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A Voz do Brasil completa 91 anos e ainda é obrigatória nas rádios

  • Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
    Marcos Paulo Assis
  • há 20 horas
  • 8 min de leitura

Criada em 1935, A Voz do Brasil atravessou governos, televisão e internet e continua ocupando espaço obrigatório na programação das rádios brasileiras.


Rádio antigo transmite A Voz do Brasil enquanto smartphone representa a comunicação digital no Brasil.
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

Às 19 horas, o Brasil não para — mas, em alguma rádio, a programação muda. O locutor interrompe a música, o jornal local ou o serviço de trânsito e entra no ar um dos programas mais antigos da comunicação brasileira. Criada em 22 de julho de 1935, A Voz do Brasil chegou aos 91 anos em 2026 atravessando regimes políticos, cinco Constituições, a chegada da televisão, a internet e a explosão das redes sociais. Ainda hoje, sua retransmissão é obrigatória para as emissoras de rádio, embora o horário tenha deixado de ser rigidamente fixado às 19h.


A longevidade ajuda a explicar a força simbólica do programa, mas também alimenta uma discussão que continua atual: faz sentido manter uma transmissão oficial obrigatória em um país no qual o cidadão pode acompanhar ao vivo uma sessão do Congresso pelo celular e receber informações dos governos diretamente pelas redes sociais? Para as autoridades, A Voz do Brasil é um instrumento de informação pública e de alcance nacional. Para parte do setor de radiodifusão, a obrigação representa uma interferência na programação de empresas privadas e pode afetar a operação comercial.


De Programa Nacional a A Voz do Brasil


A história começou em 22 de julho de 1935, durante o governo de Getúlio Vargas. O programa foi lançado com o nome de Programa Nacional, com a finalidade de divulgar informações e atos do governo. Em 1938, passou a se chamar A Hora do Brasil e ganhou transmissão obrigatória pelas emissoras de rádio.


O rádio tinha naquele momento um peso que nenhum outro meio de comunicação possuía. A televisão ainda não existia no país e jornais impressos tinham alcance muito menor fora dos grandes centros. Uma transmissão simultânea permitia ao governo falar com uma parcela significativa da população espalhada por um território continental.


A obrigatoriedade nasceu, portanto, em uma realidade tecnológica e social completamente diferente da atual. O programa também tinha forte caráter governamental em sua origem, característica que acompanhou boa parte de sua trajetória. Com o passar dos anos, porém, sua estrutura foi modificada para incluir informações dos demais Poderes da República.


Há uma pequena divergência nas fontes oficiais sobre o ano em que o nome atual foi adotado. A EBC e páginas recentes da Câmara dos Deputados indicam 1971, durante o governo Emílio Garrastazu Médici. Algumas publicações do Senado fazem referência a 1962. A cronologia adotada nesta reportagem segue EBC e Câmara, que apresentam 1971 como a mudança definitiva de denominação.


A participação do Congresso na programação começou a ganhar forma em 1962, com a entrada em vigor do Código Brasileiro de Telecomunicações. A estrutura atual reserva tempo para Executivo, Judiciário, Senado e Câmara, além de espaço para o Tribunal de Contas da União.


Uma hora dividida entre os Poderes


A edição tem 60 minutos. A legislação reserva 25 minutos ao Poder Executivo, cinco ao Judiciário, dez ao Senado e 20 à Câmara dos Deputados. O conteúdo do TCU também aparece na programação atual, com inserção específica.


O formato procura funcionar como uma espécie de boletim nacional dos Poderes da República. O Executivo informa suas ações por meio da estrutura da EBC; o Judiciário apresenta notícias institucionais; Senado e Câmara divulgam votações, debates, projetos e decisões parlamentares.


A tradicional abertura com os acordes de O Guarani, de Carlos Gomes, tornou-se uma das marcas sonoras mais reconhecidas da radiodifusão brasileira. A música ganhou diferentes arranjos ao longo dos anos, enquanto o próprio programa passou por reformas para reduzir a linguagem excessivamente formal e aproximar o conteúdo do cotidiano do ouvinte.


Por que as rádios são obrigadas a transmitir?


A obrigação não decorre de uma recomendação administrativa nem de um acordo entre governo e emissoras. Ela está prevista no Código Brasileiro de Telecomunicações, posteriormente alterado por legislação específica.


