Estudo global aponta queda na demanda por caixas, digitadores e auxiliares administrativos, enquanto novas funções ganham espaço até 2030.
A inteligência artificial e a automação estão mudando a maneira como empresas contratam, organizam equipes e executam tarefas. Até 2030, caixas, digitadores, funcionários bancários e auxiliares administrativos estão entre os profissionais que podem enfrentar uma redução significativa de oportunidades, segundo projeções do Fórum Econômico Mundial. O movimento, porém, não significa que essas profissões deixarão de existir: indica que parte das atividades hoje realizadas por pessoas poderá ser transferida para sistemas digitais, máquinas e programas inteligentes.
O Future of Jobs Report 2025, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, estima que as transformações estruturais do mercado global poderão criar 170 milhões de empregos e deslocar 92 milhões até o fim da década. O saldo projetado é positivo em 78 milhões de postos de trabalho, mas a distribuição dessas oportunidades será desigual entre setores, países e grupos profissionais.
Os números resultam de expectativas de empregadores e de dados globais de emprego. Portanto, não representam uma contagem de demissões já realizadas nem uma previsão definitiva para o Brasil ou o Paraná. Ainda assim, oferecem um sinal relevante para trabalhadores, empresas e instituições de ensino: a composição do mercado de trabalho deve mudar de forma expressiva nos próximos anos.
Quais profissões estão mais ameaçadas até 2030?
O relatório identifica funções administrativas e operacionais entre as ocupações com maior perspectiva de retração. A digitalização de serviços, a automação de procedimentos e a inteligência artificial explicam parte dessa tendência, embora fatores econômicos e mudanças nos hábitos de consumo também influenciem a demanda.
Entre as ocupações que merecem atenção estão:
Caixas e bilheteiros: terminais de autoatendimento, pagamentos digitais e bilhetes eletrônicos reduzem a necessidade de atendimento em operações simples. Supermercados, estacionamentos, cinemas e empresas de transporte estão entre os segmentos em que essa transformação pode ocorrer.
Funcionários bancários responsáveis por transações rotineiras: aplicativos e sistemas automatizados permitem realizar pagamentos, transferências e consultas sem atendimento presencial. A redução dessas operações nas agências não elimina a necessidade de profissionais especializados em crédito, investimentos, prevenção a fraudes e relacionamento com clientes.
Digitadores e operadores de entrada de dados: programas capazes de reconhecer documentos, extrair informações e preencher sistemas diminuem o trabalho manual. As funções que dependem principalmente da transferência de dados entre documentos e plataformas estão especialmente expostas.
Auxiliares administrativos e secretários executivos: agendamento de compromissos, organização de documentos, elaboração de atas e classificação de mensagens podem ser parcialmente automatizados. Profissionais que também coordenam processos, resolvem imprevistos e apoiam decisões continuam oferecendo competências que vão além das tarefas operacionais.
Trabalhadores de impressão e serviços gráficos tradicionais: a migração de documentos para o ambiente digital e a automação da produção pressionam determinadas atividades. O setor gráfico, entretanto, mantém oportunidades em embalagens, rótulos, impressão especializada e materiais personalizados.
Auxiliares contábeis e de folha de pagamento: sistemas integrados realizam cálculos, classificam lançamentos e geram relatórios com menor intervenção manual. Isso aumenta a importância da conferência, da interpretação de normas e do planejamento financeiro e tributário.
Operadores de telemarketing e atendimento básico: assistentes virtuais conseguem responder perguntas frequentes, consultar pedidos e encaminhar solicitações simples. Atendimentos que exigem negociação, empatia e resolução de problemas complexos continuam demandando participação humana.
O levantamento também inclui funções como profissionais de registro de estoque, determinadas atividades de transporte, vendedores de rua e algumas ocupações relacionadas ao design gráfico. A presença de uma profissão nessa relação indica expectativa de redução relativa ou absoluta de vagas, e não necessariamente seu desaparecimento completo.
A inteligência artificial ameaça também profissionais qualificados
A transformação não se restringe ao comércio e às atividades administrativas. Jornalistas, tradutores, designers, advogados, contadores e programadores também encontram ferramentas capazes de executar partes do trabalho que antes exigiam horas de dedicação.
Na comunicação, por exemplo, programas de inteligência artificial podem transcrever entrevistas, resumir documentos e produzir versões iniciais de textos. Essas funções agilizam a rotina, mas não substituem automaticamente a apuração independente, a verificação de informações, a entrevista de fontes e a responsabilidade editorial.
No design, ferramentas generativas produzem imagens e variações de peças publicitárias em poucos minutos. Isso pressiona serviços padronizados e de baixo custo, enquanto aumenta o valor da direção de arte, da estratégia de marca e da capacidade de compreender o público.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em estudo atualizado em maio de 2025, estima que aproximadamente uma em cada quatro ocupações no mundo apresenta algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. A organização ressalva que a transformação das tarefas é um resultado mais provável do que a automação integral da maioria das profissões.
