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Jaime Lerner e as obras que transformaram Curitiba

  • Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
    Marcos Paulo Assis
  • há 21 horas
  • 7 min de leitura

BRT, Rua XV, parques e novos símbolos urbanos fizeram de Curitiba um laboratório de urbanismo, mas também provocaram críticas.


Ilustração de Jaime Lerner diante do BRT, Rua XV, Jardim Botânico e Ópera de Arame em Curitiba
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

Poucos prefeitos brasileiros deixaram uma marca tão visível na cidade que administraram quanto Jaime Lerner. Arquiteto e urbanista, ele assumiu a Prefeitura de Curitiba em 1971 e encontrou condições políticas e técnicas para colocar em prática um projeto que vinha sendo construído desde os anos 1960. Nas ruas, a transformação apareceu rapidamente: carros foram retirados da Rua XV, ônibus ganharam corredores exclusivos, áreas sujeitas a enchentes começaram a ser convertidas em parques e edifícios históricos passaram a receber nova função.


O resultado foi uma cidade que passou a ser observada por especialistas estrangeiros, prefeitos e urbanistas. O modelo curitibano de transporte coletivo ganhou escala internacional e o planejamento urbano tornou-se uma espécie de marca registrada da capital paranaense. Mas a história de Lerner não pode ser resumida a uma coleção de soluções geniais. A mesma administração que produziu obras admiradas internacionalmente também foi marcada por decisões centralizadas, forte comunicação institucional e problemas urbanos que a imagem de “cidade-modelo” nem sempre revelava.


Lerner foi prefeito em três períodos: 1971-1974, 1979-1983 e 1989-1992. Entre os mandatos, a Prefeitura foi comandada por outros nomes, mas muitas das diretrizes implantadas na primeira gestão tiveram continuidade.


O urbanista que chegou à Prefeitura com um plano pronto


Antes de ser prefeito, Lerner já era uma figura central no planejamento de Curitiba. Ele participou da equipe que trabalhou na elaboração do Plano Diretor aprovado em 1966 e esteve ligado à criação e estruturação do IPPUC. O objetivo era abandonar o crescimento predominantemente radial e organizar a expansão urbana em eixos estruturais, combinando transporte, zoneamento e ocupação do solo.


Essa informação é fundamental para compreender sua administração. A transformação de Curitiba não começou simplesmente com a posse de Lerner. Havia um projeto técnico anterior, desenvolvido por uma equipe de arquitetos, urbanistas e engenheiros. O diferencial de Lerner foi assumir o comando político da cidade e acelerar a execução de várias dessas ideias.


A primeira grande demonstração dessa estratégia ocorreu em maio de 1972, quando a Rua XV de Novembro foi fechada ao trânsito de veículos. O chamado calçadão da Rua das Flores tornou-se a primeira grande via exclusivamente para pedestres do Brasil. A intervenção provocou resistência de comerciantes e motoristas, mas acabou incorporada ao cotidiano da cidade e se transformou em um dos seus símbolos mais conhecidos.


A mudança tinha um significado maior do que simplesmente criar uma área para caminhar. Lerner estava testando uma nova relação entre circulação, comércio e espaço público. O centro deixava de ser território prioritariamente dos automóveis para se tornar também lugar de permanência, encontro e convivência.


O BRT foi a invenção que Curitiba exportou para o mundo


A obra mais influente de Lerner talvez nem seja uma construção física. É o sistema de transporte que transformou a maneira de pensar o deslocamento coletivo em grandes cidades.


Em 22 de setembro de 1974, Curitiba inaugurou o sistema de ônibus Expresso no eixo Norte-Sul. A primeira etapa tinha cerca de 20 quilômetros de corredores exclusivos, as chamadas canaletas, por onde circulavam ônibus de maior capacidade. O projeto estava integrado ao sistema trinário de vias, no qual o corredor de transporte ficava entre pistas destinadas ao tráfego convencional.