A Lei nº 13.644, de 2018, modificou a regra e estabeleceu que as emissoras de radiodifusão sonora devem retransmitir diariamente, exceto aos sábados, domingos e feriados, o programa oficial dos Poderes da República dentro da faixa das 19h às 22h. A duração reservada é de 60 minutos ininterruptos.


A mudança foi decisiva porque acabou com a obrigação de todas as emissoras transmitirem o programa exatamente às 19h. Atualmente, as rádios comerciais podem escolher o momento da transmissão dentro da janela legal, respeitadas as regras específicas.


O Decreto nº 10.456, de 2020, regulamentou o sistema. Para as emissoras comerciais, educativas e legislativas existem regras diferentes. Em determinadas situações, o Ministério das Comunicações também pode autorizar flexibilização ou dispensa. Eventos esportivos, por exemplo, possuem regras próprias para alteração do horário.


A mudança respondeu principalmente a uma questão prática. No fim da tarde e começo da noite, as rádios comerciais costumam concentrar programas de jornalismo, trânsito, prestação de serviços e entretenimento. Nas grandes cidades, esse período coincide com o deslocamento de milhões de trabalhadores.


A possibilidade de escolher outro horário reduziu parte do conflito entre a obrigação legal e a programação comercial. A rádio continua obrigada a transmitir o conteúdo, mas ganhou maior liberdade para decidir quando fazê-lo dentro da janela permitida.


Quanto as rádios faturam — e quanto a transmissão custa?


Esta é provavelmente a pergunta mais difícil de responder com precisão.

Não existe um levantamento oficial que informe quanto cada emissora fatura com A Voz do Brasil. Também não há uma tabela nacional confiável mostrando quanto as rádios deixam de faturar durante os 60 minutos ocupados pelo programa.


O impacto econômico deve ser analisado como custo de oportunidade. Uma emissora que poderia vender publicidade durante uma hora de grande audiência deixa de comercializar aquele espaço. O prejuízo potencial depende do tamanho da rádio, do mercado em que atua, do perfil dos ouvintes e do valor comercial daquele horário.


Uma rádio de Curitiba, São Paulo ou Rio de Janeiro, por exemplo, pode ter uma realidade completamente diferente de uma pequena emissora do interior do Paraná. Em algumas rádios, o horário pode ser altamente valorizado comercialmente; em outras, a receita publicitária é distribuída de maneira menos concentrada.


O tamanho do mercado ajuda a dimensionar a discussão. O levantamento Cenp-Meios registrou R$ 1,10 bilhão em investimentos publicitários no rádio brasileiro em 2025, equivalente a 3,8% do total de R$ 28,9 bilhões monitorado pela entidade. Esse número representa o mercado publicitário de rádio como um todo, e não o faturamento das emissoras durante o horário de A Voz do Brasil.


Por isso, qualquer cálculo que atribua, por exemplo, “R$ X milhões de prejuízo anual às rádios” precisaria considerar audiência, tabela comercial, ocupação dos intervalos, mercado local e comportamento dos anunciantes. Sem essas informações, o resultado seria apenas uma estimativa.


O que mudou com a flexibilização


A flexibilização de 2018 teve forte apoio do setor de radiodifusão. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão defendia havia anos que as emissoras tivessem liberdade para escolher o momento da transmissão. A própria documentação do governo registra que a alteração ampliou a liberdade de programação das rádios comerciais.


Do ponto de vista empresarial, a mudança permite que uma emissora escolha um horário de menor impacto comercial. Do ponto de vista do ouvinte, cria uma consequência curiosa: já não existe necessariamente um único momento em que todo o país esteja ouvindo A Voz do Brasil ao mesmo tempo.


Essa transformação também dificulta a comparação direta entre a audiência atual e a de décadas atrás. Quando o programa entrava obrigatoriamente no ar às 19h, a transmissão era sincronizada nacionalmente. Hoje, parte das emissoras pode veiculá-lo mais tarde, dentro das regras legais.


A audiência ainda é de milhões de brasileiros?


Sim, mas é preciso cuidado com os números.


A Câmara dos Deputados divulgou, durante as comemorações dos 90 anos, que A Voz do Brasil alcança cerca de 70 milhões de ouvintes, atribuindo o dado à Agência Brasil.


