Pesquisa do IBGE mostra queda na experimentação de álcool entre adolescentes. Motivos culturais, renda e hábitos de lazer ajudam a explicar a mudança.
A relação dos jovens com as bebidas alcoólicas está passando por uma transformação. Entre 2019 e 2024, a proporção de estudantes brasileiros de 13 a 17 anos que já haviam experimentado álcool caiu de 63,3% para 53,6%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O recuo indica uma mudança relevante nos hábitos das novas gerações, embora o consumo continue presente na vida de muitos adolescentes.
A redução não significa que os jovens tenham abandonado a bebida, nem que o problema esteja resolvido. A experimentação, o consumo recente e a ingestão excessiva são comportamentos diferentes, com consequências distintas. Para entender o que está acontecendo, é necessário observar os indicadores nacionais, investigar as diferenças socioeconômicas e reconhecer os limites dos dados disponíveis para Curitiba e o Paraná.
Menos adolescentes experimentam álcool
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE, permite comparar o comportamento dos estudantes em diferentes edições. Em 2019, 63,3% dos adolescentes de 13 a 17 anos já haviam experimentado uma bebida alcoólica. Em 2024, o percentual recuou para 53,6%.
A diferença é de 9,7 pontos percentuais, equivalente a uma redução relativa de aproximadamente 15,3%. Em termos práticos, isso significa que, entre cada 100 estudantes pesquisados, cerca de dez a menos declararam ter experimentado álcool em comparação com o levantamento anterior.
O resultado acompanha uma mudança de comportamento, mas exige interpretação cuidadosa. Experimentar uma cerveja em uma festa, beber ocasionalmente e consumir várias doses em uma única ocasião não são situações equivalentes. Por isso, a queda na experimentação deve ser analisada junto de outros indicadores.
A PeNSE também identificou diferenças entre as faixas etárias. Em 2024, a experimentação alcançou 46,4% dos estudantes de 13 a 15 anos e 66,3% daqueles com 16 e 17 anos. A progressão sugere que o contato com o álcool se torna mais comum à medida que os adolescentes envelhecem e ampliam suas oportunidades de convivência social.
O consumo entre menores de idade permanece uma preocupação de saúde pública. Além dos riscos de intoxicação e acidentes, a exposição precoce ao álcool pode prejudicar o desenvolvimento e favorecer situações de vulnerabilidade.
Por que parte da geração Z prefere não beber?
A mudança não depende apenas de campanhas de prevenção. Preferências pessoais, hábitos de lazer e preocupações com a saúde também ajudam a explicar por que uma parcela dos jovens está menos interessada em bebidas alcoólicas.
O estudo O Dossiê das Bebidas, realizado pela empresa de pesquisas MindMiners em 2024, ouviu 3 mil pessoas com mais de 18 anos, de diferentes regiões e classes sociais. A pesquisa identificou a geração Z como o grupo geracional que menos consome álcool entre os analisados.
Entre os motivos relatados por pessoas que não consomem bebidas alcoólicas, a falta de interesse apareceu com destaque, assim como a insatisfação com o sabor e com os efeitos da bebida. A pesquisa também identificou preocupação com a qualidade de vida entre parte dos entrevistados.
Esses resultados ajudam a compreender uma mudança que pode ser percebida em situações cotidianas. Em vez de considerar a cerveja uma presença obrigatória em encontros com amigos, alguns jovens preferem bebidas sem álcool, atividades esportivas, cafés, shows ou programas em que o consumo não seja o centro da experiência.
A saúde também entra nessa equação. Sono, disposição física, aparência, rendimento profissional e custos financeiros podem influenciar escolhas individuais. As redes sociais ampliam a visibilidade de diferentes estilos de vida, embora também possam estimular comportamentos de risco.
Não existe, porém, uma única explicação comprovada para a queda observada pelo IBGE. Os levantamentos mostram a mudança, mas não demonstram que redes sociais, preocupação com a saúde ou dificuldades financeiras sejam, isoladamente, responsáveis por ela.
Classe social influencia o consumo?
A relação entre renda e álcool é mais complexa do que a ideia de que os jovens ricos bebem mais e os pobres bebem menos. O acesso às bebidas, os ambientes de socialização, a escolaridade e a frequência de consumo precisam ser considerados separadamente.
