top of page

Caridade e o Capital de Deus

  • Foto do escritor: Da Redação com Assessoria
    Da Redação com Assessoria
  • 16 de ago. de 2022
  • 5 min de leitura

Paiva Netto

A Caridade, na sua expressão mais profunda, deveria ser um dos principais estatutos da Política, porque não se restringe ao simples e louvável ato de dar um pão. É o sentimento que — iluminando a Alma do governante, do parlamentar e do magistrado — conduzirá o povo ao regime em que a Solidariedade é a base da Economia, entendida no seu mais amplo significado. Isso exige uma reestruturação da Cultura, por intermédio da Espiritualidade Ecumênica e da Pedagogia do Afeto, no meio popular e como disciplina acadêmica. Contudo, no campo intelectual, que o seja sem qualquer tipo de preconceito que reduza, em determinadas ocasiões, a perspectiva de grandes pensadores analíticos, pelo fato de alguns deles se submeterem a certos dogmatismos ideológicos e científicos, o que é inconcebível partindo de mentes, no supino, lucubradoras. Até porque a Ciência é pródiga em conquistas para o bem comum. Mas também, no seio dela e em outras áreas do saber, houve os que muito sofreram incompreensão, por causa do convencionalismo castrador, mesmo de certos pares que apressadamente os prejulgavam. Vítimas deles foram 

Sócrates

,

 Bias

,

 Baruch Spinoza

,

 Dante Alighieri

,

 Galileu Galilei

,

 Semmelweis

,

 William Harvey

,

 Samuel Hahnemann

,

 Maria Montessori

,

 Luísa Mahin

,

 Dr. Barry J. Marshall

,

 Dr. J. Robin Warren

 e outros nomes célebres, universalmente acatados. Em suma, a Caridade, sinônimo de Amor, é uma Ciência especial, a vanguarda de um mundo em que o ser humano será tratado como merece: de forma humana, portanto, civilizada. Estaríamos, assim, erigindo um Império de Boa Vontade neste planeta, o estado excelente para o Capital de Deus — ou seja, o ser humano com seu Espírito Eterno ou, poderíamos dizer, o Espírito Eterno do ser humano, o que verdadeiramente somos em essência —, que circula por todos os cantos e não mais pode aceitar especulação criminosa de si mesmo. (...) Esta ponderação da educadora e escritora brasileira 

Cinira Riedel de Figueiredo

 (1893-1987) vem ao encontro do que anteriormente abordamos: 

“De cada homem e cada mulher depende o aprimoramento de tudo quanto nasce, cresce, vive e se transforma sobre a Terra, porque, de fato, nada morre. Existe uma contínua transmutação, e devemos ser os guias para que essa transformação se faça uma ascensão constante, tornando-se cada vez mais bela e mais perfeita para representar melhor a vida que a anima”.
Não nos situamos no reino das nuvens

A distorção do pensamento a respeito do abrangente significado da Caridade tem produzido grande prejuízo à sociedade. É preciso, em definitivo, entendermos que, no mais amplo sentido, o Mandamento Sublime da sobrevivência pessoal e coletiva é a Caridade. Ela se expande por todos os estratos da atuação criativa espiritual-humana, nos quais aguarda o convite da Alma para nela manifestar-se.

Philipp Melanchthon

 (1497-1560), o respeitado teólogo e educador alemão que liderou o luteranismo após a morte de 

Martinho Lutero

 (1483-1546), colocou-se do lado dos que preferem servir, ao citar o seguinte aforismo: “

Nas coisas necessárias, unidade; nas coisas incertas, liberdade; em todas as coisas, a caridade”.

Ensinava o 

Apóstolo Paulo

, em sua Primeira Carta aos Coríntios, 13:13, que, das três virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade), a maior delas é a Caridade, que, como não nos cansamos de repetir, é sinônimo de Amor. Duvida?! Basta consultar um bom dicionário. Há, igualmente, os que acreditam ser a Caridade a ação de fracos, fuga dos que não desejam a solução definitiva para os problemas sociais... Só que as propostas que, por tanto tempo, vêm apresentando não resolveram as aflições do mundo. É que tudo deve começar pelo ser humano com o seu Espírito Eterno, o alvo da Caridade, que não é o refúgio de sonhadores ou proposta escapista de gente acomodada. Pelo contrário. Tê-la como decisão de vida, de atividade promotora de transformações profundas na sociedade, a partir do sentimento de cada criatura, exige determinação, caráter e coragem, consoante demonstra o célebre orador da Antiguidade 