O problema está na interpretação. Esse número não deve ser apresentado como se significasse 70 milhões de pessoas sentadas diante do rádio simultaneamente durante uma hora. Trata-se de uma estimativa de alcance e não de um índice de audiência instantânea comparável aos rankings comerciais de rádio.


O próprio Senado reconheceu em 2025 que não dispunha de uma pesquisa diária atualizada. Segundo a Rádio Senado, estimativas anteriores apontavam cerca de 60 milhões de ouvintes e a flexibilização do horário tornou a audiência mais distribuída entre diferentes momentos.


Isso significa que não há base suficiente para publicar um número como “A Voz do Brasil tem X pontos de audiência nacional” sem uma pesquisa específica. A informação mais segura é afirmar que o programa tem alcance potencial estimado na casa de dezenas de milhões de pessoas, com a referência institucional de aproximadamente 70 milhões.


A relevância também varia geograficamente. Em cidades conectadas e com ampla oferta de informação digital, o rádio disputa atenção com aplicativos, podcasts, streaming, televisão e redes sociais. Em regiões rurais, comunidades isoladas e localidades com menor conectividade, a radiodifusão tradicional ainda pode desempenhar papel muito maior.


O México tem um programa parecido


O Brasil não é o único país a utilizar uma transmissão radiofônica nacional de caráter oficial.

No México existe La Hora Nacional, criada em 1937 durante o governo de Lázaro Cárdenas. O programa começou como uma transmissão semanal destinada a alcançar as emissoras de todo o país e criar um canal direto entre o governo e a população.


A semelhança com o modelo brasileiro é impressionante. Nos dois casos, um programa oficial utiliza a estrutura da radiodifusão para alcançar uma audiência nacional e tem origem na década de 1930, quando o rádio era o principal meio eletrônico de comunicação de massa.


A diferença está principalmente na frequência. La Hora Nacional é semanal, transmitida aos domingos. O governo mexicano informa que atualmente o programa vai ao ar às 22h e chega a cerca de 1.700 emissoras em cadeia nacional.


No Brasil, A Voz do Brasil tem frequência muito maior: é retransmitida de segunda a sexta-feira, salvo finais de semana e feriados, com uma hora reservada dentro da janela determinada pela legislação.


A comparação mostra que o modelo brasileiro não é uma completa exceção internacional. O que o diferencia é a combinação de longevidade, frequência, abrangência e obrigação legal.


O desafio de sobreviver à era do celular


A Voz do Brasil nasceu quando o governo precisava encontrar uma maneira de falar simultaneamente com milhões de brasileiros. Em 2026, qualquer cidadão com um smartphone consegue acompanhar sessões do Congresso, decisões judiciais, pronunciamentos oficiais e anúncios do Executivo em tempo real.


A tecnologia, entretanto, não eliminou o rádio. Ela mudou a maneira como o rádio é consumido. O mesmo conteúdo pode chegar ao ouvinte por uma frequência AM ou FM, pelo site de uma emissora, por aplicativo, YouTube, redes sociais ou plataformas de áudio.

A própria A Voz do Brasil passou a reforçar sua presença digital. Em 2025, durante as comemorações dos 90 anos, a EBC anunciou mudanças no site e maior destaque para a transmissão em vídeo, numa tentativa de levar o programa para além do aparelho de rádio tradicional.


É aí que está o principal dilema para os próximos anos. A discussão deixou de ser apenas sobre uma hora de programação retirada das rádios comerciais. Ela envolve a própria concepção de comunicação pública em uma sociedade na qual o Estado pode falar diretamente com o cidadão sem depender exclusivamente das emissoras.


Para quem defende a manutenção da obrigação, A Voz do Brasil continua funcionando como uma garantia de que informações dos Poderes chegarão a lugares onde outros meios ainda não têm a mesma penetração. Para seus críticos, obrigar empresas privadas a reservar uma hora da programação é uma regra criada para uma realidade tecnológica que já não existe.


A resposta provavelmente não estará simplesmente entre manter ou acabar. A questão mais interessante é saber se um programa criado há 91 anos consegue preservar sua função pública sem depender apenas da força da lei. Se continuar relevante para o cidadão, talvez a obrigação seja cada vez menos necessária. Se perder espaço na atenção do público, a própria existência da exigência legal poderá se transformar novamente em tema de debate nacional.


Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

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