As 10 casas mais antigas de Curitiba e suas histórias
- Marcos Paulo Assis
- há 11 horas
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Das construções do século XVIII aos casarões do fim do Império, imóveis históricos revelam como Curitiba morava, trabalhava e crescia.

Curitiba guarda, em meio a ruas movimentadas e edifícios modernos, algumas das poucas casas capazes de transportar o visitante para uma cidade em que carroças dividiam espaço com cavalos, os quintais eram extensos e muitas famílias produziam parte do que consumiam. A mais antiga construção residencial preservada da capital remonta ao século XVIII, mas há também imóveis do século XIX que sobreviveram à urbanização e hoje ajudam a explicar a formação econômica e social da cidade.
A pesquisa do Paranashop, atualizada em 13 de agosto de 2026, encontrou um problema que merece ser explicado antes de qualquer ranking: não existe uma lista oficial das dez casas residenciais mais antigas de Curitiba, em ordem cronológica. Algumas construções têm apenas o século ou a década estimada, enquanto outras possuem ano preciso de construção. Por isso, a relação abaixo reúne dez dos mais antigos imóveis de caráter residencial ou originalmente ligados à moradia encontrados em registros de patrimônio, priorizando edificações ainda existentes.
Também é necessário separar “tombado” de “Unidade de Interesse de Preservação (UIP)”. O tombamento pode ser estadual, municipal ou federal; a UIP é uma categoria de proteção municipal. As duas situações impõem restrições, mas também podem oferecer mecanismos de compensação econômica.
10 casas e casarões que ajudam a contar a história de Curitiba
1. Casa Romário Martins — século XVIII
Localizada no Largo da Ordem, a Casa Romário Martins é considerada pela Prefeitura o último exemplar da arquitetura colonial portuguesa no Centro de Curitiba. A data exata não é conhecida, mas os registros oficiais situam sua construção no século XVIII. Originalmente, a edificação de pedra serviu como moradia e casa de comércio.
A residência acabou transformada em açougue e armazém de secos e molhados, até ser desapropriada pelo município em 1970. A Prefeitura incorporou o imóvel ao patrimônio municipal, restaurou a construção e, desde 1973, utiliza o espaço para atividades culturais. O proprietário atual é, portanto, o Município de Curitiba.
2. Casa do Burro Brabo — cerca de 1860
No Bacacheri está uma das testemunhas mais curiosas da antiga Curitiba rural. A Casa do Burro Brabo foi construída pela família Neyman, em trecho da antiga Estrada da Graciosa, para funcionar como depósito e estalagem de tropeiros e comerciantes. A documentação patrimonial apresenta uma pequena divergência: uma ficha registra a construção “por volta de 1860”, enquanto o histórico detalhado situa a edificação na década de 1870.
O imóvel chegou a funcionar como armazém, pousada e, posteriormente, como espaço associado à boemia noturna. O nome nasceu dos animais deixados pelos viajantes nos arredores da casa. O registro estadual consultado aponta como proprietário particular a OCA Engenharia e Empreendimentos Ltda. A casa é tombada pelo Paraná desde 1992.
3. Casa de Cristiano Osternack — 1870
Nas Mercês, a casa da Rua Solimões é um dos exemplos mais claros de como residência e atividade econômica se misturavam na Curitiba do século XIX. O imigrante alemão Cristiano Osternack, que chegou ao Brasil em 1847 e posteriormente se estabeleceu na capital paranaense, construiu o imóvel em 1870, próximo à sua olaria.
A construção tem um pavimento e sótão, com paredes de pedra e tijolos que provavelmente saíram da própria olaria de Osternack. O bem é tombado pelo Estado desde 1979. A ficha oficial consultada registra como proprietária Frieda Osternack, mas essa informação cadastral não deve ser tratada como confirmação de titularidade imobiliária atual em 2026 sem consulta ao Registro de Imóveis.
4. Palacete Wolf — cerca de 1880
O Palacete Wolf, na Praça Garibaldi, é um caso que exige cuidado. A família austríaca Wolf obteve o terreno em 1875 e há registros de uma construção anterior no local. O palacete que conhecemos hoje é geralmente datado de 1880 e associado à família Wolf, especialmente Joseph e Fredolin Wolf.
A família não parece ter planejado o imóvel prioritariamente como residência permanente. O prédio foi utilizado para reuniões, aluguel e diversas atividades, incluindo quartel do Exército, escola, Câmara e Prefeitura. Na década de 1970 chegou a abrigar várias famílias em condições precárias, antes de ser desapropriado pelo município em 1974. Atualmente pertence à Prefeitura de Curitiba e abriga estrutura municipal de turismo.
5. Solar do Barão — 1885
O Solar do Barão é uma das construções mais emblemáticas da elite curitibana do século XIX. A ficha do Patrimônio Cultural do Paraná registra a construção em 1885, pelos engenheiros italianos Ângelo Vendramin e Batista Casagrande, para Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul.
Durante o período em que a família viveu no imóvel, os salões receberam personagens da política e da economia paranaenses. A casa deixou de ser residência após a morte do Barão e passou a ter uso militar. Restaurado pela Prefeitura, o conjunto tornou-se espaço cultural e atualmente pertence ao Município de Curitiba.
6. Casa Culpi — 1887
Em Santa Felicidade, a Casa Culpi mostra outra face da história curitibana: a imigração italiana. Giovanni Baptista Culpi construiu a casa em 1887, e o imóvel funcionou como residência familiar e armazém de secos e molhados. Tornou-se também ponto de encontro da comunidade italiana.
A propriedade foi adquirida pelo município e restaurada. Hoje abriga a Escola de Gastronomia Social Casa Culpi, transformando uma antiga residência de imigrantes em equipamento de formação profissional e preservação cultural.
7. Casa Hoffmann — 1890
Construída pela família Hoffmann em 1890, a residência representa a prosperidade dos imigrantes austríacos ligados à atividade têxtil. A família viveu ali até 1974, quando o imóvel passou a ser alugado e sofreu alterações. Em 1996, um incêndio destruiu grande parte da construção, restando as paredes externas e a fachada.
O imóvel foi posteriormente restaurado e, desde 2003, funciona como Centro de Estudos do Movimento, ligado à Fundação Cultural de Curitiba. A ficha consultada não apresenta uma titularidade imobiliária atual detalhada; por isso, a reportagem não atribui a propriedade a uma pessoa ou empresa sem confirmação documental.
8. Casa Emílio Romani — segunda metade do século XIX
A Casa Emílio Romani, na Praça Eufrásio Correia, é uma das construções mais difíceis de colocar em ordem cronológica. O Patrimônio Cultural do Paraná informa apenas que sua construção ocorreu na segunda metade do século XIX. O nome vem do italiano Emílio Romani, que adquiriu a propriedade em 1898.
O sobrado está diretamente ligado à transformação provocada pela chegada da ferrovia e aos novos padrões arquitetônicos trazidos por imigrantes alemães, italianos e poloneses. O imóvel é tombado pelo Estado desde 1978. A ficha patrimonial consultada registra propriedade particular vinculada à ADAPAR S/A – Administração e Participações.
9. Casa Klemtz — 1896
A Casa Klemtz, na Fazendinha, foi construída em 1896 para os imigrantes alemães Franz Klemtz e Bertha Ristow. A propriedade reunia residência, olaria, criação de gado leiteiro, cavalos e pomar, mostrando como antigas chácaras produtivas acabaram incorporadas à cidade.
A família permaneceu no imóvel até 1994, quando a Prefeitura adquiriu a propriedade após a morte de Maria Klemtz Rose, última descendente dos proprietários originais. Atualmente, o imóvel pertence ao Município de Curitiba e abriga atividades da Escola Pública de Trânsito.
10. Casa Veiga, atual Solar da Glória — 1896
Construída em 1896 pelo ervateiro Bernardo Augusto da Veiga, a Casa Veiga nasceu com dupla função: residência e escritório ligado ao engenho de erva-mate da família. A partir de 1924, passou a ser residência de Gabriel da Veiga, filho de Bernardo, que permaneceu no endereço até 1999.
O imóvel foi restaurado pelos empresários Acir e Juçara Gulin e posteriormente doado ao município. Em 2024, passou a funcionar como Solar da Glória, espaço cultural administrado pelo Instituto Curitiba de Arte e Cultura. Atualmente, portanto, pertence à Prefeitura de Curitiba.
Como era viver em uma Curitiba de casas, quintais e lampiões
Morar em uma dessas casas significava viver em uma cidade que pouco lembrava a Curitiba atual. Em meados do século XIX, as ruas eram marcadas por casas térreas, quintais e caminhos utilizados por pessoas a pé, a cavalo e em carros de boi. A própria Rua XV de Novembro, hoje uma das áreas mais movimentadas da cidade, era conhecida como Rua das Flores e só mais tarde ganhou pavimentação, iluminação a gás e importância comercial.
Dentro das casas, a rotina era igualmente distante da atual. Não havia água encanada disponível como hoje, os deslocamentos eram demorados e a relação entre residência e trabalho era muito mais próxima. A Casa Culpi tinha comércio; a Casa Osternack ficava junto à olaria; a Casa Veiga estava ligada ao negócio de erva-mate; e a Casa do Burro Brabo recebia viajantes.
Essas construções mostram, portanto, uma cidade em que a residência podia ser simultaneamente moradia, comércio, escritório, armazém ou ponto de encontro. A separação rígida entre “casa” e “local de trabalho”, comum na cidade contemporânea, ainda não era regra.
Tombamento: proteção patrimonial ou perda econômica?
Para quem possui um imóvel histórico, a preservação pode representar uma restrição econômica. A impossibilidade de demolir, modificar livremente a fachada ou utilizar todo o potencial construtivo do terreno pode reduzir alternativas de exploração imobiliária, especialmente em áreas valorizadas.
Curitiba criou mecanismos para diminuir esse conflito. Proprietários de Unidades de Interesse de Preservação podem obter redução ou até isenção de IPTU, dependendo das condições de conservação do imóvel. Também existe a possibilidade de utilização ou transferência do potencial construtivo, conforme as regras municipais.
Na prática, isso significa que o proprietário pode transformar parte do direito de construir que não consegue utilizar no imóvel protegido em recurso financeiro. A Prefeitura informa ainda que o potencial construtivo de uma UIP pode ser renovado periodicamente e que os mecanismos podem ajudar a financiar novas etapas de restauro.
Há, porém, uma questão econômica que permanece: o incentivo compensa integralmente o custo de manutenção de uma casa centenária? A resposta depende do tamanho do imóvel, localização, estado de conservação, possibilidade de uso comercial e valor do terreno. Uma casa histórica em uma área valorizada pode ter grande potencial turístico e comercial; outra, em situação de abandono, pode transformar-se em um passivo para a família proprietária.
O modelo mais interessante parece ser aquele que combina preservação com uso. A Casa Culpi virou escola de gastronomia, o Solar da Glória tornou-se espaço cultural e o Casarão dos Parolin foi restaurado e transformado em memorial. A experiência demonstra que preservar não precisa significar congelar um imóvel no tempo.
A proposta do Paranashop: QR Code em todas as casas tombadas
O Paranashop propõe uma medida simples para aproximar o patrimônio da população: instalar um QR Code visível e padronizado em todas as casas e edificações históricas tombadas ou reconhecidas como UIP em Curitiba.
Ao apontar o celular para a placa, o visitante poderia acessar uma página oficial com o ano de construção, nome do construtor, antigos moradores, fotografias históricas, mudanças de uso, informações sobre o tombamento, curiosidades e localização. O sistema poderia incluir também uma linha do tempo mostrando a transformação do imóvel e da própria cidade.
A ideia dialoga diretamente com o interesse que Curitiba demonstra por sua memória. O grupo Antigamente em Curitiba, criado no Facebook em 2014 pelo colecionador Paulo José da Costa, tornou-se um grande espaço de compartilhamento de fotografias, documentos e relatos sobre a cidade. Uma reportagem da revista Haus registrava mais de 19 mil integrantes já em 2016.
Esse tipo de acervo ajuda a revelar algo que uma fachada sozinha não consegue contar. Uma fotografia antiga pode mostrar a rua antes do asfalto, a árvore que desapareceu, a família que viveu no imóvel ou o comércio que ocupava uma casa hoje transformada em espaço cultural.
O QR Code poderia ser mais do que uma placa turística. Poderia funcionar como uma espécie de certidão pública da memória urbana, aproximando patrimônio, tecnologia, turismo, educação e história.
O que essas casas dizem sobre Curitiba
As dez construções analisadas mostram uma cidade formada por diferentes ondas de ocupação: o período colonial, os tropeiros, a imigração europeia, as olarias, o comércio, a erva-mate, a ferrovia e a transformação das antigas chácaras em áreas urbanas.
Também mostram que patrimônio não é apenas uma questão de arquitetura. Cada imóvel carrega uma história de famílias, trabalho, riqueza, conflitos, mudanças de uso e decisões públicas sobre o que merece sobreviver.
Curitiba conseguiu preservar parte desse acervo, mas ainda existe uma distância entre ter uma casa histórica e fazer com que a população conheça sua história. Uma fachada preservada sem informação pode virar apenas cenário. Uma casa histórica bem explicada pode transformar uma caminhada pela cidade em uma aula de história.
A pergunta que fica é justamente essa: quantas histórias ainda estão escondidas atrás das paredes antigas de Curitiba — e quantas delas poderiam voltar a fazer parte da vida cotidiana da cidade?
Nota de checagem editorial: a pesquisa confirmou que não há base oficial que permita afirmar, sem ressalvas, um “ranking definitivo das dez casas mais antigas de Curitiba”. Por isso, a reportagem usa a formulação “dez das mais antigas”, registra datas aproximadas quando a documentação diverge e evita apresentar como proprietário atual uma pessoa ou empresa quando a ficha patrimonial disponível não permite confirmar a titularidade em 2026.
Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.



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