Pior esquina de Curitiba lidera ranking de acidentes em 2026
Cruzamento da Saldanha Marinho com Mário Tourinho lidera levantamento do BPTran; acidentes também pressionam hospitais e geram milhões em custos.

Quem atravessa Curitiba diariamente conhece a sensação: basta um semáforo, uma conversão ou uma mudança de faixa para uma situação aparentemente banal transformar-se em uma colisão. Entre os milhares de pontos de conflito existentes na cidade, um cruzamento aparece atualmente no topo de um levantamento do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran): Rua Saldanha Marinho com Avenida General Mário Tourinho.
O levantamento, divulgado em janeiro de 2026, colocou esse cruzamento como o líder do ranking de acidentes de trânsito em Curitiba. A informação não significa que o local seja permanentemente o mais perigoso da capital, já que rankings podem mudar conforme o período analisado e a metodologia utilizada, mas oferece uma fotografia concreta dos pontos que mais exigem atenção.
A dimensão do problema aparece também nos números gerais. Segundo o mesmo levantamento do BPTran, os policiais de trânsito atenderam mais de 36 mil acidentes em Curitiba em 2025, com 47 mortes registradas nessas ocorrências. A Avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira foi apontada como a via com maior número de acidentes, mostrando que o problema não está concentrado em uma única esquina
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Por que algumas esquinas se transformam em pontos críticos
Um cruzamento concentra movimentos diferentes em poucos segundos. Automóveis fazem conversões, ônibus ocupam áreas maiores, motociclistas circulam entre faixas e pedestres precisam interpretar simultaneamente semáforos, veículos e travessias. Quando o volume aumenta, pequenos erros de percepção podem produzir conflitos.
No caso da Saldanha Marinho com a Mário Tourinho, o BPTran aponta a falta de atenção dos motoristas entre os fatores associados aos acidentes. O comportamento humano, portanto, aparece junto às características físicas e operacionais das vias como parte da equação que transforma determinados cruzamentos em áreas de maior risco.
Esse aspecto ajuda a explicar por que obras e sinalização, embora fundamentais, não resolvem sozinhas todos os problemas. Um semáforo pode organizar a circulação, mas não impede alguém de avançar o sinal; uma faixa pode estar corretamente demarcada, mas não garante que o motorista veja o pedestre; e uma motocicleta pode estar dentro da regra e ainda assim ficar escondida no chamado ponto cego de um automóvel.
Curitiba vem realizando intervenções específicas em locais considerados problemáticos. Em 2026, por exemplo, a Prefeitura implantou semáforo no cruzamento das ruas Nova Esperança e Celeste Tortato Gabardo, no Sítio Cercado, após demanda da comunidade. A medida ilustra como a engenharia de tráfego pode ser utilizada para responder a situações concretas identificadas nos bairros.
Qual acidente é mais comum no trânsito curitibano?
A resposta precisa ser tratada com alguma cautela. Não há, nas fontes públicas consultadas, uma tabela única que permita afirmar que determinado tipo de colisão represente sozinho a maioria de todos os acidentes de Curitiba. As bases utilizadas pelas polícias, Prefeitura, Siate, Urbs e Programa Vida no Trânsito possuem objetivos e critérios diferentes.
Nos cruzamentos urbanos, as colisões entre veículos aparecem como um dos problemas recorrentes, especialmente em situações envolvendo conversões, preferência de passagem, mudanças de faixa e desatenção. O levantamento do BPTran também mostra que o comportamento dos condutores continua sendo uma preocupação: em 2025, foram registradas cerca de 6,6 mil autuações pela falta do cinto de segurança e mais de 5 mil por uso do celular ao volante. Também houve 237 autuações por embriaguez e 192 motoristas flagrados sem habilitação.
O celular merece atenção porque acrescenta uma variável difícil de controlar: alguns segundos de distração podem coincidir exatamente com uma travessia de pedestre, uma frenagem ou a aproximação de uma motocicleta. A infração, nesse caso, não é apenas uma questão administrativa; ela pode alterar completamente a capacidade do motorista de reagir a um acontecimento inesperado.
O trânsito também produz acidentes envolvendo pedestres e ciclistas. Segundo dados do BPTran divulgados pela Prefeitura, 228 ocorrências com ciclistas foram registradas em Curitiba em 2025, deixando 215 feridos e cinco mortos. Entre janeiro e maio de 2026, foram 68 acidentes com ciclistas, 67 feridos e uma morte.
Motocicletas são o ponto mais preocupante
Se existe um grupo que merece atenção especial na fotografia atual do trânsito curitibano, ele é formado pelos motociclistas. Os dados do Programa Vida no Trânsito apontam que 91 motociclistas morreram em acidentes em Curitiba em 2025, contra 66 no ano anterior. O aumento foi de aproximadamente 38%, embora os números de 2025 tenham sido classificados como preliminares no momento da divulgação.
O volume de vítimas também impressiona. Segundo registros do Siate, Curitiba contabilizou 5.274 vítimas de acidentes envolvendo motocicletas em 2025, ante 5.597 em 2024. Apesar da redução no número total, os casos classificados como ferimentos graves com risco à vida subiram de 234 para 266.
A combinação de exposição física, menor proteção e grande presença das motocicletas na circulação urbana torna qualquer colisão potencialmente mais grave para quem está sobre duas rodas. É uma das razões pelas quais campanhas de segurança viária da Prefeitura passaram a concentrar parte significativa das ações educativas nesse público.
O acidente também chega à conta do SUS
Um acidente não termina necessariamente quando o veículo é retirado da rua. Para muitas vítimas, começa naquele momento uma sequência que pode envolver ambulância, pronto-socorro, cirurgia, internação, fisioterapia e, em casos graves, meses ou anos de recuperação.
