Mortes que dão audiência vs. mortes que viram estatística
- Da Redação com Assessoria
- há 32 minutos
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A comoção seletiva da imprensa diante da queda de um avião de pequeno porte não é apenas um desvio editorial — é quase um espetáculo previsível. Basta uma aeronave cair para que manchetes se multipliquem, helicópteros sobrevoem o local (quando possível) e especialistas brotem em rede nacional. Enquanto isso, acidentes de trânsito — que matam em escala industrial todos os dias — recebem, quando muito, uma nota protocolar de rodapé.

Não se trata de defender menos cobertura para tragédias aéreas, mas de questionar o critério. Afinal, por que a morte a 10 mil pés parece mais “noticiável” do que a morte no asfalto? Por que a tragédia que envolve uma dúzia de pessoas mobiliza mais atenção do que outra que ceifa dezenas ao longo de um único dia nas estradas?
A resposta é menos nobre do que parece.
Primeiro, há o fetiche da exceção. Acidentes aéreos são raros — e raridade vende. O inusitado tem mais valor de mercado do que o cotidiano, ainda que o cotidiano seja muito mais letal. A lógica é simples: o que foge da regra vira manchete; o que se repete vira estatística invisível.
Segundo, existe o glamour implícito. Avião ainda carrega um simbolismo de status, tecnologia e poder aquisitivo. Mesmo quando não há celebridades a bordo, há uma aura de “gente importante”. Já o acidente de carro, especialmente no Brasil, é associado à banalidade — qualquer um pode ser vítima. E, paradoxalmente, isso o torna menos “interessante” para o noticiário.
Terceiro, a narrativa. Quedas de avião oferecem um roteiro pronto: mistério, investigação, possíveis falhas técnicas, gravações de caixa-preta, teorias. É quase uma minissérie em tempo real. Já os acidentes de trânsito raramente têm esse apelo dramático estruturado — são caóticos, repetitivos e, para a lógica midiática, pouco “exploráveis”.
Mas há também uma dimensão incômoda: a hierarquia implícita da empatia. Quando a imprensa amplifica certos tipos de morte e minimiza outros, ela ajuda a moldar a percepção coletiva de valor. E o recado subliminar é perigoso: algumas vidas parecem render mais audiência do que outras.
No fim, não é que o passageiro de avião seja mais importante. É que ele é mais “vendável”. E enquanto o critério for esse, continuaremos tratando tragédias frequentes como ruído de fundo — até que, um dia, a estatística anônima bata à nossa porta com nome e sobrenome.



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