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Nossa Senhora Aparecida: fé, história e política no Brasil

há 7 horas
6 min de leitura

A história de Nossa Senhora Aparecida revela como religião, identidade nacional e política se cruzam em um Brasil cada vez mais plural.


Nossa Senhora Aparecida com manto azul e coroa dourada diante do Santuário Nacional, com a bandeira brasileira ao fundo, simbolizando fé, identidade nacional e tradição religiosa.
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

O 12 de outubro ocupa um lugar singular no calendário brasileiro. É feriado nacional, data dedicada a Nossa Senhora Aparecida e um dos momentos do ano em que religião, cultura e política voltam ao debate público.


A pequena imagem de barro encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, em 1717, tornou-se um dos maiores símbolos do país. Mais de três séculos depois, milhões de pessoas continuam chegando a Aparecida, no interior de São Paulo, enquanto a imagem permanece presente em casas, igrejas, estabelecimentos comerciais e manifestações populares.


Em um país religiosamente mais diverso, uma pergunta ganha relevância: por que Maria é venerada pelos católicos, mas não recebe o mesmo tratamento entre os evangélicos?


A resposta envolve diferenças teológicas, a formação histórica do Brasil e o uso público de símbolos religiosos. Em 2026, a imagem de Nossa Senhora Aparecida voltou a aparecer em uma disputa eleitoral nas redes sociais, mostrando como referências religiosas podem adquirir força política em períodos de eleição.


A história de Nossa Senhora Aparecida


A devoção começou em outubro de 1717, quando os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso foram encarregados de conseguir peixes para uma refeição oferecida ao governador da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, Pedro de Almeida e Portugal, o Conde de Assumar.


A pesca não produzia resultados até que eles encontraram primeiro o corpo de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição e, depois, a cabeça. Segundo a tradição católica, as redes se encheram de peixes após o encontro da imagem. A devoção se espalhou, e a figura passou a ser chamada de Nossa Senhora Aparecida.


A imagem foi solenemente coroada em 1904. Em 16 de julho de 1930, o papa Pio XI assinou o decreto que declarou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Padroeira principal do Brasil. A proclamação solene ocorreu em 31 de maio de 1931, no Rio de Janeiro, então capital federal, em uma grande manifestação com autoridades e uma multidão de fiéis.

A distinção entre o decreto de 1930 e a cerimônia de 1931 é importante, pois as datas costumam ser confundidas.


O reconhecimento como Padroeira não veio da Constituição Federal. A Constituição de 1988 garante a liberdade religiosa e estabelece limites para a atuação do Estado diante das religiões. A condição de Padroeira é uma designação da Igreja Católica, anterior à atual Constituição.


O feriado nacional de 12 de outubro foi instituído pela Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980. A legislação declarou a data feriado nacional, consagrado a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.


Maria para católicos e evangélicos


Dizer que “evangélicos não acreditam em Maria” é incorreto. As principais tradições evangélicas reconhecem Maria como mãe de Jesus e personagem central dos Evangelhos. A diferença está na interpretação de seu papel espiritual.


Para a Igreja Católica, Maria recebe veneração especial, mas não adoração. O Catecismo distingue a veneração dedicada à Virgem da adoração, reservada somente a Deus. A tradição católica também aceita pedir sua intercessão, entendendo que essa prática não substitui a mediação de Cristo.


É daí que vêm expressões como “Nossa Senhora Aparecida”, “Nossa Senhora de Fátima” e “Nossa Senhora de Guadalupe”: diferentes títulos e devoções associados à mesma Maria, mãe de Jesus.


Grande parte das igrejas evangélicas, especialmente as de tradição protestante, não aceita essa prática. A interpretação predominante enfatiza que a oração deve ser dirigida a Deus e que Jesus Cristo é o mediador entre Deus e a humanidade. Por isso, não há culto aos santos nem pedido de intercessão de Maria.


Um católico pode acender uma vela diante de uma imagem de Nossa Senhora e rezar uma Ave-Maria pedindo sua intercessão. Um evangélico de tradição que rejeita a veneração mariana pode considerar essa prática inadequada, por entender que a oração deve ser dirigida diretamente a Deus.


Não se trata apenas de uma preferência por imagens, mas de uma diferença teológica construída ao longo da história do cristianismo.


Religião e laicidade no Brasil


A Constituição de 1988 proíbe que União, estados, Distrito Federal e municípios estabeleçam cultos religiosos ou igrejas, subvencionem-nos ou mantenham com eles relações de dependência ou aliança, ressalvada a colaboração de interesse público.

O Estado brasileiro não possui religião oficial, mas também não proíbe manifestações religiosas. A liberdade de crença e de culto é protegida constitucionalmente.


Assim, a existência de um feriado dedicado a Nossa Senhora Aparecida não transforma o catolicismo em religião oficial. A legislação reconhece uma data de forte tradição histórica e cultural, sem retirar de outras pessoas o direito de professar suas próprias crenças.


