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Por que Curitiba tem tantos prédios com nomes em inglês

Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
Marcos Paulo Assis
há 11 horas
7 min de leitura

De residenciais a espaços de negócios, palavras em inglês ajudam a vender uma imagem de sofisticação, modernidade e conexão global.


Edifícios modernos de Curitiba com nomes em inglês representando a influência internacional na arquitetura e no mercado imobiliário
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

Quem circula por bairros valorizados de Curitiba começa a perceber uma curiosidade que vai além da arquitetura: muitos dos novos empreendimentos parecem ter sido batizados para funcionar em qualquer grande cidade do mundo. Residence, Square, Tower, View, Prime, Garden, Upper e Skyline aparecem em fachadas, anúncios imobiliários e materiais de divulgação, criando uma paisagem em que o inglês passou a dividir espaço com os tradicionais nomes de ruas, famílias e referências locais.


A prática não é exclusividade de Curitiba e tampouco surgiu recentemente. Ela faz parte de uma estratégia de marketing utilizada em diferentes segmentos no Brasil e no exterior para associar produtos a conceitos como sofisticação, exclusividade, modernidade e padrão internacional. Na capital paranaense, porém, essa linguagem encontra um ambiente particularmente favorável, em uma cidade cuja imagem foi construída em torno de planejamento urbano, inovação, qualidade de vida e uma certa vocação cosmopolita.


Não há levantamento estatístico confiável que permita afirmar que Curitiba seja a cidade brasileira com maior concentração de edifícios com nomes em inglês. A percepção de que a presença dessas marcas é especialmente forte pode ser observada, sobretudo, nos lançamentos imobiliários de médio e alto padrão e nos novos espaços comerciais. O nome, nesses casos, deixou de ser apenas uma identificação e passou a fazer parte do próprio produto.


O inglês antes mesmo de o comprador conhecer o imóvel


No mercado imobiliário, a venda começa muito antes da visita ao apartamento decorado. Ela começa no anúncio, na fotografia da fachada, no vídeo de apresentação e, muitas vezes, em uma palavra escolhida para aparecer em letras grandes no topo de um edifício. O nome precisa transmitir rapidamente uma ideia sobre o empreendimento e ajudar o consumidor a posicioná-lo mentalmente dentro de uma determinada faixa de preço e estilo de vida.


Um estudo publicado na Brazilian Business Review analisou o efeito do uso de nomes estrangeiros sobre a percepção das marcas e encontrou resultados favoráveis em indicadores relacionados ao valor da marca, à imagem associada ao produto e à disposição do consumidor para pagar um preço premium. A pesquisa ajuda a explicar por que palavras estrangeiras continuam sendo utilizadas como recurso de diferenciação em diversos setores do mercado brasileiro.


Imagine dois empreendimentos com características semelhantes. Um se chama “Residencial Jardim das Flores”; outro, “Jardim das Flores Residence”. A metragem, a localização e os materiais de construção não mudam por causa do nome, mas a percepção pode mudar. “Residence” acrescenta ao segundo empreendimento uma camada simbólica de sofisticação e internacionalização que interessa especialmente a marcas que desejam se posicionar em segmentos de maior valor.


O mesmo mecanismo aparece em palavras como “Prime”, “Tower”, “View” e “Garden”. Mesmo quando o consumidor não domina o inglês, muitas dessas expressões já foram incorporadas ao vocabulário cotidiano da publicidade brasileira. Elas funcionam menos como tradução literal e mais como sinais de uma determinada atmosfera.


Curitiba e a construção de uma identidade internacional


A escolha dos nomes também conversa com a maneira como Curitiba passou a ser percebida dentro e fora do Brasil. A cidade construiu parte significativa de sua reputação a partir de experiências de planejamento urbano iniciadas na segunda metade do século 20, especialmente com a integração entre uso do solo, sistema viário e transporte coletivo.


O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), criado em 1965, tornou-se um dos símbolos dessa trajetória. A própria instituição apresenta como parte do legado curitibano elementos como os eixos estruturais, o transporte integrado, os parques urbanos e o planejamento territorial. Essa história contribuiu para associar a capital paranaense a uma imagem de cidade planejada e inovadora.


Essa reputação não significa que os curitibanos tenham, comprovadamente, uma preferência maior por palavras estrangeiras. A relação é mais indireta. Uma cidade que há muito tempo é apresentada como moderna, organizada e conectada a experiências internacionais oferece um terreno fértil para marcas que desejam transmitir exatamente essas características.


O nome de um empreendimento, portanto, pode funcionar como uma extensão da imagem da própria cidade. O endereço continua sendo Curitiba, mas a marca procura sugerir que o morador está adquirindo um estilo de vida alinhado a referências encontradas em grandes centros urbanos internacionais.


Da tecnologia para a paisagem urbana


Existe ainda outro elemento que ajuda a explicar a presença do inglês: a transformação de Curitiba em um polo relevante de tecnologia, empreendedorismo e inovação. O ecossistema conhecido como Vale do Pinhão aproximou startups, empresas, universidades, investidores e poder público, incorporando ao cotidiano da cidade um vocabulário que nasceu principalmente no ambiente internacional dos negócios e da tecnologia.


Palavras como startup, hub, coworking, networking, pitch e business deixaram de aparecer apenas em documentos de empresas multinacionais. Elas passaram a fazer parte de eventos, espaços de trabalho, programas de empreendedorismo e iniciativas voltadas à inovação. O fenômeno também influencia a maneira como novos negócios são apresentados ao público.


