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Lombrigas ainda existem? O que aconteceu com os remédios antigos

Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
Marcos Paulo Assis
há 11 horas
6 min de leitura

Abrol, Sadol e óleo de fígado de bacalhau fizeram parte da infância de gerações. Hoje, diagnóstico, saneamento e tratamentos específicos mudaram essa rotina.


Charge mostra antigos remédios contra verminoses ao lado de hábitos modernos de higiene, saneamento e diagnóstico.
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

Quem passou a infância algumas décadas atrás provavelmente conhece a cena: bastava alguém falar em “lombriga” para aparecer uma colher, um vidro de remédio e uma recomendação que parecia fazer parte do calendário familiar. Havia o vermífugo para os parasitas, o fortificante para a criança “fraca” e, para os mais corajosos, a colherada de óleo de fígado de bacalhau — cujo gosto permanece na memória de muita gente.


O Vermífugo Abrol, o Sadol e o óleo de fígado de bacalhau pertencem a uma época em que a farmácia doméstica ocupava um espaço muito maior na rotina das famílias. Mas uma pergunta permanece atual: as lombrigas desapareceram ou apenas deixaram de fazer parte do cotidiano de quem vive nas cidades?


A resposta é direta: elas não desapareceram. A diferença é que as condições que favoreciam sua transmissão diminuíram em boa parte do país, enquanto diagnóstico, prevenção e tratamento das parasitoses ficaram mais específicos.


Os números do Ministério da Saúde mostram que a ascaridíase, causada pelo Ascaris lumbricoides, continua presente no Brasil. No último inquérito nacional disponível sobre geo-helmintíases, realizado entre 2010 e 2015, foram examinados 197.564 escolares. A prevalência registrada foi de 6% para ascaridíase, 5,41% para tricuriase e 2,73% para ancilostomíase.


O Abrol e a época em que vermífugo era quase rotina


Uma consulta ao acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional mostra como os vermífugos ocupavam espaço significativo na publicidade farmacêutica brasileira. Em uma edição de O Combate, de 26 de março de 1925, aparece um anúncio do Vermífugo Abrol, descrito como preparado “à base de óleo de abóbora” e anunciado com a promessa de “expulsão completa de todos os vermes”. O fabricante indicado era o laboratório Dr. Hottinger — “Salus”.


A publicidade revela mais do que a existência de um medicamento antigo. Mostra uma sociedade em que as parasitoses intestinais faziam parte das preocupações domésticas e comerciais da época.


O problema não era simplesmente “falta de remédio”. Os parasitas encontravam condições favoráveis para completar seu ciclo em ambientes onde faltavam água segura, instalações sanitárias adequadas e hábitos de higiene hoje considerados básicos.


No caso do Ascaris lumbricoides, os ovos podem ser ingeridos por meio de água não tratada, alimentos crus mal lavados ou mãos contaminadas. O Ministério da Saúde também relaciona a transmissão à falta de lavagem das mãos depois do uso do banheiro e antes da alimentação.


Isso ajuda a explicar por que a lembrança da “época das lombrigas” está tão associada à infância de gerações que cresceram em condições sanitárias muito diferentes das atuais.


Elas diminuíram, mas continuam por aqui


A impressão de que as lombrigas desapareceram é compreensível para quem vive em áreas urbanas com melhores condições de saneamento. O Censo 2022 mostrou que 82,9% da população brasileira tinha a rede geral de distribuição como principal fonte de abastecimento de água, enquanto 62,5% da população vivia em domicílios atendidos por coleta de esgoto. Quando se acrescentam as fossas sépticas ou fossas-filtro não ligadas à rede, consideradas solução adequada pelo Plano Nacional de Saneamento Básico, o percentual chegava a 75,7%.


O avanço, entretanto, não ocorreu de maneira uniforme. O próprio Ministério da Saúde identifica as geo-helmintíases principalmente em áreas rurais e periferias urbanas e associa sua ocorrência à ausência de saneamento e à pobreza.


Por isso, dizer que “acabaram as lombrigas” seria uma conclusão errada. Elas se tornaram menos presentes na experiência cotidiana de parcelas da população, mas continuam sendo um problema de saúde pública.


E existe uma diferença fundamental entre uma criança que vive em uma região com água tratada, banheiro e coleta de esgoto e outra que cresce em uma comunidade sem infraestrutura adequada. O parasita é o mesmo; as oportunidades de transmissão são diferentes.


O oxiúro continua sendo um problema de criança


Se a lombriga ficou menos visível, o oxiúro — causado pelo Enterobius vermicularis — continua encontrando um ambiente bastante favorável dentro das próprias casas.

