A televisão brasileira já transformou personagens e esquetes em assunto de família. Hoje, a oferta de humor na TV aberta é mais restrita, como mostrou a Folha em junho de 2025. É nesse cenário que as críticas de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, voltam ao debate.
Para o Paranashop, Boni toca em um problema real: o humor perdeu espaço e elaboração em parte da produção que busca atenção imediata. Não faltam bons comediantes, mas oportunidades para desenvolver personagens, textos e programas duradouros.
Em entrevista ao Programa do João, repercutida pela Band em 27 de janeiro de 2025, Boni afirmou que o público quer rir, se divertir e criticar. Na ocasião, discordou de que o politicamente correto fosse a causa principal da escassez de comédias na TV e apontou a falta de coragem das emissoras para investir em atrações capazes de provocar sem ultrapassar limites. A declaração, porém, não resume toda a posição posterior do empresário.
Em junho de 2025, ao falar à Folha de S.Paulo para uma reportagem sobre o chamado apagão do humor, Boni disse que estava revendo a avaliação anterior. Afirmou que o receio de processos, multas e responsabilização de artistas havia se tornado um fator concreto para as emissoras. A mudança de ênfase é relevante: primeiro, ele atribuiu o problema sobretudo à falta de ousadia empresarial; meses depois, passou a reconhecer o peso do ambiente jurídico e das controvérsias em torno dos limites do humor.
Da comédia de personagens ao humor de consumo rápido
Programas como os de Chico Anysio, Jô Soares, Os Trapalhões, TV Pirata, Casseta & Planeta e Sai de Baixo tinham algo em comum: o riso era construído com texto, ensaio, direção, interpretação e personagens reconhecíveis. O público acompanhava situações e comportamentos, não apenas frases de efeito.
Nem tudo daquele período envelheceu bem: muitos programas reproduziam estereótipos que hoje merecem revisão. Ainda assim, havia investimento em dramaturgia cômica, e personagens bem escritos atravessavam temporadas e viravam parte da cultura popular.
No ambiente digital, um vídeo precisa capturar a atenção em segundos e disputar espaço com milhares de publicações. A rapidez favorece improvisos, cortes e reações exageradas. O formato revelou talentos, mas também pode estimular a repetição de fórmulas: a mesma careta, o mesmo palavrão ou a mesma situação constrangedora, com pequenas variações.
Uma esquete de 30 segundos pode ser brilhante. O problema aparece quando a velocidade substitui a criação e visualizações são confundidas com qualidade: alcance não mede necessariamente inteligência, originalidade ou permanência.
O espaço na televisão diminuiu — e o risco comercial pesa
Uma reportagem da Folha de S.Paulo publicada em junho de 2025 descreveu o esvaziamento do humor na televisão aberta, especialmente na programação da Globo. O levantamento comparou a presença de atrações como Zorra, Escolinha do Professor Raimundo e Choque de Cultura, em 2018, com uma grade posterior muito mais limitada. A análise também apontou a migração de humoristas para projetos independentes e plataformas digitais.
O recuo tem explicações econômicas. Uma comédia de elenco exige sala de roteiristas, atores, cenários, direção, produção e tempo de desenvolvimento. Em um mercado no qual emissoras e plataformas precisam justificar cada investimento, o risco de uma piada gerar crise com anunciantes, grupos organizados ou parte da audiência pode pesar na decisão de produzir ou renovar um programa.
Marcas também calculam o risco de associação. Uma atração que provoca debate pode render audiência e repercussão, mas pode afastar patrocinadores receosos de controvérsias. O resultado é um ambiente mais conservador na escolha de formatos: programas de auditório, participações pontuais e conteúdos de humor distribuídos em plataformas costumam exigir compromissos diferentes de uma série cômica com identidade própria.
O impacto vai além da tela: menos encomendas podem reduzir oportunidades para roteiristas, atores e equipes técnicas. Os indicadores gerais do audiovisual, porém, exigem atenção ao ano de referência. O Anuário da ANCINE registra 78.189 empregos formais no setor em 2023. O valor adicionado de R$ 32,7 bilhões refere-se a 2022, em valores daquele ano — não a 2024. Para 2024, o anuário aponta 125 milhões de ingressos de cinema, alta de 9,8%, e bilheteria de R$ 2,5 bilhões. São dados de todo o audiovisual, não apenas da comédia.
Liberdade para fazer rir não significa ausência de responsabilidade
O debate sobre os limites do humor costuma cair em dois extremos. De um lado, há quem trate qualquer crítica ou desconforto como censura. De outro, há quem considere inaceitável toda piada que toque em temas sensíveis. Nenhuma dessas posições resolve a questão artística ou jurídica.
Humor sempre teve licença para incomodar o poder, expor hipocrisias e desafiar convenções. A sátira política, por exemplo, perde sua função quando só pode atingir personagens que já são alvo de consenso. O mesmo vale para a crítica social: rir de autoridades, instituições e comportamentos coletivos é parte da tradição democrática. Mas liberdade de expressão não transforma automaticamente toda piada em boa piada, nem elimina a responsabilidade por discriminação, ameaça ou incitação à violência.
O caso de Léo Lins tornou o debate ainda mais sensível. Condenado em primeira instância, em junho de 2025, a oito anos, três meses e nove dias de prisão e ao pagamento de indenização coletiva, o humorista foi absolvido em fevereiro de 2026 pela 5ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que afastou também a indenização. Em setembro de 2026, o TRF-3 rejeitou embargos de declaração apresentados pelo Ministério Público Federal, mantendo o entendimento da absolvição. A decisão não deve ser confundida com uma autorização irrestrita para qualquer conteúdo: o tribunal analisou as provas e as circunstâncias daquele processo específico.
A decisão não cria imunidade para qualquer manifestação apresentada como comédia: o tribunal analisou as provas e as circunstâncias daquele processo. A Folha também registrou como a polarização política e o receio de reações de públicos ideologicamente opostos passaram a influenciar decisões de investimento no setor.
O politicamente correto, portanto, não explica sozinho a crise. Pesam também decisões empresariais, mudanças no consumo, fragmentação da audiência, custos de produção e a dificuldade de encontrar formatos que dialoguem com públicos diferentes. A crítica de Boni à falta de coragem das emissoras precisa ser acompanhada de outra cobrança: investimento em equipes de criação e disposição para produzir comédias que nem sempre agradarão a todos.
O público ainda quer rir — mas de quê?
O cinema oferece um contraponto à ideia de que o humor perdeu completamente o público. O Anuário da ANCINE registra que, em 2024, “Os Farofeiros 2” levou 1,88 milhão de espectadores às salas, “Minha Irmã e Eu” somou 1,81 milhão e “O Auto da Compadecida 2” alcançou 1,35 milhão no ano. O resultado confirma que há público para comédias brasileiras, embora o sucesso de bilheteria não permita concluir, sozinho, que todos os formatos de humor estejam em alta.
Também surgem projetos em outras janelas. Em maio de 2026, Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch estrearam “E.T.” no Multishow e no Globoplay. Segundo o gshow, a produção foi concebida com dez episódios, esquetes, paródias e mais de 200 personagens interpretados pela dupla. É um exemplo de que a comédia não desapareceu: parte dela migrou para canais pagos e plataformas digitais, com modelos de distribuição diferentes dos antigos humorísticos da TV aberta.
Criadores independentes também exploram humor regional, relações de trabalho, política e costumes. A internet funciona como laboratório para testar personagens e conquistar audiência; o desafio é transformar visualizações em projetos sustentáveis, com roteiro, equipe e continuidade.
Para quem assiste, a diferença aparece no cotidiano. Uma piada sobre o chefe, o trânsito, a fila do banco ou a reunião de condomínio pode provocar reconhecimento e riso sem precisar escolher uma pessoa vulnerável como alvo. O humor inteligente encontra contradições, exagera situações e revela o ridículo de comportamentos. É mais trabalhoso do que simplesmente constranger alguém, mas também tende a envelhecer melhor.
Concordar com Boni não significa defender a volta automática dos programas antigos nem considerar que tudo o que era exibido no passado tinha qualidade. Significa reconhecer que a comédia brasileira precisa de espaço, liberdade criativa, bons roteiristas e coragem empresarial. O público não deve ser tratado como incapaz de compreender ironia, sátira ou crítica — tampouco como obrigado a aceitar qualquer provocação apenas porque recebeu o rótulo de humor.
O Brasil continua cheio de histórias, contradições e personagens que parecem saídos de uma crônica. Material para rir não falta. A pergunta é se televisão, cinema e plataformas investirão em quem sabe transformá-lo em comédia de verdade. Quando o riso depende apenas do choque e dura poucos segundos, talvez não seja o público que tenha perdido o senso de humor, mas a indústria que oferece menos motivos para rir.
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Fontes
- Band — Boni fala sobre escassez de programas de humor e falta de coragem das emissoras (27/01/2025).
- Folha de S.Paulo — Entenda o apagão do humor na TV (14/06/2025).
- ANCINE — Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro 2024 (dados de cinema, emprego e valor adicionado).
- gshow — Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch estreiam E.T. no Multishow e Globoplay (19/05/2026).
- TRF-3 — Acórdão sobre os embargos de declaração no caso Léo Lins.
- O Fator — TRF-3 barra recursos do MPF e mantém absolvição de Léo Lins (03/09/2026).
Edição: Marcos Paulo Assis
Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.