O Pinhão Hub é um exemplo concreto dessa transformação. Inaugurado no Rebouças pela Prefeitura de Curitiba, o espaço foi criado para aproximar diferentes integrantes do ecossistema de inovação e reúne áreas de trabalho, salas de reunião, auditório e estúdio de podcast. O próprio termo “hub”, utilizado oficialmente no nome do espaço, pertence ao vocabulário internacional da economia digital.


A linguagem acaba transbordando para outros segmentos. Se uma empresa de tecnologia fala em hub e networking, um empreendimento imobiliário pode falar em lifestyle, experience, business center ou premium. São setores diferentes utilizando o mesmo repertório para transmitir uma ideia semelhante: conexão com tendências globais.


Quando o nome também vende status


O aspecto mais interessante do fenômeno talvez esteja na dimensão social. Um nome em inglês não informa apenas o que existe dentro de um prédio; ele também pode sugerir quem deveria se interessar por aquele prédio. Termos associados a luxo, exclusividade e internacionalização ajudam a construir uma fronteira simbólica entre produtos destinados a públicos diferentes.


Isso pode ser percebido especialmente em empreendimentos de alto padrão, nos quais o nome costuma aparecer acompanhado de conceitos como experiência, exclusividade, privacidade, wellness, tecnologia e serviços personalizados. A arquitetura contemporânea completa a narrativa com fachadas envidraçadas, grandes áreas comuns, paisagismo sofisticado e ambientes destinados a trabalho, lazer e convivência.


O consumidor, naturalmente, pode interpretar essa estratégia de maneiras distintas. Para alguns, o inglês acrescenta charme, modernidade e uma sensação de pertencimento a um universo internacional. Para outros, o recurso parece artificial ou desnecessário, sobretudo quando uma palavra estrangeira é usada apenas para fazer parecer sofisticado aquilo que poderia ser apresentado de maneira simples em português.


Essa diferença de percepção revela justamente a força do nome como ferramenta de marketing. Uma marca não precisa agradar a todos; precisa ser reconhecida pelo público que pretende alcançar.


Batel Square e a marca como parte da arquitetura


O Batel Square oferece um exemplo de como a escolha do nome pode estar integrada ao conceito de um empreendimento. O projeto se apresenta como um complexo multiuso de alto padrão no Batel, reunindo propostas relacionadas a negócios, saúde, bem-estar, cultura, eventos e lazer. A palavra “Square” ajuda a construir a ideia de um espaço urbano de convivência e conexão.


A escolha é significativa porque o nome não funciona sozinho. Ele está associado à localização, à arquitetura, ao público-alvo e à maneira como o empreendimento é apresentado. A marca passa a ser parte da experiência imaginada antes mesmo de o consumidor entrar no edifício.


Esse mecanismo é semelhante ao utilizado por hotéis, restaurantes, centros comerciais e marcas de moda. O produto precisa possuir uma identidade reconhecível e, em um mercado cada vez mais competitivo, essa identidade começa muitas vezes por uma palavra.


No setor imobiliário, o efeito é ainda mais evidente porque o empreendimento não vende apenas um objeto. Ele vende uma promessa de vida naquele lugar, uma expectativa de vizinhança, segurança, conforto, prestígio e valorização patrimonial.


Uma cidade brasileira com vocabulário global

A proliferação de nomes estrangeiros pode ser vista, portanto, como parte de uma transformação mais ampla da paisagem urbana. A globalização do consumo, a profissionalização do branding, a influência da tecnologia e a disputa cada vez maior pela atenção do consumidor fizeram com que a linguagem das marcas passasse a ocupar um espaço importante na própria identidade das cidades.


Curitiba apenas participa de um movimento que também aparece em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e outras capitais. A diferença é que, na capital paranaense, essa linguagem encontra uma cidade que há muito tempo cultiva uma imagem de planejamento, inovação e qualidade de vida, o que torna a associação com referências internacionais particularmente conveniente para o mercado.


Não se trata de dizer que um prédio com nome em português seria mais autêntico ou que um empreendimento com nome inglês seria necessariamente elitista. O fenômeno é mais complexo. O idioma escolhido revela uma estratégia de posicionamento e, ao mesmo tempo, ajuda a contar a história de uma sociedade que consome cada vez mais produtos e experiências concebidos dentro de uma cultura global.


A questão que fica é urbana e cultural. Curitiba preservará seus nomes, símbolos e referências locais enquanto incorpora cada vez mais marcas globais às suas fachadas? Ou chegará um momento em que a própria paisagem da cidade parecerá uma vitrine internacional, na qual quase qualquer empreendimento poderia estar em Curitiba, Miami, Londres ou Toronto?


Talvez o mais curioso seja perceber que essa transformação não acontece apenas nos grandes edifícios. Ela está nas placas, nos cafés, nos escritórios, nas academias, nos espaços de trabalho e nas novas marcas que surgem todos os dias. A cidade continua sendo profundamente curitibana, mas seu vocabulário comercial parece falar cada vez mais a língua do mundo.


Fontes: Brazilian Business Review; Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc); Prefeitura de Curitiba e Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação; Pinhão Hub; Batel Square.


Edição: Marcos Paulo Assis

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.


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