Imigração de venezuelanos e cubanos transforma o mercado de trabalho no Brasil
- Marcos Paulo Assis, editor — com apoio de IA
- há 3 horas
- 4 min de leitura
Fluxo migratório cresce, muda o perfil da mão de obra em diversos setores e leva empresas brasileiras a contratar centenas de trabalhadores estrangeiros.

Quando o expediente começa em supermercados, frigoríficos, indústrias, redes de logística e restaurantes de diversas cidades brasileiras, é cada vez mais comum ouvir conversas em espanhol pelos corredores. O fenômeno deixou de estar restrito às regiões de fronteira e passou a fazer parte da rotina de estados como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo. Em algumas empresas, a presença de trabalhadores estrangeiros já representa uma parcela significativa da equipe. Há casos em que supervisores e até gerentes são venezuelanos ou cubanos, reflexo de uma imigração que ganhou força nos últimos anos.
O Brasil se tornou um dos principais destinos de pessoas que deixaram a Venezuela por causa da crise econômica, política e humanitária, enquanto, mais recentemente, também passou a receber um número crescente de cubanos em busca de oportunidades profissionais e estabilidade econômica. Dados recentes mostram que os cubanos passaram inclusive a liderar os pedidos de refúgio no país, superando os venezuelanos em novas solicitações.
Da Venezuela ao Brasil: uma viagem que começa pela fronteira
A maioria dos venezuelanos chega ao Brasil por via terrestre. O principal ponto de entrada é a cidade de Pacaraima, em Roraima, na fronteira entre os dois países.
Muitos percorrem centenas de quilômetros de ônibus, carro, motocicleta ou até mesmo a pé antes de cruzar a fronteira. Em seguida, seguem para Boa Vista, onde recebem atendimento da Operação Acolhida, iniciativa coordenada pelo Governo Federal com apoio das Forças Armadas, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), Organização Internacional para as Migrações (OIM) e dezenas de entidades parceiras.
Após documentação, vacinação e avaliação social, milhares participam do programa de interiorização. O deslocamento para outras cidades brasileiras costuma ocorrer de avião, em voos organizados pelo governo, embora também existam transferências rodoviárias em alguns casos. Desde 2018, mais de 150 mil venezuelanos foram interiorizados para mais de 1.100 municípios brasileiros.
Curitiba está entre as cidades que mais receberam venezuelanos por meio desse programa, seguida por capitais e polos industriais que oferecem maior oferta de empregos.
Cubanos chegam por caminhos diferentes
A imigração cubana apresenta características distintas.
Parte dos cubanos desembarca diretamente em aeroportos brasileiros utilizando vistos ou escalas internacionais. Outra parcela faz uma longa rota pela América do Sul. Muitos passam por países como Guiana ou Suriname, que possuem exigências migratórias menos rígidas, e depois entram no Brasil pelos estados de Roraima e Amapá.
Nos últimos anos, esse fluxo aumentou significativamente. Em 2025, mais de 40 mil cubanos solicitaram refúgio no Brasil, tornando-se o maior grupo entre os novos pedidos apresentados ao governo brasileiro.
As razões para deixar Cuba incluem dificuldades econômicas, escassez de produtos básicos, apagões frequentes e redução das perspectivas de crescimento profissional. Muitos também alteraram seus planos após mudanças na política migratória dos Estados Unidos, escolhendo o Brasil como alternativa para reconstruir a vida.
Empresas descobriram uma nova fonte de mão de obra
A chegada desses imigrantes coincidiu com um período de dificuldade das empresas brasileiras para preencher vagas operacionais.
Frigoríficos, cooperativas agrícolas, supermercados, transportadoras, construção civil, hotéis, restaurantes, limpeza industrial e empresas de logística passaram a recrutar trabalhadores estrangeiros em larga escala.
O setor de alimentos é um dos exemplos mais visíveis. Grandes frigoríficos e cooperativas agroindustriais espalhados pelo Sul frequentemente contratam venezuelanos para funções na produção, embalagem e expedição. Redes varejistas também ampliaram a presença de estrangeiros em centros de distribuição e lojas.
Em Curitiba, Maringá, Cascavel, Chapecó, Joinville e outras cidades do Sul tornou-se comum encontrar equipes compostas por brasileiros, venezuelanos, cubanos e haitianos trabalhando lado a lado.
Com o tempo, muitos imigrantes conquistam promoções. Funcionários que chegam como auxiliares passam a liderar equipes graças ao desempenho, à facilidade de comunicação em espanhol e à experiência profissional adquirida antes da migração. Em algumas empresas, há supervisores e gerentes estrangeiros responsáveis pela integração de novos trabalhadores.
Outro fator chama a atenção dos empregadores: muitos chegam com formação universitária. Entre os venezuelanos e cubanos encontram-se engenheiros, professores, enfermeiros, administradores, contadores, psicólogos e médicos que, enquanto aguardam a validação dos diplomas brasileiros, acabam aceitando empregos em áreas diferentes de sua profissão original.
Os desafios da integração continuam
Embora o acesso ao mercado formal seja relativamente rápido para quem obtém documentação, a adaptação ainda apresenta obstáculos.
O idioma costuma ser superado em poucos meses, mas o reconhecimento de diplomas estrangeiros permanece um processo lento. Muitos profissionais altamente qualificados precisam trabalhar em funções operacionais durante anos até conseguirem validar sua formação.
Também existem dificuldades relacionadas à moradia, ao custo de vida e à construção de uma nova rede social. Organizações da sociedade civil, igrejas e entidades humanitárias oferecem cursos de português, orientação jurídica, auxílio para elaboração de currículos e encaminhamento para vagas de emprego.
Especialistas apontam que a inserção produtiva reduz custos sociais, aumenta a arrecadação de impostos e ajuda a suprir a falta de trabalhadores em setores que enfrentam escassez de mão de obra.
Ao mesmo tempo, o crescimento da imigração exige investimentos em educação, saúde, habitação e políticas públicas capazes de promover integração sem gerar conflitos entre comunidades locais e recém-chegados.
Segundo o ACNUR, mais de 7,9 milhões de venezuelanos deixaram seu país nos últimos anos, sendo a América Latina o principal destino dessa população. O Brasil responde por uma parcela desse movimento migratório e desenvolveu um dos maiores programas de acolhimento da região.
A imigração cubana também passou a ganhar relevância estatística, indicando que o perfil migratório brasileiro continua em transformação.
A presença crescente desses trabalhadores mostra que a imigração deixou de ser apenas uma questão humanitária. Ela passou a fazer parte da economia brasileira, influencia o mercado de trabalho e modifica a realidade de bairros, escolas e empresas. O desafio dos próximos anos será ampliar oportunidades para quem chega sem perder de vista a necessidade de integração social, reconhecimento profissional e convivência entre culturas que agora dividem o mesmo espaço.



Comentários