Eleição no Paraná: bastidores revelam disputa pelo poder
- Marcos Paulo Assis
- há 15 minutos
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Pesquisas divergentes, alianças e disputas pelo Senado mostram que o eleitor paranaense ainda pode mudar completamente o cenário eleitoral.

A campanha eleitoral começou oficialmente no Paraná, mas os partidos ainda estão longe de ter resolvido a principal equação desta eleição: como transformar alianças, estruturas partidárias e nomes conhecidos em votos suficientes para controlar o Palácio Iguaçu e conquistar as duas cadeiras do Senado que estarão em disputa. As pesquisas mais recentes colocam Sergio Moro na dianteira, mas também mostram que existe uma parcela expressiva do eleitorado ainda pouco mobilizada e, portanto, potencialmente decisiva.
O encerramento do prazo para registro das candidaturas ajudou a colocar alguma ordem no tabuleiro. O Tribunal Regional Eleitoral do Paraná recebeu 1.063 pedidos de registro, sendo oito para governador, nove para senador, 414 para deputado federal e 606 para deputado estadual. Mais de 8,6 milhões de eleitores estão aptos a votar no primeiro turno, marcado para 4 de outubro. A propaganda eleitoral começou em 16 de agosto e o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão terá início em 28 de agosto.
Moro começa na frente, mas a eleição ainda está longe de definida
Sergio Moro chega à campanha oficial com vantagem nas pesquisas, embora a dimensão dessa vantagem varie bastante de acordo com o instituto. Levantamento do Paraná Pesquisas realizado entre 13 e 16 de agosto apontou o senador com 46,1% das intenções de voto, seguido por Requião Filho, com 23,4%, e Sandro Alex, com 16,5%. Já a RealTime Big Data, em pesquisa feita entre 13 e 17 de agosto, registrou Moro com 37%, Sandro com 22% e Requião Filho com 20%.
A diferença entre os dois levantamentos não deve ser utilizada para escolher artificialmente qual pesquisa “está certa”. Institutos diferentes utilizam metodologias, amostras e questionários próprios, e pequenas diferenças na coleta podem alterar o resultado. O dado mais consistente é a liderança de Moro, mas também é preciso considerar que a campanha oficial apenas começou e que uma parcela relevante dos eleitores ainda não consolidou sua escolha.
Na pesquisa RealTime, por exemplo, 53% dos entrevistados não souberam ou não quiseram indicar espontaneamente um candidato. Esse número ajuda a dimensionar o grau de volatilidade da eleição. O candidato que aparece na frente agora pode estar em vantagem, mas ainda terá de enfrentar semanas de exposição, debates, propaganda eleitoral, ataques dos adversários e comparação direta de propostas.
Sandro Alex enfrenta o desafio de transformar estrutura em votos
A candidatura de Sandro Alex representa um teste importante para o grupo político que governa o Paraná. O deputado federal conta com uma estrutura partidária ampla e tem Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba, como candidato a vice. A composição oferece à chapa presença política na capital e forte articulação com lideranças municipais, especialmente no interior.
O problema é que uma estrutura política robusta não garante automaticamente desempenho eleitoral. A vantagem administrativa de estar associado ao grupo que governa o Estado pode ajudar na organização territorial e na exposição, mas também transforma a candidatura em alvo natural para a oposição. Cada problema do governo, cada promessa não cumprida e cada desgaste administrativo poderá ser apresentado pelos adversários como responsabilidade do grupo que busca permanecer no poder.
Os números atuais mostram justamente essa dificuldade. Sandro aparece em segundo lugar na RealTime, mas em terceiro na Paraná Pesquisas. A distância em relação a Moro ainda é significativa e, mais importante, a campanha precisará encontrar uma forma de apresentar continuidade sem transmitir acomodação.
A entrada de Rafael Greca na chapa tem papel estratégico nesse movimento. O ex-prefeito acrescenta experiência política, reconhecimento na capital e uma trajetória própria, mas também passa a dividir com Sandro parte da responsabilidade pela mensagem eleitoral. O resultado dessa combinação será um dos pontos mais interessantes para acompanhar nas próximas semanas.
