Câncer em jovens: por que estão crescendo os casos antes dos 50 anos?
- Marcos Paulo Assis, editor — com apoio de IA
- há 5 horas
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Diagnósticos em adultos considerados jovens estão se multiplicando globalmente — e tudo indica que hábitos de estilo de vida são os principais fatores por trás desse aumento
Por Bruno Bucis, da Agência Einstein

Os índices de câncer em pessoas jovens sobem a cada ano, e essa guinada tem colocado em xeque o fator de risco “idade” quando se pensa na prevenção da doença. Embora a literatura científica ainda indique que a maioria dos tumores é mais incidente na população acima dos 50 anos, essa fronteira temporal parece estar se desmanchando.
O aumento de casos antes da quinta década de vida já é notado no Brasil. O Painel Oncologia BR, ferramenta do Ministério da Saúde, mostra um crescimento expressivo de diagnósticos em adultos, especialmente naqueles entre 40 e 50 anos. De 2013 a 2025, o número de pacientes oncológicos triplicou no país, segundo a plataforma. Na população de 40 a 44 anos, os casos saltaram de 10.171 para 33.412 nesse período. Na faixa etária de 45 a 49 anos, o crescimento também foi significativo: de 15.213 para 39.906 casos em pouco mais de uma década.
Esse crescimento é registrado também em outros países. Um estudo publicado em abril na revista BMJ Oncology analisou a população inglesa entre 2001 e 2019 e descobriu que a incidência de 11 tipos de câncer tem aumentado em média entre 1% e 4% ao ano em adultos com menos de 50 anos. O câncer colorretal teve o maior aumento proporcional: ocorria em menos de uma pessoa (0,9) a cada 100 mil e agora se manifesta em 1,6 a cada 100 mil.
Outro trabalho publicado no BMJ Oncology, esse em 2023, analisou 29 tipos de câncer em 204 países e identificou crescimento de 79% na incidência da doença em pessoas com menos de 50 anos, entre 1990 e 2019. No mesmo período, as mortes relacionadas ao câncer antes dessa idade aumentaram 28%. Tumores de mama, pulmão, estômago e colorretal (intestino) são os que causam mais mortes nessa faixa etária, segundo a investigação.
Para especialistas, esses números mostram uma mudança epidemiológica que não pode ser atribuída apenas ao crescimento populacional ou à melhora nos sistemas de diagnóstico. “O que estamos vendo é provavelmente uma mudança no perfil de algumas neoplasias. Até antes de 1980, o câncer era visto como um problema de idosos. Esse cenário vem se modificando, mas houve recentemente uma aceleração dessa transformação”, analisa o oncologista Oren Smaletz, do Einstein Hospital Israelita.
Ele destaca como exemplo o câncer colorretal. “Nos últimos dez anos, deixou de ser um tumor raro em pessoas de 20 a 49 anos para se tornar o câncer que mais causa mortes nessa faixa etária em homens nos Estados Unidos. Para as mulheres, fica atrás apenas do câncer de mama”, destaca.
O que está por trás do aumento?
Alguns tipos de tumor têm sido mais associados ao crescimento geral de casos, segundo pesquisa publicada na revista Military Medical Research em 2025 e que analisou dados de 36 países entre 2000 e 2017. Em mulheres jovens, o crescimento foi mais expressivo em cânceres colorretal, de pâncreas e mieloma múltiplo. Em homens, o aumento foi mais observado em tumores de próstata, colorretal e renal. De acordo com a investigação, desde a virada do milênio, 10% dos casos globais da doença passaram a ocorrer em pessoas abaixo dos 50 anos, com projeção de crescimento contínuo para a próxima década.
Fatores de risco ligados ao estilo de vida pesam diretamente nessa realidade. “Provavelmente esse crescimento tem alguma relação com a expansão de vários fatores de risco, como a obesidade, o sedentarismo, o maior consumo de alimentos ultraprocessados, de álcool e outros carcinógenos na dieta”, observa a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).
Novamente, o tumor colorretal ilustra bem a influência dos hábitos alimentares e de atividade física que influenciam na incidência do câncer. "A dieta mais ocidental, com suas carnes processadas, consumo de refrigerantes, bebidas açucaradas, tudo isso está comprovado em numerosos estudos que acaba aumentando o risco de ter câncer colorretal. Além do papel da obesidade, sedentarismo e até do tabagismo", aponta o oncologista do Einstein. Dieta pobre em fibras, com baixo consumo de frutas e verduras, e o aumento de pessoas com diabetes tipo 2 também têm sido associados ao disparo nos casos de câncer de intestino. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que 13% dos casos de câncer no Brasil estão relacionados ao excesso de peso.
Um estudo publicado na Cancer Epidemiology por pesquisadores do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) em 2024 indica que dietas com alto teor de ultraprocessados aumentam em até 25% o risco de tumores digestivos. A análise também revela uma mudança no perfil do câncer de mama no Brasil: a proporção de casos em mulheres com menos de 40 anos passou de 8% em 2009 para 22% em 2020, outra doença que acomete cada vez mais jovens.
Diagnóstico tardio e rastreamento inadequado
Além do aumento de casos em pessoas mais jovens, os estudos indicam que muitos recebem o diagnóstico em fases mais avançadas da doença. A explicação para isso vai além da biologia tumoral. Pessoas mais jovens não estão inseridas nas faixas etárias contempladas pelos programas de rastreamento tradicionais. Apenas em 2025, por exemplo, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou o acesso à mamografia para mulheres de 40 a 49 anos.
A ausência de protocolos específicos para adultos com menos de 50 anos cria uma janela em que sintomas são subestimados tanto por pacientes quanto por médicos. “A maioria das estratégias clínicas de prevenção era indicada para acima dessa idade”, explica Baldotto. “Isso levou uma boa parte da população mais jovem a se preocupar menos com câncer e, por isso, temos nos esforçado em divulgar sinais e fatores de risco além da idade.”
Muitas vezes, os jovens também ignoram sintomas clássicos e demoram a fazer investigações complementares. "No caso do câncer colorretal, recebemos pacientes com 35, 40 anos, há várias semanas observando sangramento retal, mas não se imagina que possa ser câncer. Até mesmo no atendimento médico, muitos especialistas tomam esse sinal como hemorroidas e deixam de fazer os exames apropriados nesses pacientes mais jovens", analisa Oren Smaletz.
Além dos bons hábitos, é importante que pessoas com histórico familiar de câncer façam acompanhamento com maior frequência e relatem esse histórico em seus atendimentos. Isso também vale para aqueles com condições que elevam o risco de tumores, como doenças inflamatórias crônicas, obesidade, ou que tenham o hábito de fumar e beber.
Manifestações persistentes nunca devem ser descartadas sem investigação. "Sintomas que aparecem e vão se agravando ao longo do tempo não podem nunca ser ignorados. É importante ter um acompanhamento do médico regular que consiga te avaliar para fazer um diagnóstico mais precoce, já que isso aumenta as chances de cura em todos os casos", afirma a presidente da SBOC.
Além disso, tão válido quanto o check-up é que médicos de diversas especialidades se atentem a possíveis casos. “Os médicos que atendam pacientes jovens com queixas que possam ser de câncer colorretal devam pensar neste diagnóstico como uma possibilidade e pedir os exames apropriados para confirmar ou descartar essa hipótese o mais rápido possível”, observa o médico do Einstein.
Fonte: Agência Einstein