A eleição presidencial mudou o ambiente político em Brasília, mas o Paraná já vive outra disputa: a montagem do governo Sergio Moro, a reorganização das forças na Assembleia Legislativa e a preparação dos órgãos de controle para 2027. Na semana de 26 de outubro a 1º de novembro, os bastidores deixaram claro que a transição não será apenas administrativa. Ela exigirá negociação política, cooperação institucional e respostas objetivas sobre gastos, prioridades e serviços públicos.
O governador eleito começou a revelar nomes para o primeiro escalão, demonstrou interesse em trazer um delegado da Polícia Federal para a Segurança Pública e terá de construir uma relação funcional com o governo federal de Luiz Inácio Lula da Silva. Ao mesmo tempo, a atual gestão de Ratinho Junior regulamentou a passagem de informações, enquanto a Assembleia e o Tribunal de Contas definiram movimentos que terão impacto sobre o próximo ciclo de poder.
O Paranashop acompanha esses movimentos sem conceder crédito antecipado a governantes ou opositores. O critério é o mesmo para todos: competência, transparência, responsabilidade fiscal, respeito às instituições e resultados que possam ser conferidos pela população.
Transição começa em 5 de novembro e terá acesso a dados estratégicos
O governador Ratinho Junior assinou em 26 de outubro o Decreto nº 15.525/2026, que regulamenta a transição para a próxima administração estadual. O processo começa em 5 de novembro e vai até 5 de janeiro de 2027, véspera da posse. A equipe terá até 20 integrantes: dez indicados pelo governo atual e dez pelo governador eleito. O superintendente-geral de Relações Institucionais, Renato Adur, coordenará os trabalhos pelo lado da atual gestão.
O decreto prevê acesso a informações sobre contas públicas, estrutura administrativa, programas, projetos e ações dos órgãos estaduais. Também determina o levantamento de assuntos que exigirão providências nos primeiros 120 dias do novo governo. É uma etapa decisiva: decisões tomadas agora podem evitar interrupções em contratos, obras, serviços de saúde, transporte e educação no começo do próximo mandato.
A existência de regras formais é positiva, mas não basta. O teste será a qualidade e a profundidade dos dados compartilhados. A equipe de transição precisa receber informações completas sobre dívidas, compromissos financeiros, obras atrasadas, contratos, quadro de pessoal, indicadores de desempenho e riscos administrativos. A sociedade também deve conhecer o que for possível divulgar, respeitados os limites legais.
Análise do Paranashop: transição transparente não é favor de um governo ao sucessor. É obrigação institucional. O contribuinte não pode descobrir apenas depois da posse que uma obra está sem recursos, que um contrato exige renegociação ou que uma despesa foi empurrada para o exercício seguinte. O novo governo deve apresentar diagnóstico, prioridades e metas; o atual precisa entregar informações sem maquiagem política.
Moro monta a equipe e a Segurança Pública vira teste de articulação com Lula
Depois de anunciar Pricilla Santanna para a Fazenda e Fátima Gavioli para a Educação, Sergio Moro passou a trabalhar na escolha do comando da Segurança Pública. Reportagem de Martha Feldens, no Bem Paraná, informou em 29 de outubro que o governador eleito pretende convidar o delegado federal Fabiano Bordignon, que já trabalhou com Moro no Ministério da Justiça. A nomeação, porém, depende da liberação do governo federal, já que o delegado integra a Polícia Federal.
O episódio expõe uma das primeiras provas políticas da nova administração. Moro e Lula pertencem a campos políticos diferentes e tiveram trajetórias de confronto público, mas o Paraná não pode ser prejudicado por divergências pessoais ou partidárias. Segurança pública, repasses federais, infraestrutura, saúde e educação dependem de relações institucionais permanentes entre Estado e União.
O próprio Moro afirmou, em declaração reproduzida pelo Bem Paraná após encontro na Federação das Indústrias do Paraná, que pretende priorizar a administração estadual e evitar antagonismo desnecessário com Brasília. A disposição é correta. Resta saber se será mantida quando surgirem divergências concretas sobre recursos, nomeações e políticas públicas.
O nome de Bordignon também exige avaliação objetiva. Experiência profissional e confiança política podem contar, mas a escolha precisa ser acompanhada de metas, indicadores e prestação de contas. Segurança pública não se resume a operações policiais ou discursos de rigor: envolve investigação, inteligência, prevenção, sistema prisional, valorização das forças policiais e redução consistente da violência.
Análise do Paranashop: Moro terá de demonstrar que consegue separar a disputa política nacional da administração do Paraná. Se a liberação do delegado ocorrer, será uma decisão institucional do governo federal, não um gesto de amizade. Se não ocorrer, o governador eleito deverá apresentar alternativa qualificada. O interesse do Estado precisa estar acima da conveniência dos dois lados.
Assembleia terá uma nova correlação de forças, mas a renovação é menor do que parece
A próxima legislatura da Assembleia Legislativa terá 54 deputados, dos quais 23 são novos e 31 foram reconduzidos. A renovação é de 42,59%, segundo levantamento publicado pela própria Alep após a oficialização do resultado eleitoral. Entre os parlamentares que tentaram a reeleição, 75,61% conseguiram permanecer na Casa.
O resultado combina mudança e continuidade. Novos nomes chegam com agendas próprias e diferentes bases eleitorais, mas a permanência de três quartos dos deputados que disputaram a recondução indica que boa parte das relações políticas, dos grupos de influência e das práticas parlamentares continuará presente em 2027.
