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Anvisa investiga 13 casos de perda de visão com canetas emagrecedoras

Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
Marcos Paulo Assis
há 2 horas
6 min de leitura

Agência apura 13 notificações de neuropatia óptica em usuários de medicamentos GLP-1; relação de causa e efeito ainda não foi comprovada.


Canetas de medicamentos GLP-1 ao lado de representação do olho e do nervo óptico em investigação da Anvisa sobre perda de visão.
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noia) em pessoas que utilizavam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, grupo que inclui alguns dos produtos mais conhecidos para tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. A condição pode provocar perda repentina da visão, mas a agência reforça que os registros não comprovam que os medicamentos tenham causado os problemas oculares.


Os registros envolvem cinco medicamentos: Ozempic, Wegovy, Wegovy FlexTouch, Rybelsus e Mounjaro. São cinco notificações associadas ao Ozempic, três ao Wegovy, duas ao Wegovy FlexTouch, duas ao Rybelsus e uma ao Mounjaro. Pelo princípio ativo, 12 notificações envolvem semaglutida e uma está relacionada à tirzepatida. A informação foi confirmada pela Anvisa nesta segunda-feira (28).


O caso ganha dimensão nacional porque os medicamentos GLP-1 passaram, em poucos anos, de tratamentos conhecidos principalmente entre pacientes com diabetes para produtos presentes também no debate sobre obesidade, controle de peso e estética. A expansão do uso aumentou a atenção sobre segurança, prescrição, publicidade e acompanhamento dos efeitos adversos.


Noia pode causar perda súbita da visão


A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica é uma doença que afeta o nervo óptico, estrutura responsável por transmitir ao cérebro as informações captadas pela retina. A condição está associada à redução do fluxo sanguíneo nessa região e pode provocar perda visual repentina, geralmente sem dor.


Os sinais podem aparecer no cotidiano de maneira inesperada. Uma pessoa pode acordar percebendo que enxerga pior com um dos olhos, notar uma área escura no campo visual ou perceber uma queda repentina na capacidade de enxergar. Diante de uma alteração desse tipo, a orientação é procurar atendimento médico rapidamente, em vez de esperar que o problema desapareça sozinho.


A existência das 13 notificações, contudo, precisa ser interpretada dentro do funcionamento da farmacovigilância. Um relato feito por um paciente, profissional de saúde ou empresa registra uma suspeita de evento adverso. A partir daí, os órgãos reguladores analisam fatores como histórico clínico, outras doenças, medicamentos utilizados, intervalo entre o início do tratamento e o evento e possíveis explicações alternativas.


A própria Anvisa já chamou atenção para esse cuidado ao divulgar dados sobre os agonistas de GLP-1. Entre dezembro de 2018 e março de 2026, foram registradas 2.965 notificações de eventos adversos relacionados a esses medicamentos, mas a agência esclarece que notificações espontâneas não representam, isoladamente, confirmação de relação causal.


Semaglutida já tem alerta de evento muito raro


A investigação atual não é o primeiro alerta envolvendo problemas de visão e medicamentos dessa classe. Em junho de 2025, a Anvisa determinou a inclusão da Noia como reação adversa muito rara nas bulas de medicamentos à base de semaglutida, após avaliação do Comitê de Avaliação de Risco em Farmacovigilância da Agência Europeia de Medicamentos (EMA).


Naquele momento, o sistema brasileiro de farmacovigilância registrava 52 notificações de suspeitas de distúrbios oculares relacionados à semaglutida. Entre os relatos havia alterações visuais diversas, incluindo casos classificados como neurite óptica isquêmica, visão turva, comprometimento visual e cegueira. Esses registros também eram tratados como suspeitas, e não como comprovação automática de que a semaglutida havia provocado cada evento.


A decisão de atualizar as bulas mostra como a farmacovigilância pode modificar as informações disponíveis para médicos e pacientes mesmo depois de um medicamento já estar amplamente comercializado. Quando um possível efeito adverso raro aparece em análises regulatórias ou em relatos pós-comercialização, o risco passa a ser acompanhado de maneira mais específica.


O que dizem os fabricantes dos medicamentos


A Novo Nordisk, responsável por Ozempic, Wegovy e Rybelsus, informou que acompanha a questão dentro de seus procedimentos de farmacovigilância. Segundo a empresa, a análise da totalidade dos dados disponíveis até o momento não permite confirmar uma relação causal entre semaglutida e Noia. A companhia também afirma que monitora continuamente a segurança de seus medicamentos e que novas medidas podem ser adotadas caso surjam evidências que justifiquem mudanças.


