top of page

Vereadores no meio do mandato já buscam uma nova cadeira

há 2 dias
6 min de leitura

Vereadores e parlamentares ainda no exercício do mandato já disputam uma nova cadeira em 2026. É a curiosa “promoção” que depende do eleitor.


Charge mostra político ainda no meio do mandato subindo uma escada em busca de uma cadeira de governador, enquanto eleitores avaliam seu currículo.
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

Existe uma modalidade de promoção profissional que dificilmente aparece nos manuais de Recursos Humanos. O funcionário ainda está no meio do contrato, continua exercendo normalmente suas funções, recebe seu salário e, em vez de esperar a próxima avaliação de desempenho, já começa a pedir uma cadeira maior.


Na política brasileira, isso não apenas é possível como faz parte do jogo eleitoral. Os vereadores eleitos em 2024 estão no meio do mandato 2025–2028 e alguns deles decidiram disputar, já em 2026, uma vaga de deputado estadual ou federal. Em Curitiba, por exemplo, a atual legislatura começou em 1º de janeiro de 2025 e tem duração prevista até 2028.


Não há contradição jurídica nessa situação. Um vereador pode continuar com seu mandato municipal e, observadas as regras eleitorais e os prazos de desincompatibilização quando aplicáveis, concorrer a outro cargo nas eleições gerais. O Tribunal Superior Eleitoral estabelece regras específicas de afastamento conforme o cargo atualmente ocupado e aquele que o candidato pretende disputar.


A graça está justamente na situação. O político ainda está no meio do mandato para o qual foi eleito e já aparece diante do eleitor pedindo uma espécie de promoção: “Trabalhei bastante, fiz muita coisa, ajudei a população e agora estou preparado para uma cadeira maior”.


É quase como pedir aumento antes de terminar o período de experiência.


O mandato ainda está pela metade


Os atuais vereadores foram escolhidos nas eleições municipais de 2024. Em Curitiba, por exemplo, os eleitos formaram a 19ª Legislatura, com mandato iniciado em 2025 e previsto para terminar em 2028. Portanto, quando o eleitor for às urnas em 4 de outubro de 2026, esses parlamentares estarão aproximadamente na metade do mandato que receberam nas urnas dois anos antes.


A situação fica ainda mais curiosa quando o vereador apresenta a candidatura a deputado como uma evolução natural da carreira. A lógica é conhecida: “Já conheço os problemas da cidade, agora quero levar essa experiência para o Estado” ou “Já conheço o Paraná, agora posso representar o Estado em Brasília”.


Nada impede que seja exatamente essa a intenção. O eleitor, entretanto, pode fazer uma pergunta bastante simples: se o mandato atual ainda não terminou, o que foi realizado até agora?


A pergunta não é uma acusação. É uma forma bastante razoável de avaliar qualquer candidato que peça mais responsabilidade e mais poder político. O currículo eleitoral, como qualquer currículo profissional, pode ser examinado antes da promoção.


“Eu trabalho muito” virou argumento de campanha


Toda eleição tem algumas frases que parecem sobreviver independentemente do partido, da cidade ou da ideologia. Uma delas é o clássico “eu trabalho muito”. O candidato aparece em reuniões, visitas aos bairros, encontros comunitários, eventos, escolas, associações e solenidades, enquanto as redes sociais registram praticamente cada passo da agenda.


Há também a fotografia ao lado de crianças, idosos, trabalhadores, empresários, lideranças comunitárias e representantes de entidades. Em seguida vem a legenda: “Seguimos trabalhando pela população”.


É possível, evidentemente, que o trabalho seja intenso e que muitas dessas ações tenham produzido resultados concretos. O problema é que quantidade de compromissos não é necessariamente sinônimo de qualidade de mandato.


Uma agenda cheia não responde, sozinha, se o parlamentar exerceu bem suas funções. O eleitor pode querer saber quais projetos foram apresentados, quais propostas avançaram, como o vereador votou, que medidas de fiscalização adotou e quais resultados efetivamente podem ser associados à sua atuação.


Também existe uma diferença entre atender uma pessoa e resolver um problema público. A política costuma misturar essas duas coisas na comunicação eleitoral, porque a primeira rende uma fotografia muito mais fácil de produzir.


O candidato pode mostrar centenas de encontros. O eleitor pode preferir olhar para aquilo que ficou depois que as câmeras foram embora.


O pedido de “aumento” tem outro nome


A brincadeira com o aumento salarial precisa de uma pequena tradução. O eleitor não estará votando para aumentar diretamente o salário de vereador, deputado ou qualquer outro político. Na urna, ele escolherá quem ocupará determinados cargos públicos.


Nas eleições de 4 de outubro de 2026, estarão em disputa os cargos de presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. Não haverá eleição para vereador, porque a disputa municipal ocorreu em 2024.


