Melhor cerveja do Brasil é do Paraná, mas gigantes dominam as vendas
- Marcos Paulo Assis
- há 2 dias
- 5 min de leitura
Rótulo de Pinhais vence principal concurso nacional enquanto mercado registra 1.954 cervejarias e novas tendências de consumo.

A melhor cerveja do Brasil, segundo o principal concurso nacional realizado em 2026, nasceu no Paraná. A Patanegra Cacacu Wood, produzida em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, conquistou o título de Best of Show do 14º Concurso Brasileiro de Cervejas, superando cerca de 2,7 mil amostras de 175 estilos. A receita combina caju, cajá e cupuaçu e utiliza madeira brasileira no processo de maturação.
O resultado chama atenção porque coloca uma pequena cervejaria paranaense no topo de um mercado dominado por grandes grupos industriais. Ao mesmo tempo em que Brahma, Heineken, Skol, Amstel e Budweiser continuam presentes em milhões de pontos de venda, pequenas fábricas estão criando produtos mais autorais, utilizando frutas brasileiras, madeiras, especiarias e técnicas de produção capazes de transformar a cerveja em uma experiência gastronômica.
A distância entre a cerveja que ganha um concurso e a que mais vende no supermercado ajuda a explicar a transformação do mercado brasileiro.
A melhor cerveja não é necessariamente a mais vendida
A Patanegra Cacacu Wood foi escolhida em uma competição técnica, e não em uma pesquisa de preferência popular. O concurso reuniu 70 jurados brasileiros e estrangeiros, e a cerveja paranaense venceu a etapa Best of Show, destinada aos melhores rótulos da competição. Pela primeira vez, os três primeiros colocados foram cervejas enquadradas em estilos desenvolvidos no Brasil.
A receita vencedora pertence ao estilo Cerveja Ácida com Madeira Brasileira. O uso de caju, cajá e cupuaçu acrescenta uma identidade tropical ao produto, enquanto a passagem por madeira contribui para a complexidade sensorial. O resultado mostra uma tendência que ganhou força entre cervejarias independentes: em vez de simplesmente reproduzir estilos tradicionais europeus, produtores brasileiros passaram a explorar ingredientes e referências locais.
É uma diferença fundamental para entender o mercado. Uma cerveja pode ser tecnicamente premiada por sua complexidade, equilíbrio e originalidade, enquanto outra pode vender milhões de litros porque está disponível em praticamente qualquer supermercado, restaurante, estádio ou bar.
Preço, distribuição, publicidade e hábito de consumo pesam tanto quanto sabor na escolha cotidiana.
As dez marcas mais consumidas pelos brasileiros
Não existe, em 2026, uma base pública única que permita montar um ranking definitivo das dez cervejas mais vendidas no país em litros. Os números de mercado das grandes companhias são divulgados de maneira agregada e as metodologias das pesquisas de consumo são diferentes.
Um levantamento da Brazil Panels, divulgado pela IstoÉ e reproduzido pelo iFood, apresenta as dez marcas com maior percentual de consumidores que declararam consumi-las. Por isso, os números abaixo não representam participação de mercado nem percentual do volume nacional vendido.
Posição | Marca | Percentual no levantamento |
1º | Brahma | 43,1% |
2º | Heineken | 40,6% |
3º | Skol | 36,6% |
4º | Amstel | 33,2% |
5º | Budweiser | 28,8% |
6º | Antarctica | 27,6% |
7º | Itaipava | 26,5% |
8º | Stella Artois | 18,0% |
9º | Petra | 16,7% |
10º | Original | 16,4% |
A lista revela uma característica interessante do mercado brasileiro: as marcas tradicionais continuam extremamente fortes, mas existe uma disputa cada vez mais evidente entre cervejas de entrada e produtos posicionados em faixas superiores de preço.
A Heineken, por exemplo, ocupa uma posição particularmente relevante porque conseguiu transformar uma marca internacional em referência para uma parcela do consumidor brasileiro que procura cervejas percebidas como mais premium. Brahma e Skol, entretanto, continuam associadas a ocasiões de consumo de grande escala, como churrascos, festas e encontros informais.
O levantamento também mostra que não existe uma única cerveja capaz de representar o gosto nacional. O consumidor escolhe de acordo com ocasião, preço, disponibilidade e preferência pessoal.
O mercado chegou a 1.954 cervejarias
O tamanho da indústria ajuda a colocar essa diversidade em perspectiva. Segundo o Anuário da Cerveja 2026, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária com dados referentes a 2025, o Brasil encerrou o ano com 1.954 cervejarias registradas. Foi o maior número da série histórica, embora o crescimento anual tenha sido de apenas 0,3%, o menor desde o início da série analisada.