A farmacêutica Lilly, fabricante do Mounjaro, também informou que monitora, avalia e comunica às autoridades regulatórias informações de segurança relacionadas a seus medicamentos. A empresa declarou que continua avaliando os dados, inclusive aqueles relacionados a possíveis questões oftalmológicas, e orienta pacientes que apresentem efeitos adversos a procurar seu médico ou outro profissional de saúde.


A posição das empresas não encerra a investigação. Cabe às autoridades sanitárias avaliar as evidências disponíveis de forma independente, enquanto novos dados clínicos e epidemiológicos podem contribuir para estabelecer com maior precisão a dimensão de eventual risco.


Popularização das canetas aumenta pressão sobre fiscalização


O crescimento do mercado de medicamentos GLP-1 trouxe também uma mudança no comportamento do consumidor. Produtos que antes eram associados principalmente ao tratamento de diabetes passaram a ser amplamente discutidos em redes sociais, clínicas, academias e ambientes de trabalho, muitas vezes com foco quase exclusivo na perda de peso.


A resposta regulatória brasileira ficou mais rígida. Desde junho de 2025, os medicamentos agonistas de GLP-1 passaram a exigir retenção da receita médica nas farmácias, em duas vias, com validade de até 90 dias. A medida alcança os medicamentos da classe que dependem de prescrição.


A fiscalização também alcançou a publicidade. Na sexta-feira (25), a Anvisa proibiu a propaganda do Semavy, medicamento à base de semaglutida, após identificar divulgação em painéis eletrônicos do Aeroporto de Congonhas, no site do produto e em redes sociais. Segundo a agência, o medicamento possui tarja vermelha e sua publicidade ao público em geral é proibida; a divulgação deve ser restrita aos profissionais autorizados.


A medida ajuda a explicar uma preocupação que ultrapassa a questão específica da visão: quando medicamentos de prescrição passam a ser apresentados ao público como produtos de consumo, existe o risco de a discussão sobre benefícios ocupar mais espaço do que as indicações, contraindicações e possíveis eventos adversos.


O que o paciente deve fazer


Para quem utiliza Ozempic, Wegovy, Rybelsus, Mounjaro ou outro medicamento GLP-1, as novas notificações não significam que o tratamento deva ser interrompido por conta própria. A indicação e a continuidade do medicamento precisam ser avaliadas pelo profissional responsável, levando em conta diagnóstico, histórico clínico, outros medicamentos e fatores individuais de risco.


A situação exige atenção imediata diante de uma alteração visual súbita. A Anvisa orienta que pacientes que apresentem perda repentina ou piora rápida da visão durante o tratamento com semaglutida procurem atendimento médico imediatamente.


Também merece cuidado a compra de produtos sem procedência ou fora dos canais regulares. A expansão do mercado de canetas para emagrecimento foi acompanhada por ações da Anvisa contra produtos e práticas irregulares, reforçando que o consumidor não deve tratar medicamentos injetáveis como itens comuns adquiridos por impulso na internet.


A investigação dos 13 casos, portanto, está longe de significar que todas as pessoas que utilizam medicamentos GLP-1 estejam sob risco de perder a visão. A Noia é considerada um evento raro, e a própria Anvisa ainda avalia se existe uma relação causal entre os medicamentos e os casos notificados.


O episódio revela, entretanto, um desafio que acompanha a rápida popularização dessas terapias: quanto maior o número de usuários, maior a responsabilidade de médicos, fabricantes, farmácias, autoridades e pacientes em identificar rapidamente sinais inesperados. A resposta definitiva sobre os 13 casos dependerá da análise das evidências, e não apenas da coincidência entre o uso dos medicamentos e o aparecimento dos sintomas.


Para quem está em tratamento, a melhor resposta neste momento é informação, acompanhamento médico e atenção aos sinais de alerta. Para as autoridades sanitárias, o desafio é continuar separando os eventos coincidentes daqueles que eventualmente revelem um risco real — uma tarefa essencial para que a inovação no tratamento da obesidade e do diabetes avance acompanhada da necessária segurança.


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Fontes


Edição: Marcos Paulo Assis

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

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