Segunda-feira, 26 de outubro de 2026 Tempo · Cotações · Horóscopo · Agenda · Guias

O pior cego é aquele que não quer enxergar

Dr. João Fernando Monteiro Ferreira Presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo Já aviso que esta análise é...

Dr. João Fernando Monteiro Ferreira

Presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo

Já aviso que esta análise é extremamente perecível, ou seja, as informações nas quais ela foi baseada podem se transformar e, portanto, seu conteúdo rapidamente caducar. Em relação ao COVID-19, podemos aceitar os seguintes fatos como indiscutíveis e aceitos universalmente:

1 – Estamos em pandemia: fato consumado, visto o coronavírus ter acometido milhões de pessoas em todos os continentes. O próprio Ministério da Saúde brasileiro reconhece este fato, tanto que já no mês de fevereiro cobrava que a Organização Mundial da Saúde declarasse o coronavírus uma pandemia mundial.

2 – Mortalidade: a despeito da real mortalidade ser desconhecida, este vírus mata e a maioria das mortes são preveníveis, seja pela prevenção a exposição ou com atendimento especializado para os doentes moderados e graves. Portanto, não está exclusivamente a cargo do destino ou da natureza morrer ou não morrer de COVID-19, e concretamente podemos poupar e salvar vidas.

3 – Tratamento medicamentoso: neste momento não existe medicação reconhecidamente eficaz e segura para este vírus. Em relação à hidroxicloroquina, o atual placar das evidências científicas dá uma goleada quanto ao não benefício do medicamento. Entretanto, ainda temos que aguardar estudos científicos com alto nível de evidência científica sobre a hidroxicloroquina e outros medicamentos.

4 – Prevenção e vacina: vacina não pode ser vista como uma solução em curto prazo, e provavelmente, também não em médio prazo. É otimista e razoável esta estratégia poder ser aplicada em massa a partir de 2021.

5 – Prevenção: o que dá para fazer hoje? Primeiro, vamos diferenciar os termos “isolamento” e “distanciamento” social. Segundo o dicionário Houaiss, “isolamento” é o estado da pessoa que vive isolada, que se pôs ou foi posta à parte; “distanciamento” é a ausência de envolvimento diante do que se passa em torno. O isolamento nos remete ao “lockdown”, o bloqueio total ou confinamento. Trata-se de uma medida extrema e geralmente reservada para momentos de tragédia sanitária. Já o distanciamento evitaria a propagação da doença e impediria que chegasse à tragédia sanitária.

O que deve ser feito hoje? O Brasil hoje é considerado um dos epicentros da doença e, portanto, devemos salvar vidas com medidas agressivas de isolamento ou distanciamento social e garantir recursos físicos e humanos para o atendimento hospitalar dos doentes graves.

E o que deve ser feito amanhã? O governo federal defende o “distanciamento vertical”, ou seja, restrita aos grupos de risco para má evolução da doença. Mas qual será a melhor estratégia: isolar idosos e pacientes com comorbidades, ou isolar os já contaminados, incluindo os assintomáticos? A meu ver, as estratégias atualmente efetivas para prevenir contágio, e assim salvar vidas e permitir o retorno a uma mínima “normalidade” social e econômica, dependem tanto da população como do governo. Cabe à população aderir em massa às medidas de prevenção do contágio com o uso de máscara facial, lavagem as mãos e evitando aglomerações. E cabe ao Governo a testagem maciça da população, identificação e isolamento dos casos positivos. Testar, testar, testar e isolar os positivos parece ser, neste momento, a única forma de se retornar com segurança às atividades sociais e econômicas.

Não tenho dúvidas que a sociedade ou governo sozinhos nunca irão vencer esta crise, e que a única chance de sucesso é a união de esforços e ações da sociedade e governo. Contra a escuridão só a união e a ciência podem trazer a luz. Assim, no Brasil o diálogo deve prevalecer sobre a discórdia e a ciência deve prevalecer sobre a política.