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“Os idiotas vão dominar o mundo”: o que Nelson Rodrigues diria das redes sociais

  • Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
    Marcos Paulo Assis
  • há 13 horas
  • 7 min de leitura

A frase atribuída a Nelson Rodrigues ganhou novo significado na internet, onde milhões de pessoas podem publicar opiniões e disputar influência sem filtros tradicionais.


Ilustração sobre redes sociais, excesso de opiniões, influenciadores, desinformação e disputa pela atenção na internet.
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

Existe uma cena que se repete todos os dias. Alguém publica um vídeo de poucos segundos, apresenta uma afirmação sem fonte, recebe milhares de curtidas e, pouco depois, passa a ser tratado como especialista por pessoas que jamais verificaram o que foi dito.


É nesse ambiente que uma frase atribuída a Nelson Rodrigues voltou a ganhar força: “Os idiotas vão dominar o mundo. Não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.” A formulação é amplamente atribuída ao escritor, jornalista e dramaturgo pernambucano, e aparece reproduzida por veículos de imprensa, pela Academia Brasileira de Letras e em livros publicados no Brasil. A checagem realizada pelo Paranashop, porém, não encontrou até agora um registro primário — como uma crônica original digitalizada — que permita indicar com segurança onde Nelson Rodrigues escreveu exatamente essas palavras.


Isso não transforma a frase em falsa, mas recomenda cuidado jornalístico ao apresentá-la. O mais correto é dizer que a frase é atribuída a Nelson Rodrigues, em vez de tratá-la como uma citação cuja origem documental já esteja definitivamente estabelecida.


A curiosidade aumenta porque outro escritor, o italiano Umberto Eco, fez uma observação muito mais fácil de documentar. Em junho de 2015, ao receber o título de doutor honoris causa pela Universidade de Turim, Eco afirmou que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis” e transformado o “idiota da aldeia” em alguém apresentado como portador da verdade. A declaração foi registrada pela imprensa italiana e reproduzida no Brasil.


As duas frases não são iguais, mas hoje parecem conversar entre si.


Nelson Rodrigues não conheceu a internet


Nelson Rodrigues morreu em 1980, muito antes da popularização dos computadores pessoais, dos smartphones e das redes sociais. Sua frase, portanto, não poderia ter sido uma análise sobre Facebook, Instagram, TikTok ou YouTube.


A associação contemporânea é uma interpretação posterior.


O que torna a provocação tão atual é a ideia de quantidade. A internet retirou da comunicação uma barreira que existia no passado: o acesso à audiência. Antes, uma pessoa precisava de um jornal, uma emissora, uma editora, uma universidade ou algum outro mecanismo institucional para alcançar um público numeroso.


Hoje, basta um celular.


O usuário pode publicar uma opinião sobre medicina sem ser médico, comentar economia sem conhecer finanças, analisar uma decisão judicial sem ter formação jurídica ou explicar uma guerra internacional depois de assistir a três vídeos. Nada disso significa que a pessoa não possa falar. A liberdade de expressão pressupõe justamente o direito de o cidadão se manifestar.


O problema surge quando o direito de falar é confundido com autoridade para ensinar.


O Brasil já vive uma mudança profunda no consumo de informação


Os números mostram que a discussão deixou de ser apenas cultural. Ela também envolve negócios, jornalismo, política e comportamento.


O Digital News Report 2026, do Reuters Institute for the Study of Journalism, mostra que as redes sociais mantêm uma vantagem de nove pontos percentuais sobre a televisão como fonte semanal de notícias no Brasil. O relatório também registra que 33% dos brasileiros acompanham criadores ou influenciadores que se concentram principalmente em notícias.

O dado ajuda a explicar uma transformação que pode ser percebida no cotidiano. O brasileiro não precisa mais procurar necessariamente um jornal para saber o que aconteceu. A notícia pode aparecer no meio de vídeos de humor, conteúdo esportivo, publicidade, comentários políticos ou receitas.


A informação chega até o usuário.


E, muitas vezes, chega misturada com opinião.


