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Bancas de revista de Curitiba: do auge à reinvenção

  • 20 de jul.
  • 5 min de leitura

Das filas pela Gazeta do Povo de domingo às revistas importadas, as bancas de Curitiba enfrentaram greves, mudanças tecnológicas e hoje buscam novos caminhos para sobreviver.


Banca de jornais em Curitiba mostrando a evolução entre os tempos de grande circulação de jornais impressos e o modelo atual com produtos diversificados.
As bancas de Curitiba já foram o principal ponto de acesso às notícias e hoje sobrevivem apostando na diversificação de produtos e serviços. Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

Quem viveu Curitiba entre as décadas de 1970 e 2000 dificilmente esquece a movimentação das bancas de jornais nas primeiras horas da manhã. Antes mesmo do comércio abrir as portas, entregadores abasteciam centenas de pontos espalhados pela cidade. Em poucos minutos, exemplares da Gazeta do Povo, O Estado do Paraná, Tribuna do Paraná, Folha de Londrina, O Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e até jornais internacionais já estavam nas mãos dos leitores. Hoje, muitas dessas bancas desapareceram do mapa urbano. As que resistem precisaram mudar completamente o modelo de negócio para continuar abertas.


A transformação desse mercado resume uma mudança de comportamento que atingiu toda a indústria da informação. A internet reduziu drasticamente a circulação dos jornais impressos, alterou hábitos de leitura e obrigou comerciantes tradicionais a reinventar um negócio que durante décadas foi símbolo das cidades brasileiras.


Quando as bancas eram o principal canal de informação


Até o início dos anos 2000, Curitiba possuía uma das maiores redes de bancas do Sul do Brasil. Estimativas do setor indicam que a cidade chegou a contar com aproximadamente 400 a 500 bancas licenciadas, distribuídas em praças, calçadas, terminais de ônibus, bairros e regiões centrais.


Cada banca recebia diariamente dezenas de títulos nacionais e regionais. Aos domingos, o movimento crescia de forma impressionante. A edição dominical da Gazeta do Povo era um dos produtos mais aguardados pelos leitores. Com centenas de páginas entre cadernos especiais, classificados, cultura, esportes, imóveis, automóveis e suplementos, o jornal praticamente lotava os balcões logo nas primeiras horas da manhã.


Famílias inteiras mantinham o hábito de comprar o jornal acompanhado do pão fresco. Muitos leitores reservavam sua edição antecipadamente para garantir que não ficariam sem o exemplar.


Além dos jornais brasileiros, algumas bancas da região central recebiam revistas e periódicos importados, especialmente dos Estados Unidos, Portugal, França, Espanha, Itália e Reino Unido. Eram pontos de encontro de estudantes, professores universitários, empresários e estrangeiros que buscavam informações em seus idiomas de origem.


A logística começava ainda durante a madrugada


Pouca gente conhecia a operação necessária para fazer milhares de jornais chegarem aos leitores antes do amanhecer.


As gráficas trabalhavam durante toda a noite. Assim que a impressão terminava, caminhões seguiam para centrais de distribuição, onde os exemplares eram separados conforme a quantidade destinada a cada banca.


Os entregadores iniciavam o trabalho ainda de madrugada. Em poucas horas percorriam dezenas de quilômetros abastecendo bancas espalhadas por toda Curitiba e Região Metropolitana.


Quando ocorria alguma greve entre distribuidores ou entregadores, o impacto era imediato. Bancas amanheciam vazias e milhares de leitores ficavam sem acesso ao jornal. Em alguns períodos de paralisação, a circulação caiu drasticamente, gerando prejuízo para editoras, jornaleiros e anunciantes.


Os conflitos trabalhistas evidenciavam a importância daquela engrenagem logística, responsável por movimentar diariamente toneladas de papel e milhares de exemplares.


A chegada da internet mudou completamente o mercado


O avanço da internet banda larga, seguido pela popularização dos smartphones e das redes sociais, alterou profundamente a forma de consumir notícias.


A informação passou a circular em tempo real. Muitos jornais reduziram suas tiragens impressas e passaram a concentrar investimentos nas plataformas digitais.


