Nossa Senhora Aparecida: fé, história e política no Brasil
A história de Nossa Senhora Aparecida revela como religião, identidade nacional e política se cruzam em um Brasil cada vez mais plural.

O 12 de outubro ocupa um lugar singular no calendário brasileiro. É feriado nacional, data dedicada a Nossa Senhora Aparecida e um dos momentos do ano em que religião, cultura e política voltam ao debate público.
A pequena imagem de barro encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, em 1717, tornou-se um dos maiores símbolos do país. Mais de três séculos depois, milhões de pessoas continuam chegando a Aparecida, no interior de São Paulo, enquanto a imagem permanece presente em casas, igrejas, estabelecimentos comerciais e manifestações populares.
Em um país religiosamente mais diverso, uma pergunta ganha relevância: por que Maria é venerada pelos católicos, mas não recebe o mesmo tratamento entre os evangélicos?
A resposta envolve diferenças teológicas, a formação histórica do Brasil e o uso público de símbolos religiosos. Em 2026, a imagem de Nossa Senhora Aparecida voltou a aparecer em uma disputa eleitoral nas redes sociais, mostrando como referências religiosas podem adquirir força política em períodos de eleição.
A história de Nossa Senhora Aparecida
A devoção começou em outubro de 1717, quando os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso foram encarregados de conseguir peixes para uma refeição oferecida ao governador da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, Pedro de Almeida e Portugal, o Conde de Assumar.
A pesca não produzia resultados até que eles encontraram primeiro o corpo de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição e, depois, a cabeça. Segundo a tradição católica, as redes se encheram de peixes após o encontro da imagem. A devoção se espalhou, e a figura passou a ser chamada de Nossa Senhora Aparecida.
A imagem foi solenemente coroada em 1904. Em 16 de julho de 1930, o papa Pio XI assinou o decreto que declarou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Padroeira principal do Brasil. A proclamação solene ocorreu em 31 de maio de 1931, no Rio de Janeiro, então capital federal, em uma grande manifestação com autoridades e uma multidão de fiéis.
A distinção entre o decreto de 1930 e a cerimônia de 1931 é importante, pois as datas costumam ser confundidas.
O reconhecimento como Padroeira não veio da Constituição Federal. A Constituição de 1988 garante a liberdade religiosa e estabelece limites para a atuação do Estado diante das religiões. A condição de Padroeira é uma designação da Igreja Católica, anterior à atual Constituição.
O feriado nacional de 12 de outubro foi instituído pela Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980. A legislação declarou a data feriado nacional, consagrado a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.
Maria para católicos e evangélicos
Dizer que “evangélicos não acreditam em Maria” é incorreto. As principais tradições evangélicas reconhecem Maria como mãe de Jesus e personagem central dos Evangelhos. A diferença está na interpretação de seu papel espiritual.
Para a Igreja Católica, Maria recebe veneração especial, mas não adoração. O Catecismo distingue a veneração dedicada à Virgem da adoração, reservada somente a Deus. A tradição católica também aceita pedir sua intercessão, entendendo que essa prática não substitui a mediação de Cristo.
É daí que vêm expressões como “Nossa Senhora Aparecida”, “Nossa Senhora de Fátima” e “Nossa Senhora de Guadalupe”: diferentes títulos e devoções associados à mesma Maria, mãe de Jesus.
Grande parte das igrejas evangélicas, especialmente as de tradição protestante, não aceita essa prática. A interpretação predominante enfatiza que a oração deve ser dirigida a Deus e que Jesus Cristo é o mediador entre Deus e a humanidade. Por isso, não há culto aos santos nem pedido de intercessão de Maria.
Um católico pode acender uma vela diante de uma imagem de Nossa Senhora e rezar uma Ave-Maria pedindo sua intercessão. Um evangélico de tradição que rejeita a veneração mariana pode considerar essa prática inadequada, por entender que a oração deve ser dirigida diretamente a Deus.
Não se trata apenas de uma preferência por imagens, mas de uma diferença teológica construída ao longo da história do cristianismo.
Religião e laicidade no Brasil
A Constituição de 1988 proíbe que União, estados, Distrito Federal e municípios estabeleçam cultos religiosos ou igrejas, subvencionem-nos ou mantenham com eles relações de dependência ou aliança, ressalvada a colaboração de interesse público.
O Estado brasileiro não possui religião oficial, mas também não proíbe manifestações religiosas. A liberdade de crença e de culto é protegida constitucionalmente.
Assim, a existência de um feriado dedicado a Nossa Senhora Aparecida não transforma o catolicismo em religião oficial. A legislação reconhece uma data de forte tradição histórica e cultural, sem retirar de outras pessoas o direito de professar suas próprias crenças.
O perfil religioso do país também mudou. Segundo o Censo 2022, entre brasileiros de 10 anos ou mais, os católicos representavam 56,7% da população, enquanto os evangélicos chegavam a 26,9%. Em 2010, os percentuais eram de 65% e 21,7%, respectivamente.