Os números financeiros ajudam a dimensionar essa consequência. Segundo levantamento da Secretaria Municipal da Saúde, 9.229 vítimas de acidentes de trânsito receberam assistência hospitalar em Curitiba em 2025, gerando custo de R$ 37,1 milhões ao SUS apenas com despesas hospitalares. Quando são considerados os impactos socioeconômicos calculados pela metodologia do Ipea, o valor chega a aproximadamente R$ 806 milhões.
A mortalidade também aumentou. Curitiba registrou 209 mortes em acidentes de trânsito em 2025, contra 161 em 2024, crescimento de 29,8%, segundo os dados apresentados pela Prefeitura. O número mostra que o problema ultrapassa a esfera da mobilidade e se transforma em questão de saúde pública, produtividade e renda familiar.
Para uma família, o impacto pode aparecer na forma de afastamento do trabalho, perda de renda, necessidade de cuidados permanentes e despesas que não estavam previstas. Para as empresas, acidentes podem significar afastamentos, perda de produtividade, danos materiais e interrupção de serviços. Para o poder público, cada ocorrência grave movimenta uma cadeia de atendimento que começa na rua e pode terminar em uma longa internação.
Os principais prontos-socorros para vítimas de trauma
Curitiba possui uma estrutura hospitalar relevante para o atendimento de emergências. Entre as unidades de referência está o Hospital do Trabalhador, no Novo Mundo, que funciona 24 horas para urgências e emergências relacionadas a acidentes e traumas. A unidade é referência estadual em trauma e recebe pacientes de Curitiba, Região Metropolitana e outras regiões do Paraná.
O volume de atendimento ajuda a explicar sua importância. Em média, o Hospital do Trabalhador recebe 180 pacientes vítimas de trauma por dia e entre 48 e 55 ambulâncias, além de cerca de 15 pacientes mensais transportados de helicóptero em situações de maior gravidade. Em 2025, foram realizadas 9,5 mil cirurgias, das quais 6,5 mil foram classificadas como emergenciais.
Outro polo importante é o Hospital Universitário Cajuru, no Cristo Rei. O pronto-socorro funciona 24 horas, possui equipe multiprofissional e conta com especialistas como médico emergencista, cirurgião geral, ortopedista e neurocirurgião. O hospital utiliza classificação de risco para definir a prioridade dos atendimentos e recebe pacientes encaminhados pelo Siate e pelo Samu, além de casos que chegam por procura espontânea dentro dos critérios de triagem.
O Hospital Universitário Evangélico Mackenzie, no Bigorrilho, também mantém pronto-socorro 24 horas e estrutura de atendimento de emergência. A instituição possui ainda pronto atendimento adulto e pediátrico para particulares e conveniados, além de atendimento de urgência contínuo.
A rede de atendimento não deve ser interpretada como uma lista de hospitais para onde uma vítima grave deve ser levada por familiares. Em acidentes com trauma, especialmente quando há suspeita de lesão grave, o acionamento do serviço de emergência é a conduta mais segura, pois a equipe pode avaliar a vítima e definir o encaminhamento adequado.
O trânsito custa tempo antes de custar dinheiro
Existe ainda uma conta cotidiana que não aparece nos boletins policiais nem nas estatísticas hospitalares: o tempo perdido.
O TomTom Traffic Index calculou que Curitiba apresentou 54% de congestionamento médio em 2025, 3,9 pontos percentuais acima de 2024. Para percorrer 10 quilômetros, o tempo médio foi de 28 minutos e 59 segundos, enquanto no pico da tarde chegou a 39 minutos e 44 segundos. O levantamento estima que cada motorista perdeu 135 horas no trânsito durante os horários de pico ao longo do ano.
Um acidente em uma via movimentada pode ampliar esse problema rapidamente. Uma colisão aparentemente pequena pode bloquear uma faixa, provocar frenagens em sequência e criar congestionamento em ruas que ficam a quilômetros do local original. O efeito é especialmente relevante para ônibus, entregas, transporte por aplicativo e trabalhadores que dependem de horários rígidos.
A Prefeitura registrou uma tendência positiva em um segmento específico. Os acidentes envolvendo o transporte coletivo caíram 22% em 2025, passando de 1.463 para 1.135 ocorrências. Os acidentes envolvendo ônibus, carros e motocicletas recuaram 26%, enquanto os atropelamentos de pedestres e ciclistas relacionados ao transporte coletivo caíram de 122 para 106.
Os números mostram que políticas de segurança podem produzir resultados quando combinam fiscalização, treinamento, sinalização e mudanças na operação. O desafio é fazer com que a mesma lógica alcance todos os usuários das ruas.
A pior esquina é apenas o retrato de um problema maior
A Saldanha Marinho com a Mário Tourinho pode ser chamada hoje de “a pior esquina de Curitiba” porque lidera o ranking de acidentes citado pelo BPTran. Mas a expressão não deve esconder uma realidade mais ampla: há dezenas de pontos onde motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres disputam diariamente espaço, tempo e atenção.
A cidade já possui dados suficientes para identificar padrões. Sabe-se que os motociclistas estão entre os grupos mais vulneráveis, que distrações e infrações comportamentais continuam presentes, que os acidentes pressionam os serviços de emergência e que o custo econômico ultrapassa em muito o valor do conserto de um automóvel.
A pergunta que fica para Curitiba não é apenas qual será a próxima esquina a aparecer no ranking. É se a cidade conseguirá transformar estatísticas de acidentes em intervenções capazes de impedir que novos nomes entrem nessa lista. Em segurança viária, a melhor estatística não é a que mostra onde mais pessoas se acidentam, mas aquela que deixa de existir porque o acidente não aconteceu.
Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.



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