Crianças desaprenderam a brincar? O que muda na infância na era das telas
- Editor Paranashop

- há 2 dias
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A presença das telas na rotina de crianças e adolescentes se tornou parte do cotidiano, mas o acesso cada vez mais precoce à internet reacende uma discussão entre famílias e educadores: o tempo conectado pode estar ocupando o espaço das brincadeiras livres, da convivência presencial e de experiências importantes para o desenvolvimento infantil.

Dados mais recentes da TIC Kids Online Brasil 2025, produzida pelo Cetic.br/NIC.br, mostram que 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos haviam utilizado a internet nos três meses anteriores à pesquisa. O início do contato também ocorre cedo: 28% dos usuários dessa faixa etária relataram ter acessado a internet pela primeira vez até os seis anos de idade.
A edição de 2024 da mesma pesquisa ajuda a dimensionar a presença das plataformas digitais na rotina dos jovens. Naquele levantamento, 83% dos usuários de internet de 9 a 17 anos possuíam perfil próprio em pelo menos uma plataforma digital. O estudo também identificou uso intenso de aplicativos como WhatsApp, Instagram, YouTube e TikTok ao longo do dia.
Brincar livre exige criação, negociação e convivência
Para Esther Cristina Pereira, psicopedagoga da Escola Atuação, o problema não está na tecnologia em si, mas no que deixa de acontecer quando as telas passam a ocupar grande parte do tempo livre. Segundo ela, atividades estruturadas por aplicativos e vídeos oferecem estímulos prontos, enquanto o brincar livre exige que a criança imagine, crie, negocie regras e lide com situações que não estão previamente definidas.
“Quando a criança tem acesso constante a estímulos prontos, pode ter menos oportunidades para criar, imaginar e decidir como ocupar o próprio tempo. No brincar livre, ela precisa construir possibilidades, negociar regras, interagir com outras crianças e lidar com situações que não estão previamente determinadas. Essas experiências contribuem para o desenvolvimento da autonomia e das habilidades sociais”, explica Esther.
A especialista também chama atenção para o valor dos momentos de tédio. Na ausência de uma atividade pronta ou de uma tela disponível, a criança precisa encontrar outras possibilidades para ocupar o tempo. Esse processo pode favorecer criatividade, autonomia, movimento e interação com outras pessoas.
Quanto tempo de tela é recomendado?
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar a exposição a telas para crianças de zero a dois anos. Entre dois e cinco anos, a orientação é limitar o uso a cerca de meia hora a uma hora por dia, sempre com supervisão. Para crianças de seis a dez anos, a indicação é de uma a duas horas diárias. Entre 11 e 18 anos, o limite recomendado fica entre duas e três horas por dia, sem virar a noite diante das telas.
Além da quantidade de horas, a entidade reforça que famílias devem observar o tipo de conteúdo acessado, acompanhar o uso da internet e evitar que as telas substituam sono, atividade física, refeições em família, estudo, brincadeiras e convivência presencial.
Escola aposta no resgate de brincadeiras tradicionais
Na Escola Atuação, em Curitiba, uma das estratégias adotadas para ampliar as experiências presenciais é o projeto “Brincadeira da Semana”. A iniciativa resgata brincadeiras tradicionais e propõe atividades que incentivam interação, criação de regras, resolução de situações e convivência em grupo.
“O objetivo não é tratar a tecnologia como algo negativo, mas garantir que ela não seja a única opção de entretenimento. As crianças precisam também de oportunidades para brincar, criar, conversar e interagir presencialmente”, destaca Esther.
A discussão, portanto, não passa por eliminar a tecnologia da infância. O desafio está em construir uma rotina equilibrada, na qual recursos digitais convivam com experiências fundamentais para o desenvolvimento físico, emocional e social. Para famílias e escolas, isso significa ampliar oportunidades de movimento, contato com outras crianças, criatividade e participação em atividades fora das telas.
Fontes
TIC Kids Online Brasil 2024 e 2025 — Cetic.br/NIC.br; Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP); Escola Atuação.



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