Essa composição será fundamental para o governo Moro. A Assembleia aprova orçamento, fiscaliza o Executivo, discute reformas e pode funcionar tanto como espaço de negociação quanto de resistência. A eventual participação de deputados no secretariado, possibilidade mencionada pelo governador eleito em declarações anteriores, deverá ser acompanhada com atenção: articulação política é legítima, mas não pode virar distribuição de cargos sem critérios técnicos.
O debate sobre o orçamento de 2027 já oferece uma oportunidade de participação popular. A Alep abriu um canal para que cidadãos indiquem áreas que consideram prioritárias para receber recursos. A iniciativa só terá valor real se as sugestões forem organizadas, consideradas publicamente e confrontadas com as prioridades e limitações financeiras do Estado.
Projetos na pauta: cartórios, tabaco e proteção a famílias vulneráveis
A agenda parlamentar prevista para 3 de novembro reúne propostas com efeitos diretos sobre a vida cotidiana. Entre elas está o projeto do Tribunal de Justiça que atualiza critérios de cobrança dos serviços cartorários, incluindo registros de imóveis, escrituras e certidões. A proposta prevê atualização anual pelo IPCA e regras de cálculo, transparência, fiscalização e gratuidade.
Outro tema é a classificação das folhas de tabaco nas propriedades rurais antes do transporte à indústria. Segundo a pauta repercutida pelo Blog do Tupan, dados da safra 2023/2024 apontam que cerca de 28 mil famílias paranaenses se dedicam ao cultivo. A discussão envolve renda no campo, critérios técnicos de avaliação e o equilíbrio entre produtores e empresas compradoras.
Também estão previstos projetos relacionados à matrícula escolar de filhos de mulheres vítimas de violência doméstica e à proteção ao aleitamento materno em situações de tragédia. São matérias que merecem análise pelo impacto social, mas precisam ser examinadas quanto à viabilidade, aos custos e à capacidade de execução.
O papel do Legislativo não é apenas aprovar propostas com apelo popular. É verificar se o texto é aplicável, se não cria obrigações sem estrutura para cumpri-las e se os benefícios anunciados chegam efetivamente às pessoas. Uma lei bem-intencionada, mas sem orçamento, regulamentação ou fiscalização, pode produzir mais propaganda do que proteção.
TCE-PR escolhe nova direção e assume papel central na fiscalização do próximo governo
O Tribunal de Contas do Estado do Paraná elegeu por unanimidade, em 28 de outubro, o conselheiro Ivan Lelis Bonilha para presidir a instituição no biênio 2027-2028. Durval Amaral será o vice-presidente e Augustinho Zucchi ocupará a Corregedoria-Geral. A posse está prevista para 20 de janeiro de 2027.
A eleição antecipada permite organizar a passagem entre as equipes e preparar a estrutura de fiscalização para o novo período. O TCE-PR terá papel relevante na análise das contas estaduais, na avaliação de contratos, licitações, obras e políticas públicas. A mudança de governo torna ainda mais importante a independência técnica do órgão.
O Tribunal não deve funcionar como aliado nem como adversário do Executivo. Sua credibilidade depende de critérios uniformes, decisões fundamentadas e transparência. A fiscalização precisa alcançar tanto os atos da gestão que termina quanto as decisões da administração que começa, sem seletividade política.
Curitiba também sente os reflexos da reorganização política
Na capital, a repercussão do segundo turno presidencial expôs diferenças entre lideranças que até pouco tempo compartilhavam espaços no campo político da direita. Martha Feldens registrou no Bem Paraná, em 26 de outubro, uma crítica do ex-prefeito Rafael Greca à declaração do prefeito Eduardo Pimentel de que Curitiba seria uma cidade de direita. O episódio revela uma disputa por identidade política e influência sobre o eleitorado da capital.
O debate pode parecer restrito às redes sociais, mas tem consequência prática: a administração municipal precisa governar uma cidade plural, com eleitores de diferentes posições e demandas que não cabem em rótulos partidários. Transporte, saúde, zeladoria, moradia e mobilidade não podem ser tratados como propriedade ideológica de um grupo.
Greca, Pimentel e demais lideranças têm legitimidade para disputar espaço e apresentar visões distintas. O que a população deve cobrar é que a competição política não substitua a prestação de serviços nem paralise decisões necessárias para Curitiba.
O que o Paranashop vai cobrar na próxima etapa
A semana abre uma fase de cobrança concreta. A transição precisa revelar a situação financeira e administrativa do Estado; o novo secretariado deve ser escolhido por competência e apresentar metas; a Assembleia terá de mostrar como pretende exercer sua função fiscalizadora; e o Tribunal de Contas deverá manter independência diante de todos os grupos.
O Paraná não precisa de uma administração que apenas prometa reduzir secretarias, nem de uma oposição que confunda fiscalização com obstrução. Precisa de contas claras, serviços que funcionem, investimentos bem escolhidos e decisões justificadas por evidências.
Opinião do Paranashop: a vitória eleitoral encerra uma disputa nas urnas, mas não concede autorização para governar sem transparência. A nova gestão será julgada pela capacidade de transformar promessas em entregas e de reconhecer erros quando eles ocorrerem. Da mesma forma, os deputados e órgãos de controle precisam demonstrar que representam o interesse público, não acordos de bastidor.
O próximo capítulo começa em 5 de novembro, quando a transição formal será aberta. A pergunta que deve orientar o acompanhamento público é direta: o Paraná terá uma mudança real na qualidade da gestão ou apenas uma troca de nomes no comando do poder?
Edição: Marcos Paulo Assis
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.


