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Vapes avançam entre jovens e desafiam a saúde pública

Foto do escritor: Marcos Paulo Assis
Marcos Paulo Assis
13 de ago.
8 min de leitura

Popular entre adolescentes e adultos jovens, o vape continua proibido no Brasil. Entenda quem usa, os riscos apontados pela ciência e o posicionamento da Anvisa.


Ilustração mostrando um vape e um cigarro convencional lado a lado, representando os riscos do tabagismo e do cigarro eletrônico.
Ilustração editorial criada com Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI), produção exclusiva para o Paranashop.

Os cigarros eletrônicos conquistaram espaço em festas, universidades, bares e até nas portas de escolas. Em poucos anos, os chamados vapes deixaram de ser um produto de nicho para se tornar um fenômeno de consumo, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. A expansão ocorreu mesmo com a venda proibida no Brasil, criando um cenário que preocupa médicos, pesquisadores e autoridades sanitárias.


Pequenos, discretos e disponíveis em dezenas de sabores, os dispositivos ganharam popularidade por oferecerem uma imagem mais moderna do que o cigarro convencional. Muitos usuários acreditam que o vapor produzido representa um risco muito menor à saúde, percepção que contrasta com o posicionamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Instituto Nacional de Câncer (INCA), do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Para esses órgãos, os cigarros eletrônicos não são produtos seguros e ainda existem importantes lacunas sobre seus efeitos a longo prazo.


O debate ganhou força porque envolve uma geração que, em muitos casos, nunca teve contato com o cigarro tradicional. Em vez de substituir um hábito antigo, o vape passou a ser a porta de entrada para o consumo de nicotina entre milhares de jovens, ampliando o desafio das políticas públicas de combate ao tabagismo.


Quem usa vape no Brasil


Embora pessoas de diferentes idades utilizem cigarros eletrônicos, as pesquisas mostram que o consumo está concentrado entre adolescentes e adultos jovens. Levantamentos nacionais apontam que a utilização é significativamente mais frequente na faixa de 18 a 24 anos do que entre a população adulta em geral.


Entre estudantes, o crescimento também chama a atenção. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) mostra que a experimentação de cigarros eletrônicos aumentou nos últimos anos, indicando que um número cada vez maior de adolescentes já teve contato com esses dispositivos, mesmo sem necessariamente se tornar usuário habitual.


Especialistas atribuem essa expansão à combinação de fatores comportamentais e comerciais. Os aparelhos são vendidos em formatos compactos, possuem design semelhante ao de equipamentos eletrônicos de consumo e oferecem essências com sabores de frutas, doces, bebidas e balas. O odor menos intenso em comparação ao cigarro tradicional também contribui para sua aceitação em ambientes sociais.


As redes sociais desempenham outro papel importante. Influenciadores digitais e vídeos curtos ajudam a criar uma imagem associada à modernidade, ao lazer e à socialização. Embora a publicidade desses produtos seja proibida no Brasil, conteúdos produzidos no exterior acabam alcançando consumidores brasileiros, fortalecendo o interesse pelo vape.


Um mercado proibido que continua crescendo


Desde 2009, a Anvisa proíbe a fabricação, a importação, a comercialização, a distribuição, o armazenamento, o transporte e a propaganda dos dispositivos eletrônicos para fumar. Em 2024, após uma ampla revisão técnica baseada em evidências científicas, a agência manteve a proibição por meio da RDC nº 855.


Na prática, porém, encontrar um vape não é difícil. Os dispositivos circulam em lojas informais, redes sociais, aplicativos de mensagens e até em pequenos estabelecimentos comerciais. Grande parte dos produtos entra no país por meio do mercado clandestino, sem qualquer controle de qualidade ou garantia sobre sua composição.


Esse cenário preocupa especialistas porque o consumidor raramente sabe exatamente o que está inalando. Além da nicotina, análises laboratoriais realizadas em diferentes países identificaram a presença de metais pesados, compostos orgânicos voláteis e outras substâncias potencialmente tóxicas em parte dos dispositivos disponíveis no mercado.


O crescimento desse comércio paralelo também representa um desafio para a fiscalização. Operações realizadas pela Receita Federal e pela Anvisa têm apreendido milhares de cigarros eletrônicos, mas a oferta continua elevada, impulsionada principalmente pelas vendas pela internet e pelas redes sociais.


A imagem de produto "menos perigoso"


Uma das principais razões para a popularização dos vapes é a ideia de que eles seriam praticamente inofensivos por não queimarem o tabaco como ocorre no cigarro convencional.


Essa percepção não é confirmada pelas autoridades sanitárias.