A ambiguidade nacional pode virar problema estadual
Outro desafio de Sandro Alex está na relação entre a eleição paranaense e a disputa presidencial. Em sabatina promovida por UOL e Folha, o candidato declarou apoio a Ronaldo Caiado, do PSD, mas também admitiu uma postura que permite aproximação com setores ligados a Flávio Bolsonaro em determinadas circunstâncias.
A estratégia pode ser compreendida como uma tentativa de manter portas abertas em um eleitorado politicamente fragmentado. O risco, porém, é conhecido: quando uma candidatura tenta conversar simultaneamente com grupos políticos muito diferentes, pode ampliar sua capacidade de negociação ou transmitir a impressão de que evita assumir uma posição clara.
No Paraná, essa questão tem peso maior do que em muitos outros estados. A polarização nacional continua influenciando o comportamento eleitoral e pode atingir diretamente a disputa pelo governo. Sandro terá de administrar o relacionamento com o eleitorado mais conservador sem perder o apoio de setores moderados e das forças políticas que sustentam sua candidatura.
Requião Filho tenta ocupar o espaço da oposição
Requião Filho aparece como a terceira força relevante na corrida e representa uma candidatura de oposição mais claramente identificada com o campo político tradicionalmente associado ao grupo Requião. Sua presença impede que a disputa seja reduzida a uma polarização direta entre Moro e o grupo governista.
Na Paraná Pesquisas, Requião Filho alcançou 23,4%, quase sete pontos acima de Sandro Alex. Na RealTime, apareceu com 20%, apenas dois pontos abaixo do candidato do PSD. A estabilidade relativa de seu desempenho indica que existe um eleitorado disposto a apoiar uma alternativa de oposição ao atual grupo político.
O principal obstáculo está na rejeição. Na Paraná Pesquisas, Requião Filho apresentou 36,3%, o maior índice entre os candidatos avaliados. Esse dado não significa que sua candidatura esteja limitada, mas mostra que o crescimento terá de ocorrer sem ampliar ainda mais a resistência ao seu nome.
Para chegar ao segundo turno em condições competitivas, Requião Filho precisará não apenas conquistar novos eleitores, mas também convencer uma parcela daqueles que hoje rejeitam sua candidatura. Em uma disputa de segundo turno, essa capacidade de ampliar alianças e reduzir resistências pode ser tão importante quanto o desempenho no primeiro turno.
Senado tem cenário mais imprevisível
A disputa pelas duas vagas ao Senado pode produzir uma das maiores surpresas da eleição. O eleitor paranaense escolherá dois nomes, e a fragmentação atual torna arriscada qualquer previsão antecipada.
A Paraná Pesquisas colocou Deltan Dallagnol em primeiro, com 34%, seguido por Alexandre Curi, com 29,6%, Gleisi Hoffmann, com 28,1%, e Filipe Barros, com 26%. Cristina Graeml apareceu com 17,2%. Em outro levantamento, realizado pela RealTime Big Data, Dallagnol registrou 19%, Curi e Filipe Barros tiveram 17% e Gleisi marcou 15%.
A distância entre as pesquisas é suficientemente grande para mostrar que a disputa está aberta. Em vez de procurar um “favorito definitivo”, o eleitor deveria observar quais candidatos apresentam crescimento consistente em diferentes levantamentos e, principalmente, quais conseguem ampliar seu eleitorado para além de seus grupos políticos tradicionais.
A eleição para o Senado tem uma característica que pode produzir combinações inesperadas. Um eleitor pode votar em um candidato identificado com determinado campo político para uma das vagas e escolher um nome de outro grupo para a segunda cadeira. Isso torna possível que candidatos aparentemente adversários compartilhem parte do mesmo eleitorado.
A disputa pelo Senado já ficou mais agressiva
A corrida entre Dallagnol e Alexandre Curi também mostra como a campanha tende a abandonar rapidamente a fase de apresentação dos nomes para entrar no terreno da disputa política direta. Um exemplo foi a discussão em torno dos slogans “Menos Brasília, mais Paraná”, associado a Curi, e “Mais Paraná, menos Brasília”, utilizado por Dallagnol.
Isoladamente, a disputa semântica parece pequena, mas revela uma competição maior pela identidade política. Ambos tentam ocupar o discurso de defesa dos interesses do Paraná diante de Brasília, uma mensagem que pode encontrar forte receptividade entre eleitores interessados em mais autonomia política e recursos para o Estado.