Assim, quando um vereador concorre a deputado estadual ou federal, ele não está pedindo ao eleitor um simples reajuste. Está tentando mudar de função, ampliar sua área de atuação e conquistar um novo mandato.


Daí a expressão que talvez defina melhor a brincadeira: promoção política.


O salário é consequência do cargo. O voto é o caminho para chegar até ele.


E o candidato que já ocupa uma cadeira precisa convencer o eleitor de que merece ocupar outra.


O RH dessa empresa tem milhões de funcionários


Imagine uma empresa chamada Brasil. O funcionário foi contratado para um mandato de quatro anos e, quando chega à metade do período, decide disputar uma vaga superior.

Ele prepara o currículo, enumera suas realizações, lembra os projetos apresentados, mostra fotografias das reuniões e afirma que está pronto para novos desafios. Também pode dizer que não faltou, que esteve presente nos bairros, ajudou famílias e trabalhou em favor das crianças.


Até aí, tudo dentro do roteiro.


A diferença é que o chefe não é uma pessoa sentada em uma sala com uma caneta na mão. O departamento de Recursos Humanos é formado por milhões de eleitores espalhados pelo país.


No dia 4 de outubro, eles decidirão quem ocupará os cargos em disputa. O primeiro turno das eleições gerais está oficialmente marcado para essa data, com eventual segundo turno para presidente e governador em 25 de outubro.


E o candidato não tem como garantir a própria promoção.


Pode pedir. Pode argumentar. Pode apresentar resultados. Pode fazer campanha.

Mas precisa esperar a avaliação.


O currículo de quatro anos pode pesar mais que o discurso


A candidatura de quem já exerce mandato traz uma vantagem óbvia: existe um histórico para ser analisado. O eleitor não precisa avaliar apenas promessas futuras; pode observar parte daquilo que já aconteceu.


É possível consultar informações oficiais sobre atividade parlamentar, projetos, votações, presença e fiscalização. No caso dos vereadores, essas informações são disponibilizadas pelas próprias Câmaras Municipais. Em Curitiba, a Câmara mantém páginas com a composição da legislatura e informações sobre a atividade parlamentar.


Isso permite uma mudança interessante na pergunta eleitoral.


Em vez de apenas “o que ele promete fazer?”, o eleitor pode perguntar “o que ele fez com o mandato que já recebeu?”.


A resposta poderá ser diferente para cada candidato e dependerá também das prioridades de cada eleitor. Um cidadão pode dar mais importância à fiscalização da Prefeitura; outro pode considerar projetos de mobilidade, saúde, educação ou segurança como fatores determinantes. A avaliação política não precisa ser igual para todos.


O que muda é a possibilidade de comparar promessa com histórico.


Afinal, se o candidato está pedindo uma promoção, nada mais natural do que apresentar o trabalho anterior.


A promoção depende de quem está do outro lado da urna


A situação tem um componente quase teatral. O político chega com o currículo debaixo do braço e diz que trabalhou muito, não faltou, atendeu a população, ajudou crianças, participou de reuniões e conseguiu resultados.


Depois aponta para a cadeira maior e explica que está preparado para o próximo desafio.

Só que existe um pequeno problema.


O candidato não é o responsável pela contratação.


Quem decide é o eleitor.


E o eleitor pode concordar com o pedido, pode escolher outro candidato ou simplesmente entender que ainda não está convencido. A democracia não estabelece promoção automática para quem já ocupa mandato. Cada eleição abre novamente a disputa.


Isso vale para vereadores que tentam chegar à Assembleia Legislativa ou à Câmara dos Deputados, para deputados que buscam outros cargos e para qualquer candidato que queira avançar na carreira política.


No mundo corporativo, talvez o chefe respondesse: “Vamos conversar na próxima avaliação de desempenho”.


Na política, a avaliação tem data marcada.


4 de outubro de 2026.


Até lá, muitos candidatos continuarão dizendo que trabalharam muito e que estão preparados para fazer ainda mais.


E talvez a pergunta mais interessante não seja se eles merecem um aumento.

Talvez seja outra: o que fizeram até agora que justifique pedir uma cadeira maior?


A resposta estará no currículo, no histórico do mandato e, finalmente, na urna. Porque na curiosa carreira política brasileira o funcionário pode pedir promoção antes mesmo de terminar o contrato, mas existe uma regra que nem o melhor marqueteiro consegue alterar: quem assina a contratação é o eleitor.


Sua empresa também pode virar notícia.

Conheça o Publipost Paranashop e coloque sua marca em destaque.Saiba como participar → paranashop.com.br/publipost


Edição: Marcos Paulo Assis

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

Comentários


bottom of page