Os cigarros eletrônicos realmente funcionam de maneira diferente. Em vez da combustão do tabaco, eles aquecem um líquido que produz um aerossol inalado pelo usuário. Essa diferença pode reduzir a exposição a algumas substâncias tóxicas geradas pela fumaça do cigarro tradicional. Entretanto, isso não significa que o produto seja seguro ou livre de riscos.


Os líquidos utilizados podem conter nicotina em concentrações elevadas, aromatizantes, solventes e outros compostos químicos que, ao serem aquecidos, formam partículas capazes de alcançar profundamente os pulmões. Em dispositivos vendidos ilegalmente, a composição pode variar significativamente, aumentando ainda mais a incerteza sobre os efeitos da exposição contínua.


O que a ciência já sabe sobre os cigarros eletrônicos


Embora os cigarros eletrônicos sejam relativamente recentes quando comparados ao cigarro convencional, a produção científica cresceu de forma significativa na última década. Hoje, há consenso entre a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Anvisa, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e diversas sociedades médicas de que os vapes não são produtos inofensivos.


Ainda existem estudos em andamento para avaliar os efeitos após 20 ou 30 anos de uso contínuo. Mesmo assim, as evidências atuais já associam os dispositivos a alterações no sistema respiratório, aumento da dependência de nicotina, efeitos cardiovasculares e exposição a substâncias potencialmente tóxicas.


Entre os componentes encontrados em diferentes líquidos e aerossóis produzidos pelos cigarros eletrônicos estão:

  • nicotina em concentrações elevadas;

  • metais como níquel, chumbo e cromo;

  • partículas ultrafinas que alcançam os alvéolos pulmonares;

  • compostos orgânicos voláteis;

  • aldeídos produzidos pelo aquecimento dos líquidos.


A concentração dessas substâncias varia conforme o fabricante, o tipo de dispositivo e até a temperatura utilizada durante o consumo.


Outro fator de preocupação é a ausência de controle sanitário sobre a maioria dos produtos vendidos ilegalmente no Brasil. Em muitos casos, não há garantia de que a composição informada na embalagem corresponda ao conteúdo efetivamente inalado pelo consumidor.


A nicotina continua sendo o maior problema


Independentemente da forma de consumo, a nicotina permanece como a principal substância responsável pela dependência.


Nos modelos mais modernos de vape, ela costuma aparecer na forma de sais de nicotina, tecnologia que reduz a irritação na garganta e permite concentrações muito superiores às encontradas em diversos cigarros convencionais.


Isso significa que muitos usuários passam a consumir nicotina diversas vezes ao longo do dia, sem perceber a quantidade acumulada.


Enquanto um fumante normalmente acende um cigarro e termina o consumo em poucos minutos, quem utiliza vape costuma dar pequenas tragadas repetidamente durante horas. Em uma sala de aula, no escritório, dirigindo ou caminhando pela rua, o aparelho permanece à disposição o tempo todo.


Na prática, o consumo acaba sendo mais contínuo, favorecendo o desenvolvimento da dependência química.


Pesquisas também mostram que adolescentes expostos precocemente à nicotina apresentam maior risco de desenvolver dependência e maior dificuldade para abandonar o hábito na vida adulta.


Vape x cigarro convencional


A comparação entre os dois produtos costuma gerar debates intensos. A resposta da ciência é mais complexa do que um simples "sim" ou "não".


Especialistas reconhecem que o cigarro tradicional produz milhares de substâncias químicas resultantes da combustão do tabaco, incluindo grande quantidade de componentes comprovadamente cancerígenos.


Já o cigarro eletrônico elimina essa combustão, reduzindo a exposição a parte dessas substâncias. No entanto, introduz outros riscos relacionados ao aquecimento dos líquidos e ao consumo elevado de nicotina.


Por isso, o consenso atual pode ser resumido da seguinte forma:

  • Não há evidências de que o vape seja seguro.

  • Alguns estudos apontam menor exposição a determinadas substâncias tóxicas quando comparado ao cigarro convencional.

  • Essa possível redução não significa ausência de risco nem autoriza considerar o vape um produto saudável.


É justamente essa interpretação que fundamenta a posição adotada pela Anvisa.


Quadro comparativo

Característica

Vape

Cigarro convencional

Combustão do tabaco

Não

Sim

Produção de fumaça

Não, produz aerossol

Sim

Nicotina

Pode conter concentrações muito elevadas

Presente

Alcatrão

Não é produzido da mesma forma

Presente

Dependência

Alta

Alta

Situação no Brasil

Venda proibida pela Anvisa

Venda permitida com restrições legais

Segurança comprovada

Não

Não

O posicionamento da Anvisa


Depois de revisar centenas de estudos científicos nacionais e internacionais, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária decidiu manter a proibição dos dispositivos eletrônicos para fumar no Brasil.