A inovação não estava apenas no ônibus. O verdadeiro conceito era combinar transporte coletivo e planejamento urbano. Os eixos estruturais receberam maior concentração de comércio, serviços e moradias, aproximando a ocupação urbana da infraestrutura de transporte. O ônibus deixava de ser apenas um meio para levar passageiros de um bairro ao centro e passava a organizar o crescimento da própria cidade.


Foi essa combinação que fez o modelo ganhar o mundo. O sistema curitibano tornou-se referência para o conceito de Bus Rapid Transit, o BRT, posteriormente implantado ou adaptado em diferentes cidades. A Prefeitura afirma que o modelo curitibano se tornou uma das experiências de transporte mais influentes internacionalmente.


Cinco décadas depois, o legado continua presente. Os corredores exclusivos ainda concentram aproximadamente 65% dos passageiros do transporte coletivo de Curitiba, segundo a Prefeitura. O sistema, entretanto, também enfrenta um desafio criado pelo próprio sucesso: uma estrutura concebida para outra escala de cidade precisa responder hoje a uma metrópole maior, mais congestionada e integrada a municípios vizinhos.


Parques, reciclagem e uma nova imagem ambiental


Lerner também ajudou a mudar a relação de Curitiba com rios e áreas sujeitas a alagamentos. Em vez de tentar ocupar esses terrenos ou resolver os problemas apenas com obras de canalização, a cidade passou a utilizar determinadas áreas como parques capazes de cumprir funções ambientais e oferecer lazer.


O Parque São Lourenço foi implantado em 1972, depois de problemas relacionados ao rompimento da represa do Rio Belém. O Parque Barigui, também criado na primeira gestão de Lerner, tornou-se posteriormente um dos espaços de lazer mais conhecidos da cidade.


A estratégia ganhou força nos anos seguintes. A política ambiental passou a incluir áreas verdes, programas de reciclagem e ações de educação ambiental. O programa Lixo que Não é Lixo tornou-se uma das iniciativas mais conhecidas, enquanto o Compra do Lixo utilizava a troca de resíduos por benefícios para alcançar regiões onde a coleta convencional encontrava dificuldades de acesso. Estudos sobre a trajetória ambiental de Curitiba registram que os programas receberam reconhecimento internacional, inclusive do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.


Esse conjunto ajudou a construir outra imagem poderosa: Curitiba como capital ecológica. O conceito ultrapassou as fronteiras do Paraná e contribuiu para a reputação internacional da cidade.


Jardim Botânico, Ópera de Arame e a Curitiba dos cartões-postais


Foi no terceiro mandato, entre 1989 e 1992, que a administração Lerner assumiu uma característica mais marcadamente visual. A cidade passou a receber equipamentos que rapidamente se transformaram em símbolos turísticos.


O Jardim Botânico, inaugurado em 1991, tornou-se um dos cartões-postais mais conhecidos de Curitiba. A estufa metálica e os jardins geométricos transformaram uma área urbana em um dos espaços mais fotografados da capital.


No ano seguinte surgiu a Ópera de Arame, instalada em uma antiga área de pedreira. Sua estrutura tubular e transparente criou um equipamento cultural de forte impacto arquitetônico. Inaugurado em 1992, o espaço tem capacidade atual informada pela Prefeitura de 1.572 espectadores e integra o complexo que inclui a Pedreira Paulo Leminski.


A chamada Rua 24 Horas, também inaugurada em 1991, completou esse movimento de criação de novos símbolos urbanos. A proposta combinava comércio e convivência em uma galeria coberta que funcionaria continuamente. Embora o conceito original tenha mudado ao longo do tempo, a obra tornou-se parte da memória urbana de Curitiba.


Esses projetos ajudaram a produzir uma mudança importante na percepção externa da cidade. Curitiba não era mais conhecida apenas como uma capital planejada; passou a ser associada a determinadas imagens: ônibus coloridos, estações, áreas verdes, calçadões, estufas e estruturas arquitetônicas incomuns.