A característica mais conhecida é a coceira na região anal, geralmente mais intensa à noite. Isso acontece porque as fêmeas do parasita migram para a região perianal para depositar os ovos. A criança se coça, os ovos podem ficar nas mãos e sob as unhas e voltar à boca ou alcançar objetos compartilhados pela família.


É justamente por esse ciclo que a enterobíase pode atingir várias pessoas de uma mesma residência. O diagnóstico também mudou pouco em sua lógica: quando há suspeita, um dos métodos utilizados é a fita adesiva, aplicada na região perianal para posterior análise laboratorial. O exame convencional de fezes pode apresentar baixa positividade para esse parasita.


A existência do oxiúro desmonta uma ideia comum: a de que uma casa limpa está automaticamente protegida contra verminoses. Higiene reduz o risco, mas algumas parasitoses possuem mecanismos eficientes de transmissão entre pessoas que vivem juntas.


Do “fortificante” à nutrição baseada em diagnóstico


Os antigos remédios contam outra história. Nem todos eram vermífugos. Alguns faziam parte da cultura dos fortificantes, produtos utilizados quando uma criança parecia magra, cansada, sem apetite ou simplesmente “sem força”.


O Sadol se tornou um dos nomes mais conhecidos dessa categoria. A própria Catarinense Pharma informa que desenvolveu o produto em 1946 e registra campanhas de comunicação que ajudaram a transformar a marca em um produto conhecido nacionalmente.


Aqui também ocorreu uma transformação importante. A versão atual do Sadol comercializada pela empresa é apresentada como fonte de ferro, com indicação relacionada à ingestão desse mineral. A empresa informa ainda que algumas apresentações atuais são classificadas como alimento notificado à Anvisa, e não como medicamento.

A mudança representa uma transformação maior na própria ideia de “fortificante”. Uma criança com cansaço, anemia, baixo peso ou dificuldade de crescimento não é tratada simplesmente com um produto genérico para “dar força”. A medicina atual procura identificar a causa e verificar se existe deficiência nutricional ou outra condição que explique o quadro.


O mesmo raciocínio ajuda a compreender o famoso óleo de fígado de bacalhau. Ele fornecia nutrientes como vitaminas A e D e esteve associado historicamente à suplementação nutricional. Hoje, entretanto, vitaminas e minerais são utilizados de maneira muito mais orientada, levando em conta necessidade, dose e risco de excesso.


O que substituiu aquela velha farmácia doméstica?


Não houve um único substituto para os remédios que desapareceram das casas. O que mudou foi o modelo de cuidado.


As verminoses passaram a ser encaradas dentro de um conjunto que envolve saneamento, higiene, diagnóstico e medicamentos específicos. Para as geo-helmintíases, o Ministério da Saúde indica tratamento medicamentoso, tendo o albendazol entre as opções utilizadas.

A medicina também abandonou, progressivamente, a ideia de que qualquer sintoma justificaria o mesmo remédio. Automedicação pode mascarar doenças e provocar efeitos adversos; a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde recomenda que diagnóstico e tratamento sejam definidos por profissionais habilitados.


O que desapareceu, portanto, não foi a necessidade de combater parasitas. Desapareceu, em grande medida, a ideia de que toda criança deveria passar periodicamente pelo mesmo ritual de vermífugo, fortificante ou suplemento sem que houvesse uma avaliação específica.

E existe ainda uma mudança silenciosa, talvez mais importante: o saneamento passou a ser entendido como parte da medicina preventiva.


Quando uma família recebe água segura, dispõe de banheiro adequado e consegue destinar corretamente seus dejetos, reduz-se a possibilidade de transmissão de uma série de doenças. O Censo 2022 mostra que o país avançou, mas também deixa claro que a universalização ainda não foi alcançada.


A história dos antigos remédios, portanto, não é apenas uma história de nostalgia. É também uma pequena história do Brasil: da colher de vermífugo ao diagnóstico laboratorial, do fortificante genérico à avaliação nutricional, da preocupação com a lombriga à discussão sobre saneamento.


Quem viveu aquela infância talvez ainda se lembre do gosto do óleo de fígado de bacalhau, da cor do vidro do remédio ou da insistência da mãe para tomar “só mais uma colher”.


As lombrigas continuam existindo. Os oxiúros também. O que mudou foi a maneira de enxergá-los — e talvez essa seja a parte mais interessante dessa história: quando um problema deixa de ser comum na nossa casa, não significa necessariamente que deixou de existir no país. Às vezes, significa apenas que a sociedade aprendeu a criar melhores condições para mantê-lo longe.


Edição: Marcos Paulo Assis

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.


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