O perfil religioso do país também mudou. Segundo o Censo 2022, entre brasileiros de 10 anos ou mais, os católicos representavam 56,7% da população, enquanto os evangélicos chegavam a 26,9%. Em 2010, os percentuais eram de 65% e 21,7%, respectivamente.


Essa transformação ajuda a explicar por que símbolos associados ao catolicismo são hoje observados também sob perspectivas culturais e políticas mais amplas.


Uma referência religiosa e cultural internacional


A devoção a Maria não é exclusividade brasileira. Ela possui grande presença em países de tradição católica e também ocupa lugar relevante em outras tradições cristãs.


No México, Nossa Senhora de Guadalupe é um dos maiores símbolos religiosos e culturais do país. Em Portugal, o Santuário de Fátima recebe peregrinos de diversas partes do mundo. Na França, Lourdes tornou-se um conhecido destino de peregrinação mariana.


Na Argentina, Nossa Senhora de Luján é uma das principais referências religiosas nacionais. Espanha, Itália, Filipinas, Colômbia, Peru, Chile e Polônia também possuem santuários e festas dedicados à Virgem Maria.


As formas de devoção variam conforme a tradição e a cultura local. Em alguns lugares, ela está incorporada às festas populares; em outros, assume sobretudo o caráter de peregrinação ou oração.


Maria é reconhecida por católicos, ortodoxos e outras tradições cristãs, mas sua posição teológica e as formas de veneração variam entre as denominações.


Quando a Padroeira entra na política


A força simbólica de Nossa Senhora Aparecida faz com que sua imagem ultrapasse o espaço estritamente religioso. Em campanhas eleitorais, a presença de candidatos em celebrações, igrejas e santuários pode gerar identificação entre eleitores, mas também críticas quando a religião parece ser usada como instrumento eleitoral.


O assunto ganhou novo capítulo em setembro de 2026, quando circularam nas redes sociais conteúdos associando o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro a um suposto projeto para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. Flávio negou a existência de qualquer proposta nesse sentido, e a CNN verificou que o projeto citado era antigo e havia sido arquivado.


O episódio mostra como uma informação falsa envolvendo uma figura profundamente identificada com a cultura brasileira pode produzir indignação antes mesmo de ser verificada.


A legislação eleitoral estabelece limites para determinadas formas de utilização do poder religioso. O TSE registra que o chamado abuso de poder religioso não constitui atualmente uma modalidade autônoma de abuso prevista na legislação, mas determinadas condutas podem ser enquadradas em outras formas de abuso, conforme as circunstâncias e as provas. Em decisão atualizada em setembro de 2026, o Tribunal reforçou esse entendimento.


Candidatos podem professar sua fé e participar de celebrações religiosas. O problema surge quando estruturas ou símbolos religiosos são usados para desequilibrar uma eleição, pressionar eleitores ou espalhar informações falsas.


Uma imagem que ultrapassou a devoção


A trajetória de Nossa Senhora Aparecida integra a memória coletiva brasileira. Para muitos fiéis, a imagem representa proteção, esperança e pertencimento. Sua presença em lares, festas populares, santuários e manifestações públicas também lhe conferiu um significado cultural mais amplo.


Mesmo pessoas que não seguem a tradição católica reconhecem sua importância histórica e social. Em uma sociedade plural, porém, respeitar a imagem como referência cultural não implica adotar uma crença religiosa nem atribuir ao Estado uma religião oficial.


O Brasil, antes identificado majoritariamente com o catolicismo, tornou-se mais diverso, com o crescimento das igrejas evangélicas, das religiões de matriz africana, do espiritismo, de outras tradições e do número de pessoas sem religião.


Essa mudança não elimina a importância de Nossa Senhora Aparecida, mas amplia as formas de interpretá-la. Para os católicos, ela continua sendo objeto de devoção e intercessão. Para outros brasileiros, pode representar uma referência histórica, cultural ou familiar. Na política, pode ser mobilizada como símbolo de identidade e pertencimento.


Fé, identidade e democracia


A discussão sobre Nossa Senhora Aparecida envolve mais do que religião. Ela trata da maneira como os brasileiros constroem identidades, interpretam símbolos e participam da vida pública.


Em uma democracia, candidatos podem professar sua fé e dialogar com grupos religiosos. O limite aparece quando referências religiosas são usadas para pressionar eleitores, espalhar informações falsas ou criar vantagens indevidas na disputa eleitoral.


O desafio é preservar a liberdade religiosa, a diversidade de crenças e a autonomia das instituições democráticas. Isso exige distinguir manifestação de fé, tradição cultural e instrumentalização política.


No dia 12 de outubro, milhões de pessoas celebram a Padroeira do Brasil. Compreender essa celebração exige reconhecer a força da devoção católica e as diferentes formas como a sociedade brasileira interpreta seus símbolos. É nesse encontro entre tradição, diversidade e vida pública que Nossa Senhora Aparecida continua ocupando um lugar singular na história do país.


Edição: Marcos Paulo Assis

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

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