Um estudo publicado em 2022 nos Cadernos de Saúde Pública, com dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, analisou o consumo excessivo de álcool entre adolescentes brasileiros de 15 a 17 anos. A prevalência desse comportamento nos 30 dias anteriores à pesquisa foi de 8,1%.
Os pesquisadores identificaram maiores chances de consumo excessivo entre adolescentes de nível socioeconômico mais elevado e entre aqueles que não frequentavam a escola. O estudo também encontrou maior probabilidade desse comportamento entre os meninos.
O resultado não significa que todos os adolescentes de famílias com maior renda bebam mais, nem que a população de baixa renda esteja protegida. Trata-se de uma associação estatística encontrada em uma amostra específica, que não deve ser generalizada para todas as formas de consumo.
A renda pode facilitar o acesso a bares, festas e bebidas de maior preço, mas o consumo também ocorre em ambientes domésticos e encontros informais. A influência dos amigos, a convivência familiar e a situação escolar são elementos relevantes para compreender o comportamento.
Para determinar qual classe social consome mais álcool no Paraná, seria necessário dispor de dados locais comparáveis, com informações sobre renda, idade, frequência e quantidade ingerida. As pesquisas consultadas não permitem construir um ranking atualizado e confiável das classes sociais paranaenses.
Curitiba e Paraná: o que os números permitem afirmar?
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2019 identificou o Paraná entre os estados com maior proporção de adolescentes que consumiram álcool nos 30 dias anteriores à pesquisa. Naquele ano, o índice estadual foi de 34,5%, acima da média brasileira de 28,1%.
Esse dado merece atenção, mas não pode ser apresentado como retrato atual do Paraná. Ele se refere a 2019 e precisa ser comparado com os resultados mais recentes antes de qualquer conclusão sobre a posição do estado no cenário nacional.
Para Curitiba, o relatório municipal do Vigitel, publicado em 2023 com dados de 2007 a 2021, oferece informações sobre a população adulta. Em 2021, 43,5% dos adultos da capital declararam consumir bebidas alcoólicas. Em 2020, o percentual havia sido de 45,3%.
Entre os adultos de 18 a 24 anos, o consumo de qualquer quantidade de álcool foi estimado em 49,6% em 2019, 64,5% em 2020 e 45,4% em 2021. As oscilações devem ser interpretadas com cautela, porque as amostras de 2020 e 2021 foram menores e o próprio relatório municipal recomenda cuidado na comparação desses anos.
Esses números não demonstram que os adolescentes de Curitiba estejam bebendo mais ou menos. O Vigitel investiga adultos, enquanto a PeNSE estuda estudantes. Além disso, os dados municipais citados não chegam a 2024, o que impede afirmar qual é a situação atual da capital.
A resposta mais rigorosa, portanto, é que o Brasil apresenta uma queda documentada na experimentação de álcool entre adolescentes, enquanto o Paraná registrou consumo recente elevado no levantamento de 2019. Ainda falta uma base atualizada e comparável para estabelecer quais municípios paranaenses concentram os maiores índices de consumo juvenil.
Uma mudança cultural que ainda precisa ser acompanhada
A redução da experimentação é um sinal favorável, mas não elimina os riscos associados ao consumo excessivo. Acidentes de trânsito, intoxicações, conflitos familiares e problemas de saúde continuam entre as consequências possíveis do uso de álcool, especialmente quando há consumo de grandes quantidades em pouco tempo.
A mudança de hábitos também tem implicações econômicas. Bares, restaurantes, fabricantes de bebidas e organizadores de eventos podem encontrar oportunidades em opções sem álcool, desde que a oferta acompanhe as preferências reais dos consumidores. Para as famílias e escolas, o desafio é oferecer informação e prevenção sem tratar o consumo como requisito para a convivência social.
Os dados mostram que a relação das novas gerações com o álcool está mudando, mas não explicam sozinhos a profundidade dessa transformação. A questão que permanece é se a queda continuará nos próximos anos e se os jovens conseguirão construir formas de socialização menos dependentes da bebida.