O ponto que merece atenção jornalística é outro: a disputa eleitoral não pode transformar críticas políticas em acusações factuais sem comprovação. O histórico de cada candidato pode e deve ser investigado, mas fatos, investigações, arquivamentos e condenações precisam ser apresentados de maneira rigorosamente diferente.
Esse cuidado será especialmente necessário nas redes sociais, onde uma acusação pode circular milhares de vezes antes que o eleitor tenha acesso à informação completa.
A campanha agora será testada pelas propostas
Com o horário eleitoral começando na próxima semana, os candidatos terão uma oportunidade concreta de apresentar suas propostas. Também será o momento em que o eleitor poderá comparar programas e cobrar números, prazos e fontes de financiamento.
Essa talvez seja a principal cobrança que deveria orientar a cobertura da eleição. Prometer hospitais, estradas, escolas, segurança, redução de impostos ou novos investimentos é relativamente simples. O desafio está em explicar quanto cada proposta custará, de onde virão os recursos, qual será o prazo de execução e quais despesas precisarão ser reduzidas ou reorganizadas.
O Paraná possui uma economia diversificada, forte setor agropecuário, indústria relevante, grandes cidades e profundas diferenças regionais. Uma política pública que funciona para Curitiba pode não resolver o problema de um município pequeno do Centro-Sul ou do Norte Pioneiro. O próximo governador terá de administrar essas diferenças sem perder de vista o equilíbrio das contas públicas.
Essa discussão deveria ocupar espaço central na campanha, porque a eleição não escolherá apenas uma figura política. Escolherá quem terá a responsabilidade de administrar bilhões de reais, definir prioridades de investimento e conduzir políticas que afetam diretamente a vida cotidiana da população.
Redes sociais serão campo de batalha
A internet deverá ser outro componente decisivo da eleição. Vídeos curtos, cortes de entrevistas, memes, transmissões ao vivo e conteúdos produzidos por apoiadores podem alcançar públicos que dificilmente acompanham programas eleitorais tradicionais.
O mesmo mecanismo, entretanto, facilita a circulação de informações falsas ou descontextualizadas. Uma declaração antiga pode ser apresentada como atual, uma crítica pode ser transformada em acusação e um trecho de entrevista pode perder completamente o sentido quando retirado do contexto original.
Nesse ambiente, a responsabilidade não é apenas dos candidatos. A imprensa precisa verificar informações antes de reproduzi-las, e o eleitor precisa desconfiar de conteúdos que oferecem respostas fáceis para problemas complexos. A disputa democrática depende justamente dessa capacidade de distinguir crítica legítima de manipulação.
O verdadeiro jogo começa agora
Os bastidores desta semana apontam para uma eleição que ainda está aberta. Sergio Moro parte na frente nas pesquisas, mas sua vantagem terá de ser testada quando os adversários ampliarem sua exposição. Sandro Alex dispõe de uma estrutura política poderosa, porém precisa transformar apoio partidário em intenção de voto. Requião Filho mantém uma base competitiva, mas precisa reduzir sua rejeição para crescer.
No Senado, a incerteza é ainda maior. Dallagnol, Alexandre Curi, Gleisi Hoffmann e Filipe Barros aparecem próximos em diferentes levantamentos, enquanto outros nomes ainda podem ganhar espaço com o início da propaganda eleitoral. A existência de duas vagas torna a estratégia de alianças e a capacidade de conquistar uma segunda preferência particularmente relevantes.
A pergunta mais interessante, neste momento, não é quem venceria se a eleição fosse realizada hoje. A pergunta é quem terá capacidade de crescer nas próximas semanas sem destruir a própria rejeição, quem conseguirá ampliar sua imagem para além da bolha política e quem apresentará propostas capazes de sobreviver ao teste dos números.
O Paraná ainda não escolheu. Os partidos montaram seus palanques, os candidatos começaram a pedir votos e as máquinas eleitorais entraram em funcionamento. Agora começa a fase em que cada discurso, promessa, contradição e decisão poderá ser cobrada pelo eleitor.
É nessa passagem dos bastidores para a vida real que uma eleição deixa de ser apenas uma disputa entre políticos e passa a dizer respeito diretamente ao futuro do Estado.
Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.


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