O mesmo levantamento aponta que a produção brasileira chegou a 15,6 bilhões de litros em 2025, uma redução de 8,85% em relação ao ano anterior. A queda da produção não significa necessariamente uma crise de consumo, mas mostra que o setor passou a enfrentar um ambiente mais competitivo e maduro.
A concentração continua sendo uma característica marcante. Pouco mais de 1% das cervejarias respondeu por mais de 40% do volume produzido em 2025, enquanto 5% das empresas concentraram pouco mais de 98% da produção nacional. Ao mesmo tempo, centenas de pequenos estabelecimentos trabalham com escalas muito menores e apostam em nichos regionais ou produtos diferenciados.
É justamente nessa faixa que a cerveja artesanal encontra seu espaço.
Pequenas fábricas não precisam ganhar em volume
Para uma cervejaria independente, disputar diretamente com gigantes nacionais seria uma batalha difícil. Uma fábrica pequena não consegue competir em distribuição, publicidade ou escala industrial, mas pode disputar outro território: identidade.
Uma cervejaria de Curitiba, Pinhais, Londrina ou qualquer outra cidade paranaense pode criar uma receita que dialogue com os ingredientes e hábitos da região. Pode produzir um lote limitado, vender diretamente ao consumidor, participar de festivais e transformar a própria fábrica em destino turístico.
O fenômeno também movimenta uma cadeia econômica que vai além da bebida. São empregos, bares especializados, restaurantes, distribuidores, eventos, fornecedores de equipamentos, produtores de ingredientes e profissionais de análise sensorial.
A conquista da Patanegra reforça essa possibilidade. O prêmio nacional não veio de uma marca construída para produzir milhões de litros, mas de uma cervejaria que conseguiu transformar ingredientes brasileiros em argumento competitivo.
O consumidor também está mudando
As mudanças não aparecem apenas nas cervejas artesanais. O próprio perfil dos produtos industriais está se diversificando, especialmente com o crescimento das categorias sem álcool, de baixo teor alcoólico e sem glúten.
O Anuário da Cerveja 2026 registrou um salto expressivo na produção de cerveja sem glúten. O volume passou de aproximadamente 71 milhões de litros em 2024 para 367,9 milhões de litros em 2025, crescimento de 417,68%.
A mudança acompanha situações cada vez mais comuns. O consumidor pode querer tomar uma cerveja no almoço sem consumir álcool, dirigir depois de um encontro ou simplesmente alternar uma bebida alcoólica com outra de menor teor ou sem álcool.
Há também uma transformação cultural. O brasileiro que antes encontrava poucas opções em uma geladeira de supermercado hoje pode escolher entre dezenas de estilos, preços e propostas. A cerveja deixou de ser apenas uma bebida associada ao calor e ao churrasco e passou a ocupar espaços na gastronomia, nos eventos culturais e no turismo.
O futuro pode estar entre a lata popular e a garrafa premiada
O mercado brasileiro de cerveja parece caminhar para uma convivência cada vez maior entre dois modelos. De um lado, estão as marcas de grande escala, que continuarão responsáveis pela maior parte do volume consumido e têm como vantagens preço, distribuição e reconhecimento.
Do outro, estão as cervejarias independentes, que encontram oportunidades justamente onde a escala industrial não é suficiente: sabores incomuns, produção limitada, identidade regional e relacionamento direto com o consumidor.
A história da Patanegra Cacacu Wood sintetiza esse movimento. Uma cerveja produzida em Pinhais, com frutas brasileiras e madeira nacional, chegou ao topo de uma competição que reuniu milhares de amostras. Ao mesmo tempo, no bar da esquina e na churrasqueira de domingo, as marcas tradicionais continuam sendo as escolhas mais frequentes de milhões de brasileiros.
A pergunta sobre qual é a melhor cerveja do Brasil, portanto, talvez não tenha uma única resposta. Para o jurado, pode ser a receita mais equilibrada e original. Para o consumidor, pode ser aquela que chega gelada à mesa pelo preço que cabe no bolso. Para uma pequena cervejaria, talvez seja simplesmente aquela capaz de conquistar o primeiro cliente e fazê-lo voltar.
No fim, a grande transformação está justamente aí: o Brasil continua bebendo cerveja em enorme escala, mas agora existe uma variedade muito maior de histórias, sabores e produtores disputando espaço no mesmo copo.
Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.



Comentários