Quilos Mortais: por que e como as pessoas chegam à obesidade mórbida?
- Da Redação com Assessoria
- 21 de mai. de 2024
- 4 min de leitura
O programa Quilos Mortais Brasil estreou no início de maio nos serviços de streaming. O que muitas pessoas que assistiram aos primeiros episódios, ou que já assistiram a versão americana do programa, devem estar se perguntando é: como uma pessoa chega a esse nível de obesidade? Por que se deixaram levar até este ponto? E o que surpreende é que muitos obesos só perceberam que havia algo errado com o peso quando começaram a sofrer consequências sociais e de saúde.
Segundo o presidente do Capítulo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) no Paraná, José Alfredo Sadowski, a obesidade é uma doença crônica e multifatorial. A sua progressão para a obesidade mórbida envolve uma combinação de influências genéticas, distúrbios psicológicos, distúrbios endócrinos, maus hábitos alimentares e falta de exercícios físicos.
“A obesidade mórbida é resultado de uma complexa interação de fatores, incluindo também influências familiares, distúrbios alimentares como compulsão, problemas de saúde mental, alterações hormonais e metabólicas, escolhas alimentares pouco saudáveis e a falta de exercícios físicos. Todos são elementos que contribuem para o desenvolvimento dessa condição. Buscar o tratamento o quanto antes é fundamental para o controle da doença”, explica o cirurgião bariátrico.
Dados
Segundo levantamento da SBCBM, cerca de 33,4% da população brasileira é considerada obesa, com base em relatório produzido pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do Ministério da Saúde. Isso equivale a aproximadamente 72,6 milhões de pessoas. A obesidade é classificada em três níveis:
Grau I (leve) - acomete 20,76% dos brasileiros (45 milhões de pessoas)
Grau II (moderada) reúne 8,31% da nação (18 milhões de pessoas)
Grau III (mórbida, índice de massa corporal (IMC) acima de 40 kg/m²) - que é o público mostrado no Quilos Mortais - atinge 4,41% da população nacional (9,5 milhões de pessoas)
Todos os pacientes grau II e III que possuam alguma comorbidade, entre outros quesitos, são elegíveis para a cirurgia bariátrica. Porém o cirurgião bariátrico José Alfredo Sadowski alerta que, apesar de bastante segura, a cirurgia fica mais complexa quanto maior o nível de obesidade.
“É importante que os pacientes entendam que a obesidade é uma doença crônica progressiva e que busquem ajuda e tratamento o quanto antes, não deixando chegar em estágios mais severos como os mostrados no programa da TV. Um tratamento precoce e adequado diminui bastante os riscos de complicações permitindo uma cirurgia bariátrica mais segura”, explica Sadowski.
No âmbito estadual, o Paraná apresenta uma prevalência de 4,7% dos habitantes enfrentando o Grau III e 9,2% o Grau II da doença, segundo dados do SISVAN.
"Esses números demonstram a complexidade do problema e a necessidade de ações direcionadas à conscientização e ao tratamento. É fundamental termos investimento em políticas públicas, programas educacionais e estratégias integradas de saúde para reverter essa tendência", diz Sadowski.
O número de procedimentos realizados no Paraná através do SUS ainda não retomou o volume pré-pandemia. Em 2023 foram realizadas 1.884 cirurgias no sistema público enquanto eram operadas 7.456 pessoas em 2019.
"Nós observamos o aumento nas cirurgias bariátricas realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com um crescimento de 26,8% entre 2022 e 2023. Contudo, é importante notar que ainda não atingimos os níveis pré-pandêmicos, com uma queda significativa de 40,2% em comparação com 2019", relata o presidente da SBCBM no Paraná.
A quantidade de gordura abdominal e o acúmulo de gordura no fígado são fatores que podem dificultar o acesso de instrumentos cirúrgicos até o estômago e intestino. O excesso de gordura também pode restringir a movimentação da respiração, gerando algum risco respiratório durante a cirurgia.
Por isso, para a maioria dos pacientes com níveis mais severos de obesidade, é indicado a perda de 5% a 10% do peso antes da operação. Em casos mais graves, algumas vezes são necessários outros tratamentos para se obter essa perda de peso antes da cirurgia, como o uso de medicamentos ou de balões gástricos.
“Perder um pouco de peso antes da cirurgia pode fazer uma diferença significativa na segurança e na eficácia do procedimento. Por isso, a SBCBM preconiza que o tratamento pré-operatório leve em consideração mudança de hábitos alimentares, prática de exercícios físicos, uso de medicamentos e até mesmo a utilização de outros recursos como os balões intragástricos, por exemplo”, comenta o cirurgião bariátrico.
Entre os personagens do Quilos Mortais está Marcelo Marques Gomes, de 43 anos, que chegou aos 202 quilos. No episódio, ele contou que era muito comum as pessoas o chamarem de “sem vergonha”, “relaxado” e que ele “comia demais”. Na rua, todo mundo julga com o olhar. Isso, disse ele, fez com que ele pensasse que estava “relaxado mesmo” e achou que nunca ia conseguir perder peso para a cirurgia. Isso o desanimou. Já a Andrea, personagem de outro episódio do Quilos Mortais, quase não percebeu que caminhava para a obesidade mórbida. Sem ânimo para muitas atividades, passou a ficar muito tempo na cama, sozinha, fazendo refeições. Passou a olhar-se pouco no espelho, até que começou a sentir as dificuldades da obesidade. Hoje precisa da ajuda do marido para atividades básicas, como lavar o cabelo e tomar banho. Quando solicita comida por um aplicativo, joga uma sacola para que o entregador coloque dentro e ela puxe com uma corda, por não conseguir mais descer as escadas do sobrado. Com um provável quadro depressivo associado, Andrea não percebeu para onde a obesidade estava chegando e sua única saída foi a cirurgia bariátrica. Ainda há muito a se fazer em termos de conscientização da população de que a obesidade é uma doença incurável e progressiva, e que pode atingir níveis extremamente severos se não for tratada adequadamente. E o preconceito só vai diminuir a partir dessa conscientização.



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