Essa transformação ajuda a explicar por que símbolos associados ao catolicismo são hoje observados também sob perspectivas culturais e políticas mais amplas.
Uma referência religiosa e cultural internacional
A devoção a Maria não é exclusividade brasileira. Ela possui grande presença em países de tradição católica e também ocupa lugar relevante em outras tradições cristãs.
No México, Nossa Senhora de Guadalupe é um dos maiores símbolos religiosos e culturais do país. Em Portugal, o Santuário de Fátima recebe peregrinos de diversas partes do mundo. Na França, Lourdes tornou-se um conhecido destino de peregrinação mariana.
Na Argentina, Nossa Senhora de Luján é uma das principais referências religiosas nacionais. Espanha, Itália, Filipinas, Colômbia, Peru, Chile e Polônia também possuem santuários e festas dedicados à Virgem Maria.
As formas de devoção variam conforme a tradição e a cultura local. Em alguns lugares, ela está incorporada às festas populares; em outros, assume sobretudo o caráter de peregrinação ou oração.
Maria é reconhecida por católicos, ortodoxos e outras tradições cristãs, mas sua posição teológica e as formas de veneração variam entre as denominações.
Quando a Padroeira entra na política
A força simbólica de Nossa Senhora Aparecida faz com que sua imagem ultrapasse o espaço estritamente religioso. Em campanhas eleitorais, a presença de candidatos em celebrações, igrejas e santuários pode gerar identificação entre eleitores, mas também críticas quando a religião parece ser usada como instrumento eleitoral.
O assunto ganhou novo capítulo em setembro de 2026, quando circularam nas redes sociais conteúdos associando o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro a um suposto projeto para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. Flávio negou a existência de qualquer proposta nesse sentido, e a CNN verificou que o projeto citado era antigo e havia sido arquivado.
O episódio mostra como uma informação falsa envolvendo uma figura profundamente identificada com a cultura brasileira pode produzir indignação antes mesmo de ser verificada.
A legislação eleitoral estabelece limites para determinadas formas de utilização do poder religioso. O TSE registra que o chamado abuso de poder religioso não constitui atualmente uma modalidade autônoma de abuso prevista na legislação, mas determinadas condutas podem ser enquadradas em outras formas de abuso, conforme as circunstâncias e as provas. Em decisão atualizada em setembro de 2026, o Tribunal reforçou esse entendimento.
Candidatos podem professar sua fé e participar de celebrações religiosas. O problema surge quando estruturas ou símbolos religiosos são usados para desequilibrar uma eleição, pressionar eleitores ou espalhar informações falsas.
Uma imagem que ultrapassou a devoção
A trajetória de Nossa Senhora Aparecida integra a memória coletiva brasileira. Para muitos fiéis, a imagem representa proteção, esperança e pertencimento. Sua presença em lares, festas populares, santuários e manifestações públicas também lhe conferiu um significado cultural mais amplo.
Mesmo pessoas que não seguem a tradição católica reconhecem sua importância histórica e social. Em uma sociedade plural, porém, respeitar a imagem como referência cultural não implica adotar uma crença religiosa nem atribuir ao Estado uma religião oficial.
O Brasil, antes identificado majoritariamente com o catolicismo, tornou-se mais diverso, com o crescimento das igrejas evangélicas, das religiões de matriz africana, do espiritismo, de outras tradições e do número de pessoas sem religião.
Essa mudança não elimina a importância de Nossa Senhora Aparecida, mas amplia as formas de interpretá-la. Para os católicos, ela continua sendo objeto de devoção e intercessão. Para outros brasileiros, pode representar uma referência histórica, cultural ou familiar. Na política, pode ser mobilizada como símbolo de identidade e pertencimento.
Fé, identidade e democracia
A discussão sobre Nossa Senhora Aparecida envolve mais do que religião. Ela trata da maneira como os brasileiros constroem identidades, interpretam símbolos e participam da vida pública.
Em uma democracia, candidatos podem professar sua fé e dialogar com grupos religiosos. O limite aparece quando referências religiosas são usadas para pressionar eleitores, espalhar informações falsas ou criar vantagens indevidas na disputa eleitoral.
O desafio é preservar a liberdade religiosa, a diversidade de crenças e a autonomia das instituições democráticas. Isso exige distinguir manifestação de fé, tradição cultural e instrumentalização política.
No dia 12 de outubro, milhões de pessoas celebram a Padroeira do Brasil. Compreender essa celebração exige reconhecer a força da devoção católica e as diferentes formas como a sociedade brasileira interpreta seus símbolos. É nesse encontro entre tradição, diversidade e vida pública que Nossa Senhora Aparecida continua ocupando um lugar singular na história do país.
Edição: Marcos Paulo Assis
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.


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