*Dissertação de mestrado da UFPR com dados de 2016 encontrou deficiência em 69,9% das gestantes no verão e em 91,3% no inverno. Especialistas divergem sobre o peso da vitamina na fertilidade.*
Um estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) identificou níveis de vitamina D abaixo da referência em 69,9% das gestantes monitoradas no verão em Curitiba. No inverno, o índice chegou a 91,3%. O trabalho é uma dissertação de mestrado em Tocoginecologia da ginecologista e obstetra Kadija Rahal Chrisostomo, com dados coletados em 2016.
O tema voltou ao debate durante o isolamento social da pandemia, que reduziu a exposição ao sol, principal fator para a produção da vitamina no organismo. Médicos ouvidos em matéria publicada pelo Paranashop em 2021 relacionam a deficiência a dificuldades para engravidar e a complicações na gestação, mas parte da literatura científica ainda considera as evidências inconclusivas.
O que mostra a pesquisa em Curitiba
Segundo o material sobre o estudo, 3.265 gestantes de Curitiba foram envolvidas inicialmente. Foram coletadas amostras de 520 delas, atendidas nos ambulatórios de pré-natal do Complexo Hospital de Clínicas da UFPR e do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba. Foram 256 amostras no verão e 264 no inverno.
A concentração média foi de 22,5 ng/mL. A referência adotada, da Endocrine Society, considera adequado o nível acima de 30 ng/mL.
A UFPR explica que os raios UVB incidem sobre a pele e permitem a síntese da vitamina D, e que apenas de 10% a 20% vêm da alimentação. Uma revisão sistemática de 2019 sobre gestantes no Brasil cita o estudo de Curitiba e registra 19,2% de participantes com níveis suficientes.
Fertilidade e gestação: o que dizem os especialistas
O médico Rodrigo Rosa, especialista em reprodução humana e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, afirma que a vitamina D controla mais de 3.000 genes e tem mais de 80 funções no organismo. Segundo ele, mulheres com níveis baixos podem ter menos chance de ter filhos após técnicas de reprodução assistida.
Rosa também cita um papel na fertilidade masculina, pela atuação nos testículos na manutenção dos espermatozoides maduros. Para ele, a vitamina atua ainda no sistema imunológico e pode evitar que a gestante rejeite a implantação do embrião, tanto na fertilização in vitro quanto na gravidez espontânea.
A matéria original cita um trabalho do National Institute of Health, dos Estados Unidos. De acordo com ele, mulheres com nível acima de 30 ng/ml tinham 10% mais chance de engravidar e risco 15% menor de aborto espontâneo. Durante a gestação, a deficiência é associada por especialistas a diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e parto prematuro.
A dermatologista Paola Pomerantzeff, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, lembra que peixes gordurosos como o salmão, ovos e laticínios têm vitamina D. Ainda assim, segundo ela, o sol responde por 80% a 90% da conversão da vitamina no corpo.
Evidências ainda são debatidas
O ginecologista Bruno Ramalho, da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), afirma que os estudos sobre os efeitos na fertilidade feminina são pouco conclusivos. Ele diz que faltam pesquisas bem desenhadas que confirmem o benefício de tratar a deficiência em mulheres inférteis.
A própria SBRA cita um estudo com chinesas em que o nível de vitamina D não se associou a mais gravidez nem a mais nascidos vivos após o procedimento de reprodução assistida.
Sobre a pandemia, uma revisão sistemática concluiu que os níveis de vitamina D ficaram menores nesse período, assim como a exposição ao sol. Um estudo de Goiás com 2.208 pacientes apontou que 357 (28%) tinham valores abaixo de 20 ng/mL durante a pandemia. Não há, nas fontes consultadas, estudo paranaense ou brasileiro que ligue o isolamento diretamente a pior fertilidade ou a problemas na gestação.
Uma pesquisa em região de Campinas (SP) registrou aumento da suplementação na pandemia, impulsionado por indicações em redes sociais e por prescrições. Os autores recomendam dosar os níveis no sangue antes de prescrever o colecalciferol.
Pré-natal no Paraná
Segundo a Secretaria da Saúde do Paraná (Sesa), 88,5% das gestantes paranaenses fizeram sete ou mais consultas de pré-natal pelo SUS em 2025, com base no Sinasc, sistema do governo federal. Nas fontes da Sesa consultadas pelo Paranashop, não consta diretriz ou programa estadual específico sobre vitamina D ou sua suplementação em gestantes.
Quem tem dúvidas sobre os níveis da vitamina deve procurar acompanhamento médico, que define a necessidade de exame e de suplementação.
**Fontes:** UFPR (dissertação de Kadija Rahal Chrisostomo), Secretaria da Saúde do Paraná, Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, Sociedade Brasileira de Dermatologia, clínica Mater Prime e matéria do Paranashop de junho de 2021.