Essa distinção é fundamental. Um sistema pode executar parte do trabalho de um contador sem assumir a responsabilidade técnica do profissional. Da mesma forma, uma ferramenta pode produzir um texto, mas não necessariamente verificar se uma denúncia é verdadeira ou avaliar as consequências de sua publicação.
O risco está tanto na substituição de tarefas quanto na redução do número de pessoas necessárias para realizá-las. Uma empresa que antes mantinha dez funcionários em determinada rotina pode, dependendo da tecnologia adotada e do volume de trabalho, operar com uma equipe menor. O resultado dependerá de decisões empresariais, custos, demanda e exigências legais.
O que muda para os trabalhadores do Paraná?
Em Curitiba e em outras cidades paranaenses, os efeitos podem aparecer no comércio, nos escritórios, nos serviços financeiros, na indústria, na logística e nas empresas de comunicação. A intensidade da mudança dependerá do grau de digitalização de cada atividade e dos investimentos realizados pelas organizações.
Imagine um supermercado que amplia o número de caixas de autoatendimento. A empresa pode reduzir a necessidade de operadores em determinadas funções, mas passa a precisar de profissionais que orientem consumidores, acompanhem equipamentos e solucionem falhas. O trabalho muda de natureza, mesmo quando a experiência do cliente continua sendo presencial.
Em um escritório contábil, a automatização de lançamentos pode liberar tempo para análise de resultados e orientação empresarial. Em uma agência de publicidade, ferramentas de IA podem acelerar a produção de campanhas, mas a definição da estratégia e a avaliação dos resultados continuam exigindo conhecimento do negócio e do consumidor.
A transição pode ser mais difícil para quem depende de uma ocupação específica e não dispõe de recursos para investir em formação. Um trabalhador experiente em rotinas administrativas, por exemplo, pode conhecer profundamente os processos da empresa, mas precisar desenvolver novas habilidades para utilizar sistemas digitais e assumir responsabilidades diferentes.
Também existe o desafio de preparar jovens para ingressar no mercado. Se tarefas simples deixarem de ser destinadas a estagiários e profissionais iniciantes, poderá ficar mais difícil adquirir experiência. Empresas e instituições de ensino terão de encontrar maneiras de oferecer aprendizado prático em funções que passam por mudanças rápidas.
Não há, nas projeções globais citadas, uma estimativa específica que permita afirmar quantos empregos serão eliminados no Paraná até 2030. Qualquer número estadual exigiria dados regionais, análises setoriais e uma metodologia própria.
Quais habilidades podem proteger a carreira?
O Fórum Econômico Mundial estima que 39% das habilidades atualmente utilizadas pelos trabalhadores poderão ser transformadas ou se tornar desatualizadas entre 2025 e 2030. O relatório também aponta pensamento analítico, flexibilidade, criatividade, aprendizagem contínua e competências tecnológicas entre as habilidades relevantes para o período.
A adaptação não exige que todos se tornem programadores ou especialistas em inteligência artificial. Um profissional administrativo pode aprender a automatizar relatórios; um vendedor pode utilizar ferramentas digitais para organizar contatos e compreender o comportamento dos clientes; um jornalista pode empregar IA na organização de documentos, mantendo a checagem humana como etapa indispensável.
A formação continuada precisa acompanhar a realidade de quem trabalha. Cursos curtos, treinamento dentro das empresas e oportunidades de aplicar conhecimentos em situações concretas podem facilitar a transição. Para trabalhadores com menor renda, o acesso a essas iniciativas é decisivo para evitar que a inovação amplie desigualdades.
As empresas também precisam avaliar como introduzem novas tecnologias. A substituição imediata de trabalhadores pode reduzir custos no curto prazo, mas a capacitação de equipes pode preservar conhecimento interno, melhorar processos e abrir espaço para novas funções. A forma como os ganhos de produtividade serão distribuídos terá influência direta sobre os efeitos sociais da automação.
O futuro não está decidido pelos algoritmos
A perspectiva até 2030 combina redução de vagas em determinadas ocupações, transformação de funções tradicionais e crescimento de novas atividades. O saldo global positivo previsto pelo Fórum Econômico Mundial não garante que cada trabalhador encontrará uma oportunidade equivalente à que perdeu, porque os empregos criados podem exigir formação, experiência e competências diferentes.
A discussão, portanto, não deve se limitar a uma lista de profissões ameaçadas. É necessário compreender quais tarefas podem ser automatizadas, como preparar trabalhadores para novas exigências e de que maneira empresas e governos podem facilitar a transição.
A tecnologia pode ampliar a produtividade e criar oportunidades, mas seus benefícios não serão distribuídos automaticamente. Entre o avanço das máquinas e a vida de quem depende do próprio trabalho existe uma escolha coletiva: transformar a inovação em instrumento de desenvolvimento ou permitir que a velocidade da mudança deixe parte da população sem condições de acompanhá-la.
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Edição: Marcos Paulo Assis
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.