Demóstenes

 (384-322 a.C.), ao afirmar: 

“Não podes ter um espírito generoso e valente se tua conduta é mesquinha e covarde; pois quaisquer que sejam as ações de um homem, tal será o seu espírito”.
Caridade — Plano Divino de preservação da Vida

Não haverá Sociedade Solidária, e, possivelmente, com o tempo, o próprio planeta como o conhecemos, se não compreendermos a Caridade como um Plano Divino para que haja sobreviventes à avidez humana. Por falar em Deus, bem apropriado para o texto esta máxima de 

Mary Alcott Brandon

“Existe uma força superior que dirige o Universo. O nome que dermos a ela é secundário”.

Pobre é quem ignora a perfeita Lei de Fraternidade e de Justiça, aquele que se esquece do Criador e de Suas criaturas. Palavras de 

Eliú

, Livro de 

, 34:11 e 12: 

“Deus retribui ao homem 
segundo as suas obras
 e faz que a cada um toque segundo o seu caminho. Na verdade, Deus não procede maliciosamente; nem o Todo-Poderoso perverte o juízo”.

Por intermédio da psicografia de 

Chico Xavier 

(1910-2002), o famoso médium espírita de Uberaba/MG 

Cornélio Pires

 (1884-1958), jornalista, poeta e um dos maiores divulgadores do folclore brasileiro, deixou registrado, no livro 

Conversa firme

, esta sugestiva quadrinha:

“Sociedades e grupos
São destinados ao Bem,
Deus não cria mal nenhum
Nem cativeiro a ninguém”.
Fraternidade é a Lei. Ética, a sua disciplina. Justiça, a sua aplicação.

 Ninguém mais infeliz do que o indigente da Fé e da Caridade. Quem é verdadeiramente rico? Aquele que ama. Como sábio e afortunado é o que da mesma forma se comporta, promovendo o bem-estar da sociedade. É o caso do filósofo, médico e musicólogo, intérprete de 

Bach

 (1685-1750), 

Albert Schweitzer

 (1875-1965), que por mais de 50 anos cuidou dos doentes em Lambarene, antiga África Equatorial Francesa. Dizia ele: 

“Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única”.

O conhecido missionário, que também foi Prêmio Nobel da Paz de 1952, era tido por 

Albert Einstein 

(1879-1955) como 

“o maior homem vivo”

 de sua época. 

Gandhi

 (1869-1948) já havia sido assassinado. Por termos confiança no ideal da Boa Vontade, persistiremos até alcançarmos a concretização da Economia da Solidariedade Espiritual e Humana, firmada no Novo Mandamento de 

Jesus 

(Evangelho, segundo João, 13:34; e 15:13) — 

“Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. (...) Não há maior Amor do que doar a própria vida pelos seus amigos”

 —, parte integrante da Estratégia da Sobrevivência, conforme publiquei em 1986, na 

Folha de S.Paulo.
Elevado espírito social

O avanço tecnológico tem derrubado muitas fronteiras e feito algumas desabar sobre outras. Entre elas, econômicas e sociais. Contudo, a globalização não vai impedir a diversidade. Porquanto, se mundializa, dá também expressão ao regionalismo. De várias formas, todo mundo influencia todo mundo. No entanto, barreiras, em diversas partes do planeta, ainda tornam cada vez mais distantes ricos e pobres. Isso pode resultar em consequências profundas, em amplitude internacional, a exemplo do fim do Império Romano. Entretanto, desta vez, tais transformações poderão provocar providências inusitadas até em corações de pedra, antes contrários ao pragmático espírito de Caridade, que serão levados a pensar que existem algumas coisas vitais, até mesmo para eles, como... a compaixão. (...) Caridade não é pífio sentimentalismo, a que alguns gostariam de reduzi-la. Acertou, pois, quando escreveu o grande 

Joaquim Nabuco

 (1849-1910), primeiro embaixador brasileiro nos EUA: 

“À luta pela vida, que é a Lei da Natureza, a Religião opõe a Caridade, que é a luta pela vida alheia”

. O que seria mais importante para o fortalecimento das comunidades do que esse elevado espírito social? É possível igualmente esperarmos do alto significado da Caridade, na atitude diária, o completo caminho da verdadeira independência de nossa pátria. Caridade é assunto sério.

José de Paiva Netto ― Jornalista, radialista e escritor.

Comentários


bottom of page