O mesmo relatório aponta que apenas 36% dos brasileiros dizem confiar nas notícias em geral, o menor nível registrado na série de 12 anos analisada pelo instituto. Quase metade, 47%, afirma evitar notícias às vezes ou frequentemente.


Esse ambiente produz uma situação paradoxal: as pessoas nunca tiveram acesso a tanto conteúdo, mas isso não significa que estejam necessariamente mais bem informadas.


A autoridade mudou de lugar


A pesquisa específica do Reuters Institute sobre criadores e influenciadores ajuda a entender a dimensão da mudança. No levantamento publicado em 2025, 54% dos brasileiros disseram consumir notícias pelas redes sociais semanalmente. O Brasil apareceu entre os mercados em que criadores e influenciadores exercem papel especialmente relevante.


O estudo encontrou ainda uma diferença significativa: 33% dos brasileiros pesquisados disseram prestar regularmente atenção a criadores ou influenciadores em redes sociais e plataformas de vídeo quando o assunto é notícia, enquanto 30% disseram prestar atenção regularmente a marcas jornalísticas ou jornalistas nesses ambientes.


Não significa que o influenciador seja necessariamente menos confiável que o jornalista. Há excelentes criadores de conteúdo e jornalistas pouco responsáveis. A questão é outra: o critério de escolha da audiência mudou.


Número de seguidores, carisma, capacidade de comunicação, identificação ideológica e frequência de publicação passaram a pesar tanto quanto — e às vezes mais do que — formação ou experiência profissional.


Um economista com 30 anos de carreira pode explicar uma decisão do Banco Central em dez minutos. Um influenciador pode transformar o mesmo assunto em um vídeo de 40 segundos. O segundo talvez consiga centenas de milhares de visualizações enquanto o primeiro fala para uma audiência muito menor.


A economia digital recompensa atenção.


Nem sempre recompensa conhecimento.


O algoritmo não sabe quem é especialista


Imagine um morador de Curitiba procurando informações sobre investimentos. Ele encontra um profissional certificado, um economista, um jornalista especializado e um influenciador que promete “ficar rico” rapidamente.


Os quatro aparecem na mesma tela.


Para o algoritmo, inicialmente, todos são produtores de conteúdo. O sistema não funciona como uma banca examinadora que verifica diplomas antes de entregar o vídeo ao usuário. A plataforma observa sinais de comportamento: visualizações, comentários, compartilhamentos, tempo de permanência e outras métricas.


Uma explicação técnica pode ser correta e pouco emocionante.


Uma afirmação absurda pode provocar indignação e gerar milhares de comentários.

É aí que a lógica econômica das plataformas encontra a psicologia humana.


O conteúdo que desperta medo, raiva, surpresa ou sensação de descoberta tende a produzir uma reação mais imediata. Não é necessário supor uma conspiração para compreender o fenômeno. Basta observar o funcionamento de um ambiente construído para disputar atenção.


O World Economic Forum colocou desinformação e misinformation entre os principais riscos de curto prazo no Global Risks Report 2025 e apontou que a inteligência artificial generativa reduz os custos para produzir e distribuir conteúdos falsos ou enganosos em escala.


A questão econômica é direta: quanto mais barata fica a produção de conteúdo, maior é a quantidade disponível. E quanto maior o volume, mais difícil se torna separar aquilo que merece atenção daquilo que apenas consegue chamar atenção.


Quando opinião vira autoridade


Um dos sinais mais evidentes dessa mudança aparece na linguagem.


“Eu acho” frequentemente desaparece.


Entra em seu lugar: “A verdade é”.


“Não encontrei nenhuma evidência” transforma-se em “estão escondendo”.

“Não sei” perde espaço para uma resposta definitiva.


Essa postura é particularmente perigosa em assuntos que exigem conhecimento especializado. Saúde, economia, ciência, segurança, direito e política pública não podem ser tratados apenas como disputas de torcida.


A opinião é legítima.


O problema é apresentá-la como fato.


No Brasil, a própria pesquisa do Reuters Institute mostra como o ambiente se tornou fragmentado. As audiências das redes sociais apresentam divisões ideológicas claras, e os usuários tendem a acompanhar diferentes grupos de comentaristas e influenciadores conforme suas posições políticas.


Isso ajuda a explicar uma experiência comum: duas pessoas podem passar o dia inteiro conectadas à internet e terminar a noite com interpretações completamente diferentes sobre os mesmos acontecimentos.


Ambas tiveram acesso a informação.


Mas não necessariamente às mesmas informações.


A democracia não pode ser protegida proibindo as pessoas de falar


É tentador concluir que o problema seria simplesmente retirar a voz de quem publica bobagens. A solução, porém, criaria um problema maior.


Quem decidiria quem pode falar?


O Estado? As plataformas? Os jornais? Especialistas? Universidades? Empresas privadas?

Uma democracia saudável precisa tolerar opiniões erradas, desagradáveis e até absurdas. O cidadão não precisa apresentar currículo para comentar política, criticar um governo ou defender uma ideia.


A resposta democrática não deveria ser o silêncio imposto.


Deveria ser mais informação confiável, mais educação midiática, mais transparência das plataformas e mais capacidade individual de verificar aquilo que chega à tela.


O próprio Reuters Institute encontrou um dado que merece atenção: quando desconfiam de uma informação, os entrevistados dizem recorrer principalmente a veículos de comunicação confiáveis, fontes oficiais e organizações de checagem.


Isso indica que a confiança não desapareceu completamente. Ela está disputada.

O jornalismo profissional continua tendo uma função justamente porque não deveria funcionar apenas como megafone. Seu trabalho é apurar, confrontar versões, identificar documentos, ouvir fontes, verificar números e assumir responsabilidade pelo que publica.

A sociedade precisa desses filtros.


Mas precisa também de leitores dispostos a utilizá-los.


Talvez o problema não sejam os “idiotas”


A frase de Nelson Rodrigues é divertida porque permite apontar para o outro lado da tela e reconhecer imediatamente alguém que parece se encaixar nela.


Só que existe uma armadilha nessa leitura.


Todos nós podemos ser enganados.


Uma pessoa inteligente pode compartilhar uma mentira. Um profissional altamente qualificado pode acreditar em uma informação falsa. Um jornalista pode errar. Um cientista pode interpretar mal um dado. Um político pode repetir uma informação sem verificar.

A diferença está na capacidade de reconhecer o erro e corrigi-lo.


Talvez a questão mais séria da era digital não seja descobrir se os idiotas realmente vão dominar o mundo. É saber se uma sociedade acostumada a premiar velocidade, indignação e popularidade ainda terá disposição para ouvir quem apresenta evidências, admite dúvidas e reconhece limites.


Nelson Rodrigues não viu o celular transformar cada cidadão em potencial emissor de informação. Umberto Eco viu apenas o começo dessa revolução.


Hoje, cada pessoa pode ter uma audiência maior do que a de muitos jornais, rádios e emissoras.


Isso é uma extraordinária conquista da liberdade de comunicação.


Também é uma enorme responsabilidade.


No fim, talvez a profecia não seja sobre a vitória dos ignorantes. Talvez seja sobre algo mais desconfortável: o risco de uma sociedade entregar poder demais a quem fala mais alto, publica mais rápido e pensa menos — enquanto aqueles que poderiam explicar melhor simplesmente desistem de ser ouvidos.


Fontes consultadas


  • Reuters Institute for the Study of Journalism — Digital News Report 2026, Brazil.

  • Reuters Institute for the Study of Journalism — News Creators and Influencers 2025, Brazil.

  • Reuters Institute — How the public checks information it thinks might be wrong, Digital News Report 2025.

  • World Economic Forum — Global Risks Report 2025.

  • Academia Brasileira de Letras — referência à frase atribuída a Nelson Rodrigues.

  • Folha de S.Paulo — referência à frase atribuída a Nelson Rodrigues e ao contexto contemporâneo.

  • Faro Editorial / Google Books — reprodução da frase atribuída a Nelson Rodrigues na apresentação de A Psicologia da Estupidez.

  • UOL/Agência ANSA — registro da declaração de Umberto Eco em Turim, em 2015.


Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

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