Segundo a agência, ainda não existem evidências suficientes para demonstrar benefícios capazes de superar os riscos identificados. Além disso, preocupa o crescimento do consumo justamente entre adolescentes e jovens adultos, grupo que historicamente apresentava redução nas taxas de tabagismo.


A Anvisa também alerta que muitos fabricantes promovem os cigarros eletrônicos como alternativa saudável ou ferramenta para abandonar o cigarro tradicional. Até o momento, essa indicação não possui aprovação da agência reguladora brasileira.


Para quem deseja parar de fumar, a orientação oficial continua sendo procurar acompanhamento médico e utilizar métodos com eficácia comprovada, como programas de cessação do tabagismo oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e medicamentos aprovados para esse fim.


Impactos sociais e econômicos de um mercado clandestino


A proibição da comercialização dos cigarros eletrônicos não eliminou a demanda. Pelo contrário, abriu espaço para um mercado clandestino que movimenta milhões de reais todos os anos. Os produtos chegam ao consumidor por meio de importações irregulares, vendas em redes sociais, aplicativos de mensagens e pequenos estabelecimentos, sem qualquer garantia de origem ou controle de qualidade.


Para as autoridades, esse cenário cria um duplo desafio. De um lado, há a necessidade de combater o comércio ilegal e a sonegação de impostos. De outro, cresce a dificuldade de fiscalizar produtos cuja composição muitas vezes é desconhecida, aumentando o risco para os consumidores.


No campo da saúde pública, especialistas alertam que uma eventual ampliação do número de dependentes de nicotina poderá elevar, no futuro, a demanda por tratamentos médicos relacionados a doenças respiratórias e cardiovasculares. Embora muitos desses impactos ainda estejam sendo estudados, o histórico do tabagismo demonstra que os efeitos costumam aparecer ao longo dos anos.


O cotidiano de quem usa vape


A popularização dos cigarros eletrônicos também alterou hábitos sociais. Como o vapor se dissipa rapidamente e deixa menos odor do que a fumaça do cigarro convencional, muitos usuários acreditam que o uso é mais discreto e menos incômodo para quem está por perto.

É comum encontrar jovens utilizando o aparelho em encontros com amigos, intervalos de aulas, festas, bares e até no ambiente de trabalho. Em muitos casos, o vape permanece no bolso e é utilizado diversas vezes ao longo do dia, sem a percepção de que o consumo de nicotina pode ser maior do que o imaginado.


Profissionais de saúde relatam ainda outro aspecto: muitos pacientes procuram atendimento acreditando que não são fumantes porque utilizam apenas cigarros eletrônicos. Essa percepção pode retardar a busca por tratamento para dependência de nicotina e dificultar campanhas de prevenção.


Um debate que continua aberto


Enquanto alguns países regulamentaram o uso dos cigarros eletrônicos para fumantes adultos, sob regras rígidas de fabricação, comercialização e controle sanitário, o Brasil optou por manter a proibição. A decisão da Anvisa baseia-se na avaliação de que os riscos identificados, especialmente para adolescentes e jovens, superam os possíveis benefícios apresentados pelos fabricantes.


A comunidade científica continua produzindo pesquisas para compreender os efeitos do uso prolongado. Como esses dispositivos surgiram há pouco mais de uma década, muitas respostas sobre impactos após 20 ou 30 anos ainda dependem do acompanhamento das gerações que começaram a utilizá-los.


Apesar das divergências sobre políticas públicas, há um ponto de consenso entre médicos e autoridades sanitárias: o cigarro eletrônico não deve ser tratado como um produto inofensivo. A aparência moderna, os sabores variados e a ausência da fumaça típica do cigarro convencional não eliminam os riscos associados ao consumo de nicotina e de outras substâncias presentes no aerossol.


Uma decisão que exige informação


A história do tabagismo mostra que hábitos de consumo podem mudar rapidamente quando surgem novas tecnologias. Os vapes representam uma dessas mudanças e desafiam governos, profissionais de saúde e famílias a lidar com um fenômeno que combina inovação, marketing e comportamento.


Para o consumidor, a melhor ferramenta continua sendo a informação baseada em evidências científicas. Conhecer os riscos, compreender o posicionamento das autoridades sanitárias e avaliar criticamente as promessas divulgadas nas redes sociais são passos essenciais para uma decisão consciente sobre um produto que ainda desperta muitas dúvidas e poucas certezas.


Edição: Marcos Paulo Assis📧 marcos@paranashop.com.br

Esta reportagem foi produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com apuração complementar, revisão, checagem e edição humana, seguindo os padrões editoriais do Paranashop.

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