O lado controverso da “cidade-modelo”


A mesma transformação que projetou Curitiba internacionalmente produziu uma crítica recorrente: a cidade-modelo seria uma representação incompleta da realidade.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo identificaram uma lacuna importante na construção dessa imagem. A dissertação de Aline Figueiredo de Albuquerque sobre a questão habitacional aponta que o discurso da cidade-modelo frequentemente deixou em segundo plano os problemas de moradia e a desigualdade socioespacial.


Estudos sobre a política de intervenção em favelas também apontam mudanças na terceira administração de Lerner, com redução de processos de regularização fundiária e alterações no papel dos instrumentos municipais voltados à habitação popular. A pesquisa relaciona esse período ao fortalecimento de estratégias de city marketing, que buscavam consolidar internacionalmente uma identidade positiva para Curitiba.


Outra crítica veio da própria academia ao analisar a transformação da política urbana na década de 1990. Um estudo publicado nos Anais do Museu Paulista observa que a terceira gestão teria deslocado parte da ênfase do planejamento urbano para realizações de caráter estético e ambiental, justamente aquelas que produziram forte repercussão nacional e internacional.


Isso não significa que as obras fossem apenas propaganda. Elas continuam funcionando e fazem parte da infraestrutura, da cultura e da identidade da capital. O ponto levantado pelos pesquisadores é outro: uma cidade não pode ser avaliada somente pelos espaços que aparecem nos cartões-postais.


Essa discussão ajuda a compreender por que o legado Lerner permanece tão dividido. Para seus admiradores, ele demonstrou que criatividade, planejamento e decisões rápidas poderiam produzir resultados concretos sem depender exclusivamente de grandes obras de infraestrutura. Para os críticos, sua experiência também mostra os riscos de uma visão urbana fortemente conduzida por especialistas, na qual a imagem de sucesso pode esconder conflitos sociais menos visíveis.


Um legado que ainda influencia Curitiba


Jaime Lerner morreu em 2021, aos 83 anos, mas muitas das decisões tomadas sob sua liderança continuam presentes no cotidiano curitibano. Quem utiliza uma canaleta, caminha pela Rua XV, leva uma criança ao Barigui, visita o Jardim Botânico ou assiste a um espetáculo na Ópera de Arame está, de alguma maneira, circulando por uma cidade moldada por aquele período.


Seu reconhecimento internacional foi expressivo. Entre os prêmios associados à sua trajetória estão o Scroll of Honour do Habitat das Nações Unidas, em 1991, e reconhecimentos relacionados a transporte e meio ambiente. Lerner também presidiu a União Internacional dos Arquitetos entre 2002 e 2003.


O desafio de avaliar sua administração hoje é evitar tanto a idolatria quanto o apagamento das conquistas. Lerner não criou sozinho a Curitiba planejada, tampouco resolveu todos os problemas da cidade. Ele liderou politicamente um processo coletivo de planejamento e teve a capacidade incomum de transformar conceitos urbanísticos em intervenções que alteraram comportamentos.


Essa talvez seja sua maior contribuição: mostrar que uma cidade pode ser redesenhada não apenas com concreto e grandes estruturas, mas também mudando a prioridade de uma rua, a trajetória de um ônibus, o uso de uma área alagável ou a forma como o cidadão separa o lixo dentro de casa.


A Curitiba de hoje, entretanto, já não é aquela dos anos 1970. A região metropolitana cresceu, a mobilidade ficou mais complexa, a desigualdade socioespacial continua sendo um desafio e as questões climáticas ganharam uma dimensão que o planejamento daquela época não poderia prever.


Por isso, a pergunta mais interessante sobre Jaime Lerner talvez não seja se ele estava certo ou errado. É saber se Curitiba ainda possui a capacidade política, técnica e criativa de fazer hoje aquilo que Lerner fez no passado: desafiar hábitos consolidados, testar soluções antes que se tornem consensos e transformar planejamento urbano em experiência concreta para quem vive na cidade.


Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

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