Com menos exemplares circulando, inúmeras bancas perderam sua principal fonte de receita.


Além da queda na venda de jornais, outro segmento também sofreu forte retração: o mercado de revistas. Publicações semanais, femininas, de automobilismo, turismo, informática, decoração e celebridades perderam espaço para conteúdos digitais gratuitos ou por assinatura.


Editoras encerraram títulos históricos e reduziram drasticamente suas distribuições.


As bancas que sobreviveram aprenderam a vender muito mais do que jornais


Hoje, o jornal impresso representa apenas uma pequena parcela do faturamento da maioria das bancas de Curitiba.


Grande parte da receita vem da comercialização de:

  • bebidas geladas;

  • água mineral;

  • chocolates;

  • balas;

  • sorvetes;

  • cigarros;

  • isqueiros;

  • cartões de transporte;

  • recarga de celular;

  • livros;

  • colecionáveis;

  • brinquedos;

  • figurinhas;

  • produtos de papelaria;

  • presentes;

  • souvenirs;

  • acessórios para celulares;

  • carregadores;

  • fones de ouvido;

  • guarda-chuvas;

  • pilhas;

  • revistas de passatempos.


Algumas bancas ainda oferecem serviços como impressão de documentos, cópias, plastificação, recebimento de encomendas e até pequenos serviços financeiros.

A diversificação tornou-se condição para permanecer em atividade.


Curitiba tem hoje bem menos bancas do que no passado


Representantes do setor estimam que o número de bancas em funcionamento caiu para cerca de 120 a 180 unidades, dependendo dos critérios de licenciamento e operação efetiva. Muitos pontos foram desativados, outros tiveram as permissões encerradas e vários acabaram transformados em quiosques de conveniência.


Embora ainda façam parte da paisagem urbana, as bancas deixaram de ocupar o protagonismo que tiveram durante boa parte do século passado.


Mesmo assim, continuam desempenhando papel importante em bairros onde mantêm relação próxima com moradores antigos, colecionadores e leitores fiéis do jornal impresso.


As principais bancas ainda em atividade


Entre os pontos mais conhecidos da cidade estão bancas localizadas em regiões de grande circulação:

  • Praça Osório – Centro;

  • Praça Rui Barbosa – Centro;

  • Rua XV de Novembro – Centro;

  • Praça Santos Andrade;

  • Largo da Ordem;

  • Avenida Sete de Setembro;

  • Praça do Japão;

  • Terminal do Cabral;

  • Terminal do Boqueirão;

  • Terminal do Pinheirinho.


Esses estabelecimentos continuam atendendo moradores, trabalhadores e turistas, embora com um perfil bastante diferente daquele visto há duas ou três décadas.


Mais do que comércio, patrimônio afetivo


Para muitos curitibanos, a banca nunca foi apenas um ponto de venda.


Era o lugar onde se comprava o álbum da Copa do Mundo, as primeiras revistas em quadrinhos, os fascículos de coleções, mapas da cidade, palavras cruzadas para viagens e os jornais que registravam acontecimentos históricos.


Os jornaleiros conheciam clientes pelo nome. Reservavam exemplares para assinantes informais e sabiam exatamente quais revistas cada frequentador buscava.


Esse vínculo ajudou muitas bancas a atravessar momentos difíceis, mesmo diante da forte concorrência digital.


Um futuro diferente, mas ainda possível


Especialistas em varejo avaliam que dificilmente as bancas voltarão ao volume de vendas registrado nos anos de ouro da imprensa impressa. Ainda assim, elas podem continuar relevantes se ampliarem sua atuação como pequenos centros de conveniência urbana.

Produtos de compra rápida, serviços de bairro, lembranças para turistas, itens colecionáveis e nichos editoriais especializados aparecem entre as alternativas capazes de manter esse modelo de negócio vivo.


Enquanto houver leitores apaixonados pelo cheiro do papel recém-impresso e colecionadores em busca da próxima edição rara, haverá espaço para algumas bancas continuarem abertas. Em Curitiba, elas permanecem como testemunhas silenciosas da evolução da comunicação e da própria história da cidade.

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