurança dos pacientes.
Outra mudança importante foi a ampliação dos chamados serviços clínicos. Diversas farmácias passaram a oferecer aplicação de vacinas, testes rápidos, aferição da pressão arterial, medição da glicemia, acompanhamento farmacoterapêutico e outros procedimentos autorizados pela legislação. Com isso, esses estabelecimentos passaram a funcionar como uma porta de entrada para cuidados básicos de saúde.
Um mercado que movimenta bilhões de reais
O crescimento observado em Curitiba acompanha uma tendência nacional. Segundo a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), as grandes redes associadas movimentaram R$ 114,87 bilhões em vendas no período de 12 meses encerrado em outubro de 2025, registrando crescimento superior a 13% em relação ao período anterior.
Boa parte desse desempenho está relacionada ao aumento da expectativa de vida dos brasileiros, ao maior acesso aos tratamentos médicos e à valorização dos cuidados preventivos. A pandemia também acelerou mudanças de comportamento, tornando produtos ligados à saúde e ao bem-estar parte do consumo cotidiano das famílias.
Curitiba participa desse cenário com forte presença de grandes redes nacionais e regionais, como Nisseicompany","Nissei","rede de farmácias brasileira"], Farmácias São João, Droga Raia, Drogasil["company","Drogasil","rede de farmácias brasileira"], Panvel e Pague Menos, além de dezenas de drogarias independentes que continuam atendendo bairros e comunidades específicas.
Há espaço para tantas lojas?
À primeira vista, a proximidade entre diferentes farmácias pode sugerir excesso de oferta. No entanto, especialistas em varejo afirmam que a competição faz parte da estratégia das grandes redes. Estar próximo do concorrente permite disputar o mesmo fluxo de consumidores e reforçar a presença da marca em regiões consideradas estratégicas.
Essa concorrência beneficia o consumidor de diversas formas. Promoções frequentes, programas de fidelidade, descontos para medicamentos de uso contínuo, entregas rápidas e horários de funcionamento estendidos tornaram-se diferenciais importantes para conquistar clientes.
Ao mesmo tempo, pequenos empresários enfrentam desafios cada vez maiores para competir com grupos que negociam diretamente com laboratórios, possuem centros de distribuição próprios e conseguem praticar preços mais competitivos. Muitas drogarias independentes encontraram na personalização do atendimento e na proximidade com os moradores do bairro a principal forma de manter sua clientela.
A farmácia se tornou parte da rotina urbana
Poucos setores do comércio mudaram tanto nas últimas duas décadas quanto o farmacêutico. O estabelecimento onde antes se comprava apenas um remédio hoje oferece serviços de saúde, vacinação, exames rápidos, cosméticos, suplementos, produtos para bebês, itens de conveniência e atendimento especializado.
Essa transformação explica por que novas unidades continuam surgindo em diferentes regiões de Curitiba. Mais do que vender medicamentos, as farmácias passaram a acompanhar o cotidiano das pessoas, oferecendo soluções rápidas para necessidades que vão da prevenção de doenças aos cuidados pessoais.
O crescimento do setor indica que a cidade ainda enxerga espaço para esse modelo de negócio. Resta saber até que ponto a concorrência continuará impulsionando novas inaugurações ou se o mercado caminhará para um período de maior equilíbrio